Saddam e o galo 

O cinema produzido no Irã (ou pelo menos as produções que chegam ao Ocidente) já contou várias histórias protagonizadas por crianças. Tais tramas presentearam o público com personagens encantadores, como a esperta Razieh, protagonista de O Balão Branco, de Jafar Panahi. Em 2026, é o Iraque o país responsável por trazer para as telas uma garota com uma tarefa hercúlea. Em O Bolo do Presidente, dirigido por Hasan Hadi e que estreia no Brasil no dia 4 de junho, voltamos aos anos 1990, onde a guerra causa precariedade, especialmente quando o assunto é comida. Somos apresentados a pequena Lamia no momento em que ela se divide entre a falta de um almoço e a tensão pela possibilidade de ser escolhida pela turma da escola para ser a responsável por preparar um bolo. Mas não é qualquer bolo. O presidente Saddam Hussein determinou que todas as instituições preparem a iguaria em comemoração ao seu aniversário.

Observar uma criança temer por seu futuro por conta do capricho de um ditador é, por si só, uma experiência complicada. Mas Lamia nos conquista por não medir esforços para realizar a tarefa que lhe foi dada, apesar de deixar claro em seus diálogos e olhares que não simpatiza em nada com o aniversariante. E os olhares são os pontos fortes do filme, a começar pela brincadeira preferida da protagonista com seu melhor amigo, Saeed. Fixar o olhar no outro sem piscar parece uma boa metáfora para a aventura que Lamia irá viver. Ao saber que terá que preparar o bolo para o presidente, ela sai com a avó para uma tarde de compras (no caso, de trocas, pois o dinheiro está escasso) que se encerra num açougue. Mas não é para garantir o bife do jantar que a avó leva a neta até o local. Ao saber que irá morar com os donos do estabelecimento, Lamia foge, acompanhada de seu inseparável animal de estimação, o galo Hindi. Mas correr do que lhe aguarda não é seu único objetivo: ela também está atrás de ovos, farinha, açúcar e fermento. Sim, ela sabe que precisa preparar o bolo que seu professor irá provar e, se tudo der certo, aprovar.

O que se segue é uma série de reviravoltas onde a busca pelos ingredientes torna-se um detalhe para mostrar como é difícil ser crianças. No Iraque em guerra, é um pouco pior. Lamia e sua inteligência arrumam maneiras de conseguir dinheiro, fazer escambos e até ajudarem uma mulher prestes a dar à luz. Em alguns momentos, Saeed está com ela, mas isso não lhe garante segurança ou mais destreza na realização de seus planos. É um menino como ela, mas que já sabe os privilégios que a masculinidade lhe dá, mas parece não entender (assim como alguns homens adultos) alguns medos que atravessam as mulheres desde sempre. Em uma das cenas mais angustiantes do longa, a mise-en-scène é simples, talvez para não acentuar ainda mais o medo no espectador. Diante de um comerciante muito solícito, que salva a vida de Hindi, Lamia é acompanhada até a entrada de um cinema, onde os cartazes deixam claro que seus freqüentadores não estão em busca dos lançamentos da Sétima Arte. Lamia é esperta e percebe rápido que vai precisar seguir correndo. Se possível, para bem longe dali.

O Bolo do Presidente não é inovador em sua forma, apesar de apresentar propostas de uso de câmera interessantes, especialmente ao filmar a corrupção e alguns rituais típicos do Iraque. No entanto, é impossível não se impressionar com a ideia de absurdo da trama. O diretor coloca uma menina que mal tem o que comer para conseguir ingredientes para um bolo que ela talvez nunca saiba o sabor. Apesar dos relâmpagos de realidade (e dos seus perigos quando se é uma menina andando sozinha pelas ruas), há um toque de fantástico na odisseia de Lamia. A imagem de Saddam Hussein surge a todo o momento, em quadros, fotos e outras breguices em sua homenagem, como se ele estivesse de olho na garota. E está. Todos os olhos estão voltados para ela, com diferentes objetivos. Mas ela segue com seu propósito sabendo que ele é parte de um jogo que, para ela, está só começando. Seu olhar firme ganha uma potência extra quando o jogo com Saeed acontece no meio de um bombardeio. Ela perde muitas coisas pelo caminho, mas não é apenas pela companhia do galo Hindi que sabemos que ela não está só. Há algo nos olhos de sua avó, mesmo num outro plano, que faz de Lamia uma heroína. Não porque salva o dia, mas a própria pele.



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