O que A VIDA DE CHUCK está tentando nos dizer? Spoilers

Mesmo não sabendo praticamente nada sobre A Vida de Chuck, esse era um dos filmes que eu mais estava curioso e ansioso para assistir em 2025. É a mais recente adaptação de uma obra de Stephen King (fonte inesgotável de referências para Hollywood), e na verdade nem será a última que veremos neste ano, mas chama a atenção especialmente por ser mais uma daquelas histórias que “nem parece que é Stephen King”, nome que de 9 em 10 casos está associado ao terror. E mesmo contando com um diretor que fez sua casa no gênero, Mike Flanagan, A Vida de Chuck evita as principais características de um terror e persegue uma espécie de jornada existencialista, daquelas que sempre me chamou muita atenção.

E devo avisar de antemão que este texto terá spoilers sobre o filme, já que eu considero um tanto complicado falar sobre A Vida de Chuck, e particularmente do que considero bem-sucedido e problemático nele, sem olhar para detalhes específicos de sua execução.

Com apenas a imagem de um Tom Hiddleston de óculos escuros dançando em uma paisagem estrelada com luzes fortes, A Vida de Chuck é capaz de capturar a atenção em seu pôster principal. Não é uma imagem que diz muito sobre o que o filme é em si, mas bastou para me chamar atenção. E quando ele tem inicio, o espectador também fica um bom tempo sem compreender o que de fato está acontecendo, ainda mais com o letreiro que informa que começaremos pelo Ato 3, entitulado de “Obrigado, Chuck”. É uma sequência de aproximadamente meia hora que começa de forma quase apocalíptica, com um grupo de personagens de locais e profissões diferentes encarando o que parece ser o fim do mundo: a internet pára de funcionar, acidentes e terremotos não param de acontecer, e apenas a propaganda misteriosa agradecendo pelos anos de trabalho de um tal Chuck parece ter algum tipo de propósito naquela paisagem.

Devo dizer, quase me deu a impressão de ser uma versão melhorada de Fim dos Tempos (sim, aquele do M. Night Shyamalan), já que é essencialmente o que mais se aproxima de uma história clássica de Stephen King. Há o medo, o mistério e o desconhecido, mas com uma abordagem intimista e muito humana, que se deve muito ao roteiro bem redondo de Mike Flanagan, sua direção atmosférica e também o excelente trabalho do elenco, que neste segmento é encabeçado pelo sempre confiável Chiwetel Ejiofor. O segmento finaliza justamente com a destruição do mundo inteiro, mas é apenas o primeiro ato (ou terceiro).

A próxima parte do filme é dedicada, apropriadamente, ao segundo ato narrativo. É o mais curto em duração e progressão da história, já que é basicamente uma cena única: nela, o Chuck interpretado por Tom Hiddleston é apresentado como um contador, e durante uma viagem a trabalho, acaba parando em uma praça para dançar tão bem como Fred Astaire ao se encantar pela música de uma baterista de rua. Apesar de não ser uma grande contribuição narrativa, digo a vocês que essa sequência inteira é uma das melhores que assisti em 2025. Quanta energia, quanta magia e encanto, simplesmente por uma percussão de bateria constante, e os passos impressionantes de Hiddleston, que usa de todo seu charme e carisma em uma sequência estendida, ainda mais quando outras pessoas param para assistir e até acompanhá-lo. Pura magia, e até confesso que revi o clipe mais de uma vez posteriormente.

Porém, o segundo ato não é algo que resolve o “mistério" de A Vida de Chuck, que chega em seu terceiro segmento para apresentar o “começo”. Aqui, temos a realização completa de quem é Chuck, desde sua infância marcada pela perda trágica dos pais e o convívio com os avós (foi bacana ver Mark Hamill atuando em algo que não seja Luke Skywalker ou Coringa, a propósito) e seu desenvolvimento escolar, onde Flanagan traz um pequeno coming of age para ilustrar o clássico embate do protagonista dividido entre seus sonhos artísticos, representados aqui pela dança, e a carreira mais estável ditada pelos números; antecipando a formação de Chuck na carreira de contador.

A partir daí, o primeiro/terceiro ato passa a resgatar diversos outros membros do elenco da primeira meia hora de história, mas em outros papéis, o que revela a grande abordagem de Flanagan em sua adaptação. Já adulto, Chuck sofre com uma doença terminal, e toda a representação do fim do mundo era uma forma de ilustrar como sua mente, suas lembranças e todas a pessoas que passaram por sua vida estão deixando de existir. É uma escolha intrínseca com uma frase recorrente do longa, em relação às multitudes e universos particulares de cada indivíduo. No papel, eu adoro essa ideia, mas infelizmente não consegui aproveitá-la integralmente em execução, e creio que o problema esteja justamente na estrutra do filme.

Ao simplesmente colocar cada ato em ordem invertida, Mike Flanagan parece ter diminuído o impacto emotivo e dramático. A ideia de iniciar por um cataclisma mundial é inspirada e levanta o mistério, mas quando ele simplesmente acaba e vamos acompanhando a “verdade” passo por passo, é quase como se fosse simples demais, burocrático demais. Mesmo com os bons momentos, com as ótimas performances e catarses, não pude deixar de terminar A Vida de Chuck com um frustrante sentimento de “era só isso?”, ainda mais levando em conta o mistério final que o longa tenta levantar, em relação ao conteúdo de uma sala que o jovem Chuck não poderia adentrar em hipótese alguma. É mais um exemplo de ter uma resposta boa, mas uma execução mediana.

Na minha mente de editor, não pude deixar de imaginar como A Vida de Chuck poderia ser aprimorado com um trabalho no setor de montagem. Talvez se Flanagan optasse não por uma simples apresentação decrescente de atos, mas ao invés disso uma narrativa que misturasse os três atos de forma constante, para atingir a realização e a catarse em seu clímax, o resultado poderia ter sido melhor, ou pelo menos mais grandioso.

O tom que fica aqui é de uma grande decepção, mas há muito mais do que eu gostei do que desgostei no filme de Flanagan (aquela dança ainda é simplesmente sensacional), mas a mera realização de que poderia ter sido melhor, e com um ajuste relativamente simples, é algo que não saiu da minha cabeça. Às vezes, é realmente só sobre a ordem dos fatores.

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