Aquilo tudo era muito confuso para mim.
Não entendia porque uma garota podia sofrer tanto por um garoto. Era suicídio mental.
Lola andava de um lado para o outro esperando todos chegarem, estávamos adiantados. Encostado na parede de tijolos expostos do estabelecimento eu fingia estar ocupado escrevendo no meu bloco de notas uma lista com coisas que eu poderia estar fazendo se não estivesse ali.
Dias antes Vicente a chamou para sair em grupo e isso foi o suficiente para a esperança de voltar com o ex-namorado acender novamente. Lola estava prestes a abrir um buraco no chão de tanto ir e voltar incansavelmente quando a parei para oferecer um Halls de menta, em vão.
Ela havia me pedido para usar algo um pouco mais “elegante” e eu fiz o possível: coloquei minha única camiseta que não estava amassada e o blazer de linho velho que um dia foi do meu pai. Reparei novamente em Lola.
Foi impossível disfarçar a minha cara de espanto quando a vi de maquiagem e vestido vermelho um pouco antes. Sempre a vejo no colégio de uniforme ou usando tons claros quando saímos.
Puxei Lola pelos ombros para o meu lado na tentativa de fazê-la parar de se mexer. O que não funcionou, porque ela começou a bater o coturno contra a parede. Soltei um suspiro irritado e retornei à minha lista, afinal, eu estava ali só de enfeite para acompanhar Lola, como seu segurança ou algo do tipo.
Estávamos na frente de um pub, que sinceramente, parecia bem acima do nosso orçamento. As pessoas que saíam e entravam no local eram quase todas iguais. Arrumadas demais, com saltos e topetes altos demais. O grave de dentro vazava pela porta tocando hard rock por uma banda local.
Desembrulhei mais um Halls quando o doce e enjoativo cheiro de baunilha invadiu o ambiente. Bianca. O nervosismo tomou conta de mim. Eu não queria ver ela. Não hoje. Minha meta principal de problemas estava em Lola no momento, e não em Bianca.
-Ícaro! -Bianca gritou de longe soltando a mão do namorado e correndo até mim.
-Bianca! -forcei um sorriso e retribui o abraço. Aquela droga de abraço que eu não queria sair. Meu estômago embrulhou ao pensar nisso.
-E aí, Ícaro! Desculpa a demora. Estão esperando o Vicente, né? -Henrique disse indo até mim e me dando um aperto de mão desproporcionalmente forte.
Nós assentimos e ambos cumprimentaram Lola. Henrique arrumou seu topete loiro e começou a conversar paralelamente com Bianca.
-Você sabia que eles eram os “amigos” do Vicente? -perguntei baixo quando percebi que o casal parecia distraído.
-Não… Se eu soubesse não tinha te colocado nessa… -ela respondeu parecendo irritada pela acusação. Duvidei um pouco de sua palavra. -Você tá bem?
-Acho que sim
Lola me olhava preocupada e ao invés de voltar a andar de um lado para o outro resolveu ficar parada na minha frente.
-Tem certeza? -ela insistiu arqueando as sobrancelhas.
-Desculpem pelo atraso, tive que esperar meu pai chegar com o outro carro -Vicente disse se aproximando de nós. Lola sorriu entre uma risada nervosa antes de abraçá-lo.
Vicente e Lola entraram lado a lado na minha frente. A conversa deles se tornou cada vez mais indistinta ao ponto em que adentramos o pub e o grave e o agudo das caixas de som se unificaram. Tocava Radio Gaga do Queen em um inglês meio torto.
O ambiente interno era escuro, com paredes pretas e quadros de figuras famosas do rock e do pop internacional. O palco onde a banda cover tocava e o balcão do bar eram os únicos lugares realmente iluminados. Alguns abajures pequenos nas mesas faziam o papel de iluminar os cardápios e luzes azuis e vermelhas contrastavam nas extremidades opostas do lugar.
Escolheram uma das únicas mesas vazias ao centro do salão. Esperei todos sentarem porque sabia que estava em desvantagem. Fiquei com a cadeira da ponta e ouvi Henrique em um tom brincalhão dizer que eu pagaria a conta. Sorri o suficiente para ele voltar seu olhar para o cardápio e eu poder fechar a cara.
Apenas concordei com a cabeça quando decidiram pedir batatas e iscas de frango. Ouvir a banda ao vivo praticamente no escuro no volume máximo era um hiperestímulo que eu não estava acostumado. Era semelhante a sensação de esquecer os óculos e sair na rua tendo cinco graus de miopia. Você não sabe ao certo para onde olhar.
O garçom chegou com duas garrafas de um litro de cerveja e começou a espalhar os copos. Olhei para Lola, olhei para os copos e olhei para Lola novamente. Ela apenas sorriu nervosamente enquanto Vicente nos servia.
-Não, obrigada… -Bianca tampou o seu copo com a mão. -Vou pedir uma caipirinha. Quer uma também, Lola?
Lola assentiu positivamente. Encarei-a tentando estabelecer contato e ela desviou o olhar envergonhada.
-Hum… Então vocês preferem algo mais doce… -Vicente disse irônico. -Parece que vai sobrar mais para nós três…
Os dois ergueram seus copos esperando eu acompanhá-los. O que eu fiz, mesmo sem entender que aquilo era um brinde. Bebi um gole tentando disfarçar o amargor da bebida, não queria ter que admitir mas não estava acostumado com isso. Os dois riram satisfeitos enquanto eu me perguntava como meu pai podia gostar de beber isso aos domingos.
O fato é que, depois de alguns copos e da chegada das fritas, a cerveja parecia cada vez menos ruim e a conversa dos dois mais interessante. A escuridão do salão parecia menos incomodativa e a banda, eu confesso, parecia até melhor.
Vicente e Henrique contavam os trabalhos que ainda teriam que fazer no curso de direito e como tinha sido a experiência no primeiro semestre. Eles riram de mim quando disse que ia prestar vestibular para Letras.
-E você, Ícaro? Conhece essa música? -Henrique perguntou me dando uma cotovelada por cima da mesa.
-Say It Ain't So…? -saiu mais como uma pergunta. Olhei novamente para o palco, outra banda havia subido.
-Eu amo Weezer, mataria para ir em um show deles -ele voltou ao encosto da cadeira e esticou o braço atrás de Bianca que conversava com Lola. -O vocal não é do nosso curso?
-É? Eu não sei, espera aí… Hum, não sei não -Vicente concluiu já alterado. -Eu preciso de um cigarro -ele se levantou da mesa.
-Quer ir com a gente? -Henrique perguntou também se levantando e puxando Bianca pela mão que pareceu confusa.
-Não, valeu… Talvez mais tarde
Fumar estava além dos meus limites de sociabilidade.
O casal conversou algo baixo, entre eles. Bianca sentou novamente e ele lançou um olhar como quem diz “tem certeza?”. Bianca apenas assentiu com a cabeça e lançou um beijo no ar antes dele sair atrás do amigo.
Lola e Bianca pularam para a cadeira em que antes estavam os dois e voltaram a conversar. Ia dar mais um gole de cerveja mas senti a ponta do meu nariz começando a ficar mais leve. Achei melhor parar.
-Os meninos estão sendo muito malvados com você? -Bianca disse em um tom metade sério metade brincadeira.
-Não… Já são meus novos melhores amigos -elas riram.
-Eles sabem como ser chatos…
-Aonde fica o banheiro? -Lola perguntou.
-Lá naquela portinha ao fundo. Quer que eu vá com você? -Bianca respondeu amigável.
Lola olhou para mim como se esperasse ter uma resposta. Mas naquele momento eu ainda estava analisando os efeitos colaterais da bebida em meu corpo evitando me mexer sem necessidade.
-Não precisa… Tá tranquilo! -Lola afirmou depois de perceber que eu não tinha nenhuma expressão clara no rosto.
Quando Bianca viu que ela já estava longe o suficiente, se virou para mim e aproximou a cadeira.
-Como tá o seu irmão? -foi como se eu ficasse sóbrio na hora.
-Bem… Eu acho?
-Eu não tive notícias sua depois daquele dia… Desculpa se for delicado falar sobre isso… Eu só… -ela me olhou nos olhos e isso foi o suficiente para revirar o meu estômago de novo.
-Não, tá tudo bem… Aquele dia foi complicado mesmo -a interrompi.
Um silêncio desconfortável se instaurou. Ela não havia falado nada de mais. Afinal, ela estava lá comigo quando tudo aconteceu. E desde então, tudo tinha mudado. Vê-la não era apenas um lembrete do que nós podíamos ter sido, era um lembrete de quanto tempo havia passado.
-Obrigada por ter ido comigo ver ele e… Sabe, ter virado a noite comigo no hospital -continuei como se não tivesse passado muito tempo entre uma frase e outra.
-Não precisa me agradecer por isso…
Nossos joelhos se encostaram por baixo da mesa e Bianca se afastou devagar quando percebeu.
-Eu ainda penso naquele dia às vezes -falei me arrependendo logo em seguida. Soltei um longo suspiro. -Se as coisas tivessem sido diferentes…
-Eu sei… -ela respondeu com um sorriso triste dessa vez desviando o olhar.
A nova banda tocava Love Will Tear Us Apart do Joy Division, a mesma música que Bianca me mandou quando combinamos de sair pela primeira vez. Ela estava olhando para o palco. Pensei em pergunta-la se lembrava disso, pensei em muita coisa, mas Henrique e Vicente voltaram.
-Estavam falando mal da gente? -Vicente chegou puxando a cadeira.
-Como vocês sabiam? -ela riu.
-Você tá ouvindo, amor? -Henrique perguntou beijando o topo de sua cabeça.
-Claro, é a nossa música! -ela respondeu rindo. -Vem, vamos dançar… -Bianca levantou puxando ele até a frente do palco onde alguns outros casais dançavam.
Ver os dois juntos deveria doer mais do que doeu. Minha dor no estômago foi aumentando de intensidade até o ponto em que, olhando para os dois juntos mais uma vez, simplesmente parou. Como se esse peso que estivesse comigo, de repente, apenas não fizesse mais sentido.
Talvez eu tivesse dissociando, talvez fosse a bebida, mas senti por um momento como se aquilo tudo fosse muito pequeno. Nada podia ser mudado. Eu e Bianca não éramos mais as mesmas pessoas.
Meu celular vibrou com uma mensagem de Lola: “Pode me encontrar lá fora?”.
Olhei para Vicente que escrevia em seu celular com um pequeno sorriso. Apenas levantei de uma vez. Foi quando senti meu corpo desbalanceado. Me mexi mecanicamente. Um pé depois do outro tomando cuidado para não esbarrar em nada.
Sai do pub e o ar cortante da madrugada me atingiu como um soco. Lola já estava lá, encostada na mesma parede de tijolos, batendo o pé contra ela em uma intensidade maior do que mais cedo. Seu rosto parecia cansado e seu olhar perdido em algum ponto distante dali.
-Aconteceu alguma coisa? -perguntei e senti um frio na espinha quando ela me encarou como se eu tivesse feito uma pergunta estúpida.
Ela permaneceu em silêncio. Parecia contida como se fosse explodir a qualquer momento. Cheguei a questionar mentalmente se eu tinha feito ou falado algo de errado mais cedo.
-Lola? -coloquei a mão em seu ombro. -Meu Deus, você está congelando… Quer meu blazer? -ela balançou a cabeça concordando.
-Vicente não quer nada comigo, eu interpretei tudo errado -ela soltou.
-E por que parece que você tá brava? Ele foi babaca ou falou alguma coisa que…
-Eu sou uma idiota, é por isso que eu tô brava -ela cruzou os braços.
-Você não é uma idiota… Você só foi, sabe, tem outra palavra melhor…
-Imbecil!?
-Não! Você só foi… Meio… Ingênua, talvez!? -afirmei com medo genuíno de Lola.
-Não, eu fui idiota mesmo. Por que eu achei que algo fosse mudar ou ainda, que algo fosse realmente acontecer!?
-Por que você ainda gosta dele? -ela me olhou irritada. -Eu não tô perguntando, é uma resposta para a sua pergunta…
-Eu não sei por que eu ainda gosto dele, talvez eu nem goste dele mesmo, eu só goste da atenção que ele me dava -ela se acalmou por um momento. -Sabe, ele foi a primeira pessoa que olhou para mim de verdade…
-Isso não é verdade, Lola…
Ela ficou em silêncio, como se não quisesse ir por esse caminho.
-Como você sabe que ele não quer nada com você? Eu passei metade na noite conversando com ele e a outra perto dele, ele não deu nenhum sinal positivo ou negativo…
-Eu estava conversando com Bianca e ela me contou sobre a outra garota que Vicente está saindo, ela soltou sem querer -seu tom agora era triste.
-E por que ele te chamou para sair então?
-Eu sei lá! -ela ficou na defensiva. -Talvez eu que tenha ido atrás dele, okay?
-É… Então você foi meio idiota sim -disse rindo levemente.
-Cala a boca!
-Foi você que disse isso de você mesma
-Idiota é você que ficou todo abalado por causa da Bianca -ela retribuiu.
-Não fui eu que coloquei um vestido só pra ver ela… -respondi já irritado.
O breve silêncio de Lola foi quebrado por soluços. Ela estava chorando e borrando toda a sua maquiagem. Seu choro era desproporcional como se tivesse segurando a dias.
-Ei, Lola… Desculpa -segurei seus ombros tentando fazê-la parar. -Eu falei besteira, desculpa…
-Você tem razão, eu sou uma idiota! O vestido, a maquiagem, a caipirinha… Nada disso sou eu… Eu tô tão, tão cansada, Ícaro…
Puxei seus ombros a abraçando. Ela me segurou forte e desabou em lágrimas até elas cessarem. Coloquei as mãos em sua cintura tentando não a prender. Ela resmungou algo abafado pelo abraço. Depois repetiu se ajeitando com a cabeça em meu ombro.
-Obrigada…
Foi só quando ela levantou a cabeça que eu percebi o quanto estava perto. Perto de verdade. Eu conhecia Lola há anos. Ainda assim, por um segundo, tive a estranha sensação de estar olhando para alguém que nunca tinha visto antes.
-Pelo o que!? Eu fui desproporcional -passei o polegar em sua bochecha tentando tirar a maquiagem borrada.
-Obrigada por ter ficado aqui comigo, eu me sinto ridícula -seus olhos voltaram a marejar.
-Se isso te consola, eu também me sinto… Sabe, acho que eu fiquei preso naquela história com a Bianca e sei lá… Eu fui o meu próprio carrasco
-Como assim?
-Talvez eu só não soubesse como deixar isso pra trás, não com o que aconteceu com o…
-Com seu irmão, né? -ela indagou.
-É… Eu também precisei ser outra pessoa por um tempo, alguém que eu não gostei muito de ser -agora o tom triste vinha de mim.
Por um momento, não quis me mexer. Parecia que qualquer movimento muito brusco faria eu perder aquele instante, o único em que me senti confortável a noite inteira. Lola não precisou dizer que sentia o mesmo. Ela apenas encostou novamente a cabeça em meu ombro e ficamos assim por mais algum tempo, sem dizer mais nenhuma palavra.



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