Cem Anos de Solidão: uma jornada pela Macondo de García Márquez 

Rebeca está brincando na água barrenta do rio. O avô está esculpindo enfeites no formato de peixinhos dourados no galpão... e o circo está chegando para se apresentar. Uma grande tragédia mítica se formava na mente do jovem Gabriel García Márquez.

"Macondo era então uma aldeia de vinte casas de pau a pique e telhados de sapé construídas na beira de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos."

Essa é a segunda frase da obra-prima literária Cem Anos de Solidão, logo após a citação que melhor representa o realismo mágico: "Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo". Na adaptação da Netflix, a descrição da aldeia é apresentada através de um plano-sequência que acompanha uma criança nua, Arcadio. Duas cenas antes dessa, vemos José Arcadio Buendía explorando o extenso pantanal para guiar seus vizinhos por ele. Em um sonho, ele mergulha em um rio cheio de pedras tão polidas quanto ovos pré-históricos. Ao lado do rio, surge uma cidade e, em um momento de revelação divina, ele escuta o nome Macondo.

Muitos anos atrás, peguei um ônibus rural em Santa Marta, na Colômbia, e desci na entrada da cidadezinha de Aracataca. No caminho para o centro, também havia um riacho ladeado de pedras. As crianças pulavam na água e tomavam banho de sol nas margens. Uma garotinha brincava com lama e, por um momento, imaginei que ela poderia se transformar em Rebeca, a garota que come terra úmida no livro.

Uma garotinha brincando na água barrenta do rio.

Meu destino era a casa onde García Márquez passou toda a infância. O autor de Cem Anos de Solidão nasceu nessa cidadezinha em 6 de março de 1927.

Quando estava olhando as fotos que tirei com o celular, me lembrei que a cidadezinha não era particularmente deslumbrante. As casas de pau a pique descritas no romance foram, é claro, substituídas há muito tempo por casas de tijolos. Ao contrário de um típico centro urbano colombiano, não havia uma Praça Bolívar rodeada pelas habituais igreja, prefeitura e escola.

Seguindo estritamente o livro, a série situou a cidade fictícia de Márquez, Macondo, nos arredores de Alvarado, onde 1100 trabalhadores construíram quatro cenários distintos que representam diferentes períodos históricos da cidade. A equipe de gravação, composta por cerca de 600 pessoas, era inteiramente colombiana. Além da Macondo fictícia, todos os outros locais de filmagem também ficavam na região centro-norte da Colômbia. Os 25 personagens principais e 20000 figurantes também eram quase inteiramente colombianos, com apenas 30% do elenco principal tendo experiência anterior em atuação. Na página da série na Wikipédia, apenas três atores têm páginas próprias: Viña Machado, a modelo de 45 anos que interpreta Pilar Ternera; Ruggero Pasquarelli, o cantor italiano que interpreta Pietro Crespi, o músico que se casa com alguém da família Buendía; e Salvador del Solar, o ator peruano que interpreta Moncada, o alcaide de Macondo desde o fim da guerra.

Pôster de Cem Anos de Solidão da Netflix.

A recusa em escalar grandes estrelas, a insistência em uma produção totalmente local e a atenção meticulosa aos detalhes na construção dos cenários garantem que Cem Anos de Solidão da Netflix corresponda às expectativas dos leitores de García Márquez no mundo todo.

Afastando-me da série e retornando à minha própria jornada à antiga casa de Márquez, me lembrei o quanto os cenários do escritor para Macondo, suas caracterizações e sua estrutura narrativa estão profundamente enraizados nessa modesta residência, agora chamada de "Casa Museu Gabriel García Márquez". Atrás da porta da frente fica o quarto do avô de Márquez, Nicolás — um espaço onde ele não permitia que o neto o incomodasse. É a mesma casa em Aracataca para onde a família fugiu — assim como seus equivalentes na ficção — em 1910 para escapar do inimigo Medardo Pacheco, que Nicolás matou em um duelo.

O quarto de Nicolás, avô de Gabriel García Márquez.

Um dia, o avô de Márquez levou o neto ao circo para ver os animais. Quando voltaram, o jovem Márquez sentiu como se tivesse visto o mundo inteiro e começou a ler um dicionário de 2000 páginas. Mais tarde, em 1950, enquanto trabalhava como jornalista e viajava de aerobarco por Nova Orleans, Márquez releu Luz em Agosto, de William Faulkner. Com base na cidade mágica de Yoknapatawpha, de Faulkner, nas memórias de infância ao cruzar rios com a mãe, em As Mil e uma Noites e nas realidades do trabalho exploratório da United Fruit Company na Colômbia, Márquez começou a transformar sua cidade natal em Macondo.

Enquanto estava na casa, orgulhosamente postei fotos da minha visita nas redes sociais, exibindo minha experiência. Uma amiga, que traduziu Cem Anos de Solidão para o chinês, viu o post e comentou: "Saber que essa foto foi tirada no quarto do avô de Márquez é muito emocionante". Outro amigo, um jornalista que mora nos Estados Unidos, brincou: "Você é igual São Tomé, tinha que ver pra crer!".

A antiga residência de Márquez não tentou reivindicar Aracataca como Macondo. Pelo contrário, os textos de apresentação do local contam que, em 2006, os moradores realizaram um referendo para mudar o nome da cidade para "Aracataca-Macondo", mas a ideia teve baixa adesão.

Atrás do quarto do avô fica o quarto onde faleceu tia Petra. Quando criança, Márquez foi avisado pela avó, Tranquilina Iguarán Cotes, para não perturbar os espíritos que permaneciam ali depois das 18h. No livro, essa tia é representada por Amaranta Buendía, a idosa que, prevendo a própria morte, começa a tecer sua mortalha. Na noite em que termina, ela finalmente se liberta.

Em um canto do jardim fica o galpão onde Nicolás passava o tempo esculpindo enfeites de peixinhos dourados, e também onde Tranquilina fazia aerografia. Tanto no romance quanto na adaptação, José Arcadio e Aureliano, pai e filho, utilizam o galpão de ferramentas para praticar sua alquimia inexperiente, criando peixes dourados. Enquanto isso, a mãe inventa uma linha de doces populares em formato de animais.

O galpão onde Nicolás passava o tempo livre.

Em 1932, durante a guerra entre Peru e Colômbia na cidade de Letícia, na região amazônica, Márquez vivenciou suas primeiras "férias de guerra". Enquanto isso, as autoridades locais exigiram que os moradores entregassem ouro e prata para financiar o conflito.

No jardim ergue-se um enorme castanheiro. Talvez por medo de que os inimigos o seguissem em busca de vingança, Nicolás sempre dormia com um revólver debaixo do travesseiro. Essa vigilância apreensiva inspirou Márquez a criar José Arcadio Buendía, o idoso amarrado pela família a um castanheiro, onde permaneceu até que Úrsula o libertou pouco antes de sua morte.

O castanheiro no jardim.

As salas de estar e jantar onde as mulheres se movimentavam são os maiores cômodos da casa. Essas mulheres se dedicavam a preparar as refeições e servir os convidados. Como a casa costumava receber até 16 visitantes por vez, Tranquilina tornou-se inspiração para Úrsula Iguarán, a mulher que aguentou seis gerações da família Buendía. No livro, Úrsula administra a casa com uma intuição misteriosa na velhice, tanto que ninguém percebe que ela ficou cega. No momento de sua morte, ela havia encolhido até o tamanho de um feto.

O quarto de Márquez, onde viveu desde a infância até a adolescência, não parece ter inspirado diretamente nenhuma cena específica do romance. Segundo a placa na parede, após o nascimento de Márquez, sua mãe, Luisa, foi morar em outro lugar até que um dia voltou para visitá-lo. "Fiquei sentado perto da porta, sem saber qual das mulheres lá fora era minha mãe, até que ela abriu os braços e falou as palavras mais lindas que já ouvi na vida", relembrou Márquez.

A cama de Gabriel García Márquez na infância.

A casa foi demolida após a morte de Nicolás, mas acabou sendo reconstruída depois que Márquez ganhou fama.

Quando meu avô faleceu, a casa desapareceu junto com ele, assim como a cidade. É como se um furacão devastador tivesse varrido tudo. Rapidamente compreendi a essência do mito: as tragédias monumentais que usei como material para meus livros eram todas baseadas na realidade. Meu desafio era derrubar a barreira entre o real e o imaginário, disse Márquez em um simpósio em Madri no ano de 1969.

Mas por que, no pátio meticulosamente cuidado por Úrsula e nas ruas encharcadas de chuva do romance, eu ouvia os sons de uma banda punk ensaiando? Minha viagem no tempo até Cem Anos de Solidão foi abruptamente puxada de volta à realidade de 2016 pela explosão repentina de uma música alta. Ao sair da casa, vi um vendedor ambulante sacudindo seu maracá no ritmo do punk.

Muro em memória de Gabriel García Márquez na cidade de Aracataca.

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