O Iluminado | Uma tragédia na típica família tradicional norte-americana Spoilers

Este artigo apresenta uma análise sobre O Iluminado (1980) de Stanley Kubrick e argumenta que o filme traz a desintegração de uma típica família tradicional branca dos Estados Unidos após seus integrantes serem totalmente explorados. O artigo investiga a transformação vivenciada por cada personagem devido aos seus papéis familiares, bem como a exploração física ou emocional que ocorre dentro da família. A análise também critica a ideia do modelo de família tradicional, baseada na exploração mútua. Por fim, o artigo termina com uma discussão sobre o destino final dos Torrance e contém um aviso aos leitores de que uma situação semelhante poderia acontecer com qualquer outra família norte-americana.

Alguns críticos observaram que a narrativa de O Iluminado (1980) de Stanley Kubrick está enraizada no contexto histórico da exploração dos nativos pelos caucasianos. David A. Cook uma vez sugeriu que "(O Iluminado) é sobre o sistema assassino de exploração econômica que sustentou este país, como o Hotel Overlook, que foi construído sobre um cemitério indígena.". No entanto, este comentário ignora o fato de que a alienação e a exploração podem ocorrer em menor escala, como dentro da típica família tradicional branca dos Estados Unidos.

A história do filme é bastante simples. Ele retrata como uma típica família norte-americana pode ruir. No entanto, em vez de perguntar "O que há de errado com esta família?", eu gostaria de reformular a pergunta para "O que precisa haver de errado com esta família?". Kubrick demonstra a inevitável desintegração da família quando não há mais nada a ser explorado em nenhum dos integrantes. Cada personagem experimenta uma transformação diferente devido a seus papéis familiares, com o modelo de família tradicional construído sobre uma base de exploração.

Ao longo do filme, fica claro que a família Torrance não passa muito tempo junta. Enquanto Jack tem motivos legítimos para se isolar de sua família, porque quer se concentrar em sua escrita, percebemos que a única atividade que Wendy e Danny compartilham é brincar de "Pega-Pega". Quando Wendy faz uma afirmação intrigante, "Quem perder faz a faxina", ela levanta uma questão: o tempo em família precisa exigir trabalhos um do outro para ser agradável?

Em outras palavras, cada um dos integrantes da família precisa explorar um ao outro para fazer a família funcionar? Essa "exploração" pode ser tanto física quanto emocional. Por exemplo, como o pai sustenta a família, em troca ele exige amor e apoio da esposa e do filho. No entanto, como aponta Frank Manchel em seu ensaio, " o filme nunca mostra a esposa ou o filho sendo afetuosos com o pai, nem ele com eles."[1]. Se esse triângulo mãe-pai-filho é tão inabalável, então o que acontece quando um dos laços é separado ou rompido? Será que todo o triângulo vai se desfazer?

A única vez que a família aparece junta é durante uma conversa sobre canibalismo no carro. Se você achou essa cena arrepiante, pode ficar ainda mais surpreso com o comentário de Danny: "Não se preocupe, mãe, eu aprendi isso tudo na TV.". O que é particularmente estranho não é apenas a indiferença dos pais em relação à violência, mas também a sugestão de que a mãe delegou à televisão o papel de educar o filho, e que o pai não vê nada de errado nisso.

Em seu ensaio, Greg Smith observa que os pais não acham errado que Danny assista repetidamente ao desenho animado do Papa-Léguas, em que a violência é esteticamente difundida como um elemento divertido.[2]. Dado esse contexto, a percepção de violência por Danny é problemática. Embora ele tenha a habilidade psíquica de “brilhar” e ver as coisas através do tempo, ele não pode evitar a violência ou alertar sua mãe sobre isso. Isso afeta profundamente o garoto, pois seu alter ego, Tony, só pode comunicar avisos como "REDRUM", ou "MURDER" (assassinato) ao contrário, quando Danny está dormindo e não consegue acordar. Ao mesmo tempo, a ausência de Danny também sugere que ele nega fazer parte da cultura violenta dessa família.

A insanidade de Jack é frequentemente citada como a única causa de seu ato de cometer assassinatos, mas acho seu personagem o mais ambíguo e desconcertante do filme. Como pai, ele luta para se reconectar com o filho, pois ele admitiu ter machucado Danny “acidentalmente” em um bar, e Wendy está com dificuldades para perdoá-lo. Sem o apoio da esposa e com um futuro incerto no trabalho, ele se vê culpando a família por suas falhas.

Cook observa que "ele rapidamente se afasta da esposa e do filho (não é uma manobra difícil, já que ele os despreza abertamente, afinal, eles não trabalham, e se você não trabalha para gerar renda no Overlook, você não vale nada)."[3]. Quando Wendy acusa Jack de machucar Danny novamente, algo que ele não fez, ele decide trair seu papel original como provedor e abraça por completo o papel patriarcal de disciplinar a esposa e o filho.

Na próxima cena da história, vemos que Jack pede uma bebida, algo que antes evitava fazer por causa de um acidente. Essa atitude nos mostra uma mudança de caráter e sugere que ele perdeu a fé no próprio valor. Talvez isso se deva à falta de apreço da família por ele e seus esforços para sustentá-los. Jack vê a aquisição do "fardo do homem branco" como um meio de recuperar algum controle sobre a vida e se sentir valorizado novamente.

Durante a conversa com o barman fantasma, Lloyd, Jack expressa sua insatisfação com a vida. Ele fala sobre os cinco meses que passou no hotel, e descreve-os como miseráveis. Isso destaca o desgaste mental e emocional que o isolamento e a falta de propósito causaram no personagem.

Quando questionado se teve algum problema durante sua estadia, Jack responde que o único foi em relação à esposa Wendy, referindo-se a ela como um "banco de esperma". Esse termo pejorativo mostra a falta de respeito que ele tem pelo papel doméstico da esposa e reflete uma mentalidade capitalista que valoriza a produtividade acima de tudo. Em um nível mais profundo, isso sugere que Jack agora vê sua família sob uma perspectiva negativa, fria e materialista, o que contrasta fortemente com seu retrato anterior como marido e pai amoroso e dedicado.

Mais tarde, quando Jack conhece Grady e o reconhece como o zelador do hotel e o implacável assassino da esposa e das duas filhas, o diálogo deles revela que Grady não tem nenhuma lembrança disso. O que ele fez foi incitá-lo a cometer o mesmo crime. Então, Jack entende que precisa “dar um jeito” na família dele também. Como Robert Kilker afirma em seu ensaio, Jack precisa matar a família para alcançar o sucesso material, embora esse sucesso tenha um custo psíquico.[4]

No entanto, a figura de Jack não deve ser considerada totalmente maligna. Como a humanidade é inerentemente moral e imoral, é necessário pensar sobre o que levou Jack a trair sua metade bondosa e abraçar sua metade sombria. Frank questiona por que a família não poderia ter demonstrado mais compreensão e amor uns pelos outros e por que Jack não poderia ter mais paciência para aguentá-los. Ele define Jack como uma “figura triste que merece mais nossa pena do que nosso desprezo”. Além disso, de acordo com ele, foi uma “sociedade materialista que celebra autoridade patriarcal” que agiu como se a verdadeira motivação de Jack tivesse sido “priorizar o lucro e o prestígio em vez dos relacionamentos pessoais.”.

Como Jack é o alicerce da família, a degeneração dele marca o início da desintegração familiar. Na cena em que Wendy descobre que todos os textos de Jack consistem na mesma frase, "Todo trabalho sem diversão faz de Jack um cara chato", embora em formatos diferentes, ela fica completamente assustada. Enquanto isso, Jack cede à loucura. No entanto, pelo discurso dele, conseguimos perceber que essa loucura tem origem em um lugar de razão: a família negligenciou a responsabilidade dele, apesar de ser a principal causa de seu fracasso.

Cinematograficamente, Kubrick usa movimentos em “travelling” para gravar Jack e Wendy. Embora nenhum deles esteja se dirigindo diretamente à câmera, ainda podemos sentir a séria tensão que se formou entre ambos por meio desse recurso e das cenas gravadas “over the shoulder”. Esta é a primeira vez que esse tipo de enquadramento é usado no filme. O uso da câmera por Kubrick visa transferir nosso papel de espectadores para participante da cena, enquanto testemunhamos a desintegração da família. Como questiona Smith em seu ensaio:

“(Como público), você vê suas atitudes e valores refletidos aqui? Em quais aspectos? E seu país? Sua família? Seus ideais sobre família? Sobre casamento? Sobre estar solteiro? Ser homem? Ser mulher?”.

Ao considerar o cenário apresentado, é importante refletir sobre como reagiríamos se estivéssemos em uma situação semelhante. Como participantes, podemos sugerir uma série de ações diferentes que os Torrance ou nós mesmos poderíamos tomar, como procurar ajuda profissional ou encontrar outros modos de viver. No entanto, também é possível nos sentirmos impotentes diante de uma situação tão desafiadora, assim como os personagens do filme.

Na verdade, o trabalho instigante de Kubrick nos obriga a enfrentar uma questão maior: o que acontece quando a família tradicional, que muitas vezes é considerada o modelo ideal para as famílias modernas, falha? Permanecemos como vítimas de eventos fora do nosso controle ou podemos assumir um papel ativo na abordagem desses problemas e na busca por novas soluções? Essas são questões complexas que exigem uma reflexão cuidadosa e mente aberta para serem devidamente exploradas e compreendidas.

Na cena final do filme, a transformação de cada personagem é apresentada por meio de seus comportamentos. Wendy testemunha um entretenimento excessivo e desconsidera a moralidade e a mortalidade humanas, enquanto Danny ludibria o pai para marcar o início de sua adolescência, não escondendo mais o que poderia ser visto como um "ato feminino". Kilker observa que a percepção passiva de violência de Danny compensa, pois ele pode "crescer com isso". Infelizmente, Jack acaba congelado até a morte sozinho e permanece para sempre com os outros fantasmas brancos no hotel, e todos eles têm os mesmos valores estereótipos em comum.

Em outras palavras, a transformação de cada personagem é uma traição de seus papéis familiares iniciais. Wendy traiu seu papel de esposa, por isso não consegue mais tolerar e digerir nenhum lado obscuro da humanidade. Danny traiu seu papel de criança, pois não obedece mais ao pai, mas o engana para sobreviver. Jack traiu seu papel de pai, porque não fornece mais nada para sua família.

No final, o modelo de família tradicional parece falhar porque é construído sobre a ideia de explorar um ao outro. A estrutura triangular dessa família está fadada ao fracasso quando não há mais nada a explorar de nenhum de seus integrantes. Jack falha em sustentar a família e em ganhar a confiança e o apoio da esposa e do filho. Wendy falha em educar Danny e diminuir a distância entre ele e o pai. Enquanto isso, Danny é incapaz de ser apenas uma criança, pois seus pais estão muito preocupados em restaurar seus próprios papéis para cuidar dele. Apesar de seus esforços para escapar dessa estrutura, nenhum desses personagens consegue restaurá-la. As transformações que permitiram com que eles escapassem não permitiriam que se encaixassem em outro triângulo. Como Kubrick não confirma o destino final de Wendy e Danny, ele deixa um alerta para seus telespectadores de que a mesma situação que aconteceu com a família Torrance pode acontecer com qualquer outra família dos Estados Unidos. Sendo assim: outra família teria um destino diferente?

Fontes:

  1. MANCHEL, Frank. What about Jack? Another Perspective on Family Relationships in Stanley Kubrick's The Shining.Literature/Film Quarterly, v. 23, n. 1, p. 68-78, 1995. (http://www.jstor.org/stable/43798713).
  2. SMITH, Greg. "Real horrorshow": The juxtaposition of subtext, satire, and audience implication in Stanley Kubrick's The Shining.Literature/Film Quarterly, v. 25, n. 4, p. 300-306, 1997. (http://www.jstor.org/stable/43796810).
  3. COOK, David A. American Horror: The Shining.Literature/Film Quarterly, v. 12, n. 1, p. 2-4, 1984. (http://www.jstor.org/stable/43797366).
  4. KILKER, Robert. All Roads Lead to the Abject: The Monstrous Feminine and Gender Boundaries in Stanley Kubrick's" The Shining".Literature/Film Quarterly, v. 34, n. 1, p. 54-63, 2006. (http://www.jstor.org/stable/43797256).

LIGHT

Ilumine e aumente a visibilidade — seja o primeiro!

Comentários
Bombando
Novo
comments

Compartilhe sua opinião!

Seja a primeira pessoa a iniciar uma conversa.