O que teria sido de nós no isolamento social sem filmes, séries, games e outras formas de entretenimento? Até a reprise da novela Fina Estampa eu cheguei a assistir, meu Deus, que situação. Mas, entre todas as obras que consumi naqueles meses tenebrosos, há uma que se destacou entre as demais (além de visitar as ilhas dos meus amigos em Animal Crossing: New Horizons, claro): Midnight Gospel.
A série animada estreou na Netflix em abril de 2020, quando o nosso futuro parecia incerto e o número de vítimas da pandemia só crescia. Eu havia acabado de sair de um relacionamento extremamente complicado e estava morando sozinha pela primeira vez.
Com medo de contrair o vírus e transmiti-lo para alguém da minha família, permaneci em completo isolamento até setembro. Não visitei ninguém e não recebi visitas, o que deixou toda a situação ainda mais complexa e delicada. Em casa, tinha a companhia dos meus gatos e, virtualmente, a dos meus amigos. E claro, não é novidade para ninguém como a pandemia nos afetou de diferentes maneiras — o mundo inteiro precisou lidar com isso, e com coisas piores.
Saber minimamente qual era meu contexto mental nessa época é importante para entender como Midnight Gospel me impactou. Foi uma reflexão profunda, dolorosa e necessária sobre a vida, quem somos e para onde vamos — e também sobre um dos temas mais difíceis para mim e para praticamente qualquer ser humano, especialmente durante a pandemia: o luto.
O que é Midnight Gospel
Desde que as animações para adultos ganharam espaço nas plataformas de streaming, muitas delas se limitaram a repetir fórmulas de comédia, sátira social ou críticas à cultura pop. No entanto, Midnight Gospel, criada por Pendleton Ward (o mesmo de Hora de Aventura) e pelo comediante Duncan Trussell, se destaca como uma obra radicalmente diferente.
A série não apenas desafia os padrões narrativos tradicionais da animação, como também se propõe a explorar questões profundas sobre a existência, a morte e a mente humana, tudo isso por meio de um formato que mistura entrevistas reais com universos imaginativos e psicodélicos. Assim, a produção cria uma categoria própria: é uma experiência visualmente impressionante e emocionalmente transformadora.
Ward teve a ideia após ouvir The Duncan Trussell Family Hour, podcast em que cada episódio traz convidados com histórias reais. O programa virou a base para Midnight Gospel, que é, basicamente, um podcast animado.

Na animação, Trussell dubla o personagem Clancy enquanto conduz entrevistas reais sobre temas filosóficos, espirituais e existenciais. Pendleton Ward transforma essas conversas em episódios ambientados em mundos surreais. Cada episódio é uma avalanche de informações que nos faz pensar sobre amor, individualidade, espiritualidade, mortalidade e tantos outros tópicos que fazem parte da nossa existência.
No começo de cada capítulo, Clancy acessa seu “simulador de universos” para visitar planetas imaginários, onde encontra personagens bizarros, de mortos-vivos a políticos alienígenas. A fusão de conversas autênticas com animação fantasiosa é uma das grandes inovações de Midnight Gospel. Aliás, os episódios não são curtos como em animações tradicionais.
Lembro de ter ficado um pouco perdida no começo, sem saber se deveria seguir em frente. Isso porque o que está sendo dito pelos personagens não necessariamente reflete o que está acontecendo na tela. É uma representação livre e, às vezes, caótica, da conversa que estamos ouvindo. Inicialmente, é um desafio prestar atenção em tudo, mas garanto que o esforço vale a pena.

Uma viagem diferente de todas as outras
Por trazer experiências reais vividas pelos entrevistados, Midnight Gospel não parece um debate superficial dos temas que aborda. Para mim, quase todos os episódios representam uma oportunidade de reflexão pessoal profunda.
Frente aos dilemas existenciais dos personagens, muitos deles espelhando os nossos próprios medos e pensamentos, somos convidados a confrontar nossas questões de um modo menos intimidante do que um documentário tradicional poderia proporcionar. O resultado é uma experiência que, apesar de intensa, pode ter também um efeito terapêutico, e isso merece atenção especial.
O melhor episódio de Midnight Gospel é o último, “Mouse of Silver”, em que Clancy conversa com a mãe de Trussell, a psicóloga Deneen Fendig. Ela gravou o áudio para o podcast do filho em 2013, três semanas antes de morrer de câncer de mama. Aqui, tudo o que a série representa atinge seu ponto máximo. Foi, de longe, o episódio que mais me emocionou e transformou.
É uma despedida pública da mãe de Trussell, que reflete com muita tranquilidade e sinceridade sobre a morte, enquanto os personagens percorrem um ciclo de envelhecimento e renascimento. A série se torna o registro íntimo de uma conversa definitiva, a última chance de uma mãe compartilhar toda sua sabedoria com o filho. E sinto que nós, espectadores, somos absolutamente privilegiados de ter acesso a isso.

A serenidade de Deneen ao falar sobre estar morrendo, e sobre ter encontrado paz nesse fato inevitável, é o que aperta o coração de quem está assistindo. É um tópico que assusta absolutamente todos nós — alguns mais, outros menos. No meu caso, o que mais me apavora é o fato de que ainda não tive que lidar com uma perda devastadora. E eu sei que esse momento vai chegar; então, sofro com a antecipação dessa dor.
Tento não deixar esses pensamentos me dominarem quando estou ao lado das pessoas que mais amo nesta vida, mas, como alguém que lida com ansiedade, confesso que já imaginei como reagiria à morte da minha avó pelo menos algumas centenas de vezes ao longo destes 30 anos. É algo que domina meus pensamentos antes de dormir desde criança. Penso em como seria o funeral dela e se eu estaria em condições de ir. E eu sei que não há como se preparar para nada disso, mas a cada ano que passa e vejo ela envelhecendo, esse medo dentro de mim só aumenta.
E, apesar de ter cutucado fundo meu pior pesadelo, o último episódio de Midnight Gospel também trouxe uma sensação enorme de acolhimento. O monólogo de Deneen nos convida a repensar a relação que temos com a perda (ou com o medo de lidar com ela). Ela mostra que parte da maturidade emocional consiste em reconhecer que a vida é um ciclo contínuo de chegadas e despedidas. Acredito que o impacto de ter assistido à série durante a pandemia foi ainda maior, já que o medo de perder pessoas próximas era uma realidade diária.

É difícil terminar o episódio sem sentir que algo foi ressignificado internamente. Tenho certeza de que minhas lágrimas não foram de tristeza — não sei exatamente do que foram, mas eu não estava triste, apenas imensamente emocionada e surpresa por jamais imaginar que viveria uma viagem emocional tão grande assistindo a uma animação.
Obviamente, nada disso foi suficiente para acabar de uma vez por todas com os medos que sempre tive. Imagino que alguns deles nunca irão embora, e tudo bem. Faz parte da nossa humanidade. E, felizmente, tenho falado muito sobre isso na terapia. Mas talvez seja a hora de fazer algo para o qual ainda não tive coragem: rever Midnight Gospel, para lembrar a mim mesma que tudo vai ficar bem.
É uma pena que a série tenha sido cancelada pela Netflix, que prefere apostar em conteúdos mais populares. Mas hoje não estou aqui para lamentar o fim dessa obra, e sim sua existência. Deixo o convite para você também fazer essa jornada, caso ainda não tenha feito. Garanto que não há absolutamente nada igual por aí.



Compartilhe sua opinião!
Seja a primeira pessoa a iniciar uma conversa.