É engraçado como os telespectadores decidem quase por inteiro se algum show vai fazer sucesso ou não, se é bom ou não, independente da realidade. Não importa se a história é realmente boa, a única coisa que importa é se a maioria das pessoas está assistindo o que lhe é enfiado goela abaixo. Geralmente a indústria é muito boa em influenciar a massa nesse quesito, consegue transformar um show ruim em sucesso de bilheteria, e deixa que tantos outros bons caiam no esquecimento e cancelamento de novas temporadas.

One Day at a Time (2017) é um desses exemplos que caiu no esquecimento e cancelamento de temporada por falta de "viewers". É um seriado reboot (original de 1975) que se distancia de seu original pela maneira em que a história é contada, por se uma família cubana-americana, e pelo local em que ocorre (ao invés de ser situada em Indianápolis, os personagens vivem em Los Angeles, uma região que certamente possui uma grande densidade de famílias cubano-americanas na vida real). Apesar de todas essas diferenças, ainda temos uma mãe de família criando seus filhos adolescentes sem a presença do pai, que ainda é vivo, mas separado da mãe. Na série mais recente de 2017 temos também a presença da abuelita, personagem de Rita Moreno, que vive com sua filha e seus netos no apartamento do bairro Echo Park. Essa presença com certeza acrescentou um tom a mais de comédia e nuances nos relacionamentos interpessoais dos outros personagens.

A história conta de maneira leve e precisa o dia a dia de uma família com uma mãe que trabalha o dia inteiro, uma avó que mima seus netos, dois adolescentes convivendo embaixo do mesmo teto, e o carinhoso e intrometido síndico que faz parte de suas vidas. O fato é que a história é muito mais do que isso. A mãe, Penélope Alvarez (Justina Machado) é uma enfermeira veterana de guerra que tem que lidar com todos os problemas que isso implica, como depressão e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), ao mesmo tempo em que tem uma mãe, Lydia (Rita Moreno), que acha que terapia é coisa de gente doida. A filha, Elena (Isabella Gómez), além de ter os problemas comuns da adolescência, ainda tem que lidar com sua recente descoberta sobre quem realmente é, e infelizmente com o medo de ser rejeitada por sua família e amigos por apenas ser ela mesma, lésbica e com orgulho. O filho, Alex (Marcel Ruiz), está crescendo e percebendo que o mundo é muito mais do que comprar tênis caros e ser mimado por sua avó. Ele está se transformando em adolescente e suas ações precisam levar em conta o mundo que o rodeia. A avó, Lydia, tem que lidar com o fato de que seu marido Berto (Tony Plana) já faleceu, com o fato de que sua filha precisa tomar remédios antidepressivos, com o fato de que sua neta é lésbica, e com o fato de que seu netinho preferido já não é mais uma criança e precisa aprender as coisas da vida. O síndico e dono do prédio, Schneider (Todd Grinnell), é o amigo que a Penélope precisa, é o filho que a Lydia não teve (teve sim, mas com certeza adota Schneider), é o modelo meio paternal de Alex e uma espécie de mentor para Elena. O pai e ex-marido de Penélope, Victor (James Martínez), também veterano de guerra, aparece como um pai ausente que tenta se reaproximar de seus filhos de alguma maneira, mas que ainda tem muitos problemas por conta de seu TEPT, que não quer admitir que tem, e que precisa de ajuda para conseguir voltar a ser uma pessoa saudável.

A série retrata muitos tópicos delicados com um cuidado imenso e de uma maneira muito próxima da realidade. Muitas vezes vemos na mídia essa falta de sutileza e falta de tato ao lidar com assuntos do gênero, o que às vezes pode ser percebido até mesmo como agressivo. Em One Day at a Time vemos exatamente o que o título do seriado propõe, um dia de cada vez. Um dia vivido com o foco em resolver os problemas diários e lidar com esses temas tão complexos com calma e paciência. É um seriado e ao mesmo tempo um aprendizado, pois vamos acompanhando a evolução dos personagens e aprendendo com eles meios de lidar com os problemas da vida. É sinceramente uma pena que esse seriado tão bem escrito e executado tenha sido cancelado por falta de telespectadores. É estranho que exista essa falta de telespectadores, ainda mais considerando os prêmios que foram alcançados pelo seriado em suas primeiras temporadas. É uma tragédia das massas e da indústria da filmagem.


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