De Murdoch a uma obra-prima teatral shakespeariana: O grande final de Succession (1/2) 

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O processo criativo e o contexto de Succession (2018-2023) foram bastante tumultuados. Apesar de seu começo discreto, acabou se tornando uma série de sucesso muito esperada. Enquanto a história se passa nos Estados Unidos, a equipe criativa por trás dela é formada principalmente por dramaturgos e roteiristas do Reino Unido, com uma profunda experiência em comédia shakespeariana. A série em si incorpora o distinto humor britânico caracterizado por uma comédia sombria e desconfortável.

01 A origem de Succession

Vamos voltar ao ano de 2009.

O roteirista Jesse Armstrong elaborou uma história intitulada "The Murdochs" que retratava a tentativa do magnata da mídia, Murdoch, de garantir o direito de voto para as duas filhas pequenas (Chloe e Grace), com sua esposa Wendi Deng, no aniversário de 78 anos em sua empresa de notícias. Esse roteiro circulou desenfreadamente nos círculos de produção de Hollywood, mas sua realidade ficcional foi considerada ousada demais para qualquer produtora assumir o projeto.

"The Murdochs" – 12 de julho de 2009 (4ª versão)

O colunista Frank Rich foi um dos entusiastas do roteiro. Vários anos depois, ele se encontrou com Jesse Armstrong no set da série norte-americana Vice e sugeriu à HBO que Jesse se envolvesse em um projeto chamado provisoriamente de Imperialists. No entanto, o projeto não se concretizou. Jesse continuou expandindo sua pesquisa sobre magnatas da mídia, dando origem a um novo roteiro chamado Successors, que se concentrava em quatro irmãos em uma competição por direitos iguais de voto no conselho da empresa de mídia do pai. O roteiro chamou a atenção dos executivos da HBO e do diretor Adam McKay. Após a mudança de nome para Succession, Jesse e Adam começaram a produção do episódio piloto.

02 Succession: um começo discreto

O elenco do episódio piloto se reuniu na casa do diretor-produtor Adam McKay para uma sessão de leitura do roteiro. Era 8 de novembro de 2016, noite da eleição presidencial dos Estados Unidos.

À medida que a noite avançava e todos descobriam desanimados que Trump se tornaria o 45º presidente dos Estados Unidos, Adam McKay, especialista em comédia satírica, comentou ironicamente: "Bem, pessoal, a boa notícia é que Succession finalmente tem um motivo para existir.".

A primeira temporada de Succession foi ao ar em junho de 2018. Como sua estreia aconteceu no meio do ano, a HBO não investiu muito em publicidade para ela. Comparado a outras séries como Barry e Insecure, pareceu que a emissora não tinha muita confiança em Succession.

03 Succession: um núcleo da televisão britânica

Embora a série tenha ido ao ar na HBO e a história se passe nos Estados Unidos, o criador de Succession, Jesse Armstrong, é britânico. A maioria dos outros escritores que se juntaram à série também tinha experiência em comédia shakespeariana, com mais da metade deles sendo roteiristas e dramaturgos britânicos.

Portanto, embora pudéssemos pensar que estávamos assistindo apenas a outra série norte-americana sobre magnatas corporativos, a essência central de Succession está enraizada na tradição britânica de comédia de humor sombrio e cringe.

04 Comédia britânica vs. comédia norte-americana

O mestre da comédia britânica, Stephen Fry, resumiu de maneira brilhante os estilos de humor do Reino Unido e dos Estados Unidos: tradicionalmente, o humor norte-americano deriva do otimismo e da esperança, enquanto o humor britânico tende a amplificar os fracassos e o desespero. A comédia norte-americana se recusa a ver a si mesma através de lentes negativas, enquanto a comédia britânica geralmente termina com o fracasso do protagonista.

Por exemplo, Seinfeld (1990-1997) é uma clássica representação da comédia norte-americana. Por meio de observações incisivas e desconstruções da vida, o protagonista conquista o público com sua sagacidade. Porém, na tradicional comédia britânica, quanto mais autoproclamada esperta a pessoa é, mais ela acaba vivenciando situações embaraçosas.

Na série britânica, The IT Crowd (2006-2013), por exemplo, o protagonista acaba fingindo ter uma deficiência depois de usar um banheiro para pessoas com deficiência.

De maneira semelhante, a série norte-americana Silicon Valley (2014-2019) da HBO, que também gira em torno de indivíduos conhecedores de tecnologia, retrata muitas situações embaraçosas, mas o destino dos personagens é mais positivo e otimista em comparação com os protagonistas de The IT Crowd que não tem esperança de avanço.

As redes televisivas tradicionais dos EUA (NBC, CBS, ABC, FOX, CW) enfatizam especialmente as avaliações, e os executivos temem que, se o protagonista for desagradável ou tiver valores questionáveis, os telespectadores possam ficar enojados e abandonar a série. Portanto, as séries norte-americanas tradicionais seguem uma fórmula para o desenvolvimento do personagem para garantir que a imagem do protagonista conquiste o público e ressoe com ele.

É claro que também existem algumas séries norte-americanas que não seguem essa fórmula tradicional, como Parks and Recreation: Confusões de Leslie e Arrested Development – Caindo na Real. Embora algumas pessoas acompanhem essas séries nos Estados Unidos, ainda são consideradas obras de nicho em escala nacional.

Por outro lado, séries britânicas conhecidas por seu humor cringe e desconfortável, como I'm Alan Partridge, Peep Show e Blackadder, não tiveram o mesmo nível de popularidade fora do Reino Unido, mas obtiveram altas avaliações e aclamação da indústria no país.

É importante observar que a discussão acima sobre o humor britânico e norte-americano é uma generalização. Exceções sempre podem ser encontradas dentro de seus respectivos domínios.

05 Sem The Thick of It, não haveria Succession

Se você está acostumado a tomadas de câmera fixas e narrativas leves, sua primeira experiência ao assistir The Thick of It pode parecer como assistir a um DVD pirata mal gravado. E essa é precisamente a singularidade de The Thick of It, com sua técnica de filmagem imersiva pseudodocumental.

The Thick of It

Além disso, The Thick of It destrói nossa ilusão de uma sociedade britânica refinada que fala em inglês apresentada pela BBC.

Na série, há uma pessoa que não consegue parar de xingar. Essa pessoa é Malcolm Tucker, um consultor de relações públicas (Spin Doctor) com forte sotaque escocês que trabalha ao lado do primeiro-ministro.

Malcolm repreende qualquer pessoa que encontra, independentemente do gênero, do porte físico ou da aparência. Na boca de Malcolm, os humanos são tratados de maneira igual e são submetidos a um abuso verbal imparcial, implacável e sem escrúpulos. Se essa série estivesse em outro lugar, poderia ser criticada, banida, e os escritores poderiam até enfrentar boicotes públicos.

Esses destemidos escritores britânicos ousam despir a fachada hipócrita de seus próprios cidadãos, permitindo que o mundo veja histórias e personagens que são retratados com alta fidelidade mesmo após o processamento artístico. É por isso que muitas séries norte-americanas populares são como fast-food e deixam seu público saturado, enquanto dramas britânicos concisos e impactantes são como comidas orgânicas naturais, que são amargas no início, mas satisfatórias no final.

06 História do personagem misterioso

Depois de assistir ao primeiro episódio de uma série norte-americana, você normalmente saberia o nome completo do protagonista e conheceria seu estado psicológico, seu melhor amigo, suas peculiaridades, seus sonhos na vida e as tarefas da trama que foram atribuídas a esse personagem.

O episódio que mais exemplifica isso é o piloto de Breaking Bad – A Química do Mal de Vince Gilligan. Em menos de 15 minutos, Gilligan nos apresenta o contexto básico de Walter White:

A esposa está grávida e o filho tem paralisia cerebral leve. Apesar de ter ganhado o Prêmio Nobel de Química, agora ele está reduzido a lecionar química no ensino médio, tem que trabalhar em dois empregos devido a dificuldades financeiras e não tem valor em casa, na escola, ou no lava-rápido onde trabalha. Além disso, ele é diagnosticado com câncer de pulmão terminal e, mesmo com a cirurgia, só pode viver mais dois ou três anos. Walter White é um azarão inquestionável.

Essa concepção do personagem principal atrai simpatia e desperta compaixão do público, embora mais adiante ele cometa muitos atos hediondos. Consciente ou inconscientemente, encontramos maneiras de "desculpá-lo" com base na razão e na emoção.

No entanto, em comparação com a desconstrução dos dramas norte-americanos, qual é a natureza dos dramas britânicos? Como essa diferença define Succession? Fique ligado no meu próximo artigo que será minha review final de todas as quatro temporadas de Succession. Me siga aqui e comente o que você achou da série.

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-Continuação na Parte 2-

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