"Thelma": a ambiguidade do final Spoilers

Há muitas interpretações sobre qual é a verdadeira mensagem de Thelma. Por exemplo, eu considero o filme como uma história sobre de que maneira nossas percepções moldam nossa realidade. Obviamente, não existe uma leitura verdadeira de qualquer obra, então não posso dizer que minha visão seja a única, mas pelo menos serve para explicar o final do filme. Considerar o filme como uma exploração de que a percepção é realidade nos ajuda a valorizar o poder de finais ambíguos como o de Thelma, não por resolver nossas questões, mas por nos lembrar das perguntas que precisamos fazer.

No filme, os poderes de Thelma permitem que ela consiga o que quiser. Quando é jovem, ela faz com que seu irmão mais novo morra, pois tem ciúmes da atenção que ele recebe e, mais tarde, quando ela não consegue aceitar sua atração por outra mulher, ela faz Anja desaparecer. Parece um sonho ser capaz de realizar os próprios desejos, pelo menos seria se Thelma aprendesse a controlar as habilidades. O pai até aponta que o relacionamento dela com Anja talvez não seja real. Thelma queria Anja, então seus poderes fizeram com que Anja aparecesse em sua casa no meio da noite, apesar de nem saber o endereço. Embora essa seja a única manipulação óbvia no filme, ela levanta algumas questões: Anja terminou com o namorado porque o desejo de Thelma a forçou? Quando vão juntas a um show, Anja escolhe tocar na perna de Thelma ou está sendo controlada?

Nada é esclarecido. Anja não parece ter estar ali por escolha...ou sim?
Nada é esclarecido. Anja não parece ter estar ali por escolha...ou sim?

Logo fica claro que, por mais doce que o casal parecesse, pode haver um elemento sinistro e não-consensual na relação, já que a incapacidade de Thelma de controlar os poderes pode estar manipulando Anja para que se apaixone por ela. É essa falta de certeza sobre o livre arbítrio de Anja que torna o final do filme tão perturbador. Na última cena, percebemos que Thelma volta à universidade após ganhar total controle de os poderes, e ela imagina Anja chegando por trás dela e beijando seu pescoço. Em seguida, Anja aparece por trás dela e faz exatamente como Thelma havia imaginado. Esse é mais um caso do controle de Thelma sobre Anja? Ou ela é capaz de controlar seus poderes e foi só uma coincidência? No entanto, se analisarmos o filme na perspectiva de que nossas percepções são nossa realidade, temos uma questão diferente: isso importa?

Supondo que Thelma esteja usando os poderes para controlar Anja, é mais provável que o desejo dela seja que Anja a ame. Afinal, a maioria das pessoas prefere ter o amor verdadeiro do que meros gestos físicos. Então, nesse caso, Anja pode estar sendo forçada a amar Thelma. Se ela realmente acredita que ama Thelma, isso não significa que ela ama? Seus sentimentos e percepções são sua realidade, portanto, mesmo que sejam impostos, são reais para ela. A situação parece mais desconfortável e perigosa devido à forma como interage com o discurso moderno em torno do consentimento nas relações, mas existem cenários semelhantes da vida real que nos obrigam a questionar como deveríamos nos sentir diante desse tipo de situação.

Thelma parece estar gostando do carinho, mas e Anja?
Thelma parece estar gostando do carinho, mas e Anja?

Por exemplo, vamos pensar em uma criança cujos pais têm uma enorme diferença de idade. À medida que ela cresce, seu ambiente impõe a perspectiva de que esse tipo de diferença de idade é normal e ideal. Como consequência, quando a criança completa 18 anos, ela decide se casar com uma pessoa de 60 anos. Muitos podem achar essa ideia errada, mas não tentarão impedi-la porque a criança é livre para seguir a vida que deseja, mesmo que seja baseada em uma perspectiva que não escolheu ter. Outra situação semelhante é a de pessoas que cresceram em religiões que não acreditam em cuidados médicos. Essas pessoas não escolheram ser criadas religiosamente, não escolheram ter essa perspectiva, mas ninguém as impedirá de negar cuidados médicos porque elas têm o direito de recusá-los.

Criar os filhos acaba sendo um processo de doutrinação — eles recebem pontos de vista e ideologias dos pais, sem nenhuma opção real de resistência, e essas perspectivas moldam o resto de suas vidas e escolhas. Então, por que achamos Anja mais perturbadora? Será porque ela é adulta e esperamos que os adultos que vivenciam uma perspectiva o façam por livre arbítrio? Será porque ela, ao contrário de uma criança, não terá chance de escapar dos desejos de Thelma, a menos que a própria Thelma queira? Ou será simplesmente porque nos sentimos desconfortáveis tendo de enfrentar o fato de que nosso livre-arbítrio é mais limitado pelas nossas perspectivas e experiências do que gostaríamos de admitir?

Thelma não pediu para ser criada como cristã, e isso acabou tendo consequências graves para ela também.
Thelma não pediu para ser criada como cristã, e isso acabou tendo consequências graves para ela também.

Não estou dizendo que o que Thelma está fazendo com Anja seja correto — mesmo depois de tudo que escrevi, ainda acho o final incômodo. Mas adoro as questões que o filme levanta, sobre quanto livre arbítrio teremos se tudo for determinado por perspectivas que não escolhemos. No fim, é assim que deveriam ser os finais ambíguos; não deveríamos procurar respostas sobre o que realmente está acontecendo, deveríamos considerar quais questões essa ambiguidade provoca. Existe o final em que Anja e Thelma estão apaixonadas, e existe o final em que Thelma controla Anja. Nunca saberemos qual deles é verdadeiro, mas podemos nos questionar.

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