"A Cor da Romã": poesia e perda cultural 

Me deparei sem querer com A Cor da Romã em uma lista de filmes sobre poesia e, depois de conferir algumas de suas imagens deslumbrantes, decidi assisti-lo. O filme é incrivelmente experimental e contém uma cinebiografia sem nenhuma narrativa tangível, o que torna difícil descrever a sensação de assisti-lo. No final das contas, a melhor forma de resumir essa obra é dizer que se trata de uma visão espetacular da vida de um poeta, não contando a história dele, mas, sim, trazendo a mesma poesia a que se dedicou. Isso não apenas deu origem a uma obra única, mas me fez reconsiderar a ideia que eu tinha sobre o que deveria ser um filme biográfico.

Normalmente não seria muito ousado assistir a um filme biográfico sem qualquer conhecimento prévio da figura contida nele. Afinal, existe a expectativa de que a história conte tudo o que você precisa saber. Considerando que essa obra foi feita por armênios e para a Armênia em 1969, tentei fazer algumas pesquisas sobre o tema, Sayat-Nova, antes de explorá-la. Infelizmente, a página da Wikipédia sobre o poeta é limitada, mas pelo menos consegui me preparar melhor — embora no final não tenha valido a pena. O fato é que, por mais que você se prepare para o filme, ainda não o entenderá como um filme mais tradicional. Não há muito diálogo e o próprio filme afirma desde o início que não pretende contar a história de Sayat-Nova, mas, sim, partilhar a poesia dele. Então, para isso, a obra conta com sons e imagens que despertam emoções que devem ser sentidas na alma da mesma forma que a poesia.

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A "romã", presente no título, emoldurando uma faca. Não existe um significado oficial claro e, ainda assim, a imagem em si já é capaz de despertar fortes emoções.

A natureza evocativa do filme é exatamente a razão pela qual ele transmite de maneira tão eficaz um sentimento de poesia. Aqueles mais familiarizados com a cultura armênia e Sayat-Nova podem compreender melhor o simbolismo da obra, mas mesmo os espectadores comuns podem perceber uma sensação de amor e poder irradiando de cada cena. A representação das tradições armênias, desde suas formas materiais como tapetes e roupas até suas performances como música e funerais, não são simplesmente belos detalhes. Elas são a força vital do filme, obrigando-nos a considerar nossa relação com a cultura, assim como aconteceu com Sayat-Nova. O fato de a obra ter sido produzida na Armênia só aumenta a comoção de tudo isso, lembrando ao público o genocídio dos armênios e por que exatamente eles estão lutando para preservar seu povo. Como muitos poemas, o filme não conta uma história, mas captura um momento, um sentimento ou um tema, provocando certas reações e pensamentos no público.

Uma cena mais facilmente interpretada que transmite a ideia de crescer ao redor da literatura e de grandes estudiosos.
Uma cena mais facilmente interpretada que transmite a ideia de crescer ao redor da literatura e de grandes estudiosos.

É por isso que tenho tanto medo que as pessoas assistam a essa obra e tentem analisá-la para obter respostas definitivas. Tenho certeza de que muitos buscarão explicações sobre o significado de cada cena, quem representava cada personagem e quais códigos culturais eles perderam. Entendo o desejo de aprender, mas as decisões de direção de Parajanov foram deliberadas — ele sabia que estava escrevendo um poema, e não um livro didático. Os atores são como temas de uma pintura e o pouco diálogo que existe parece tão insignificante que simplesmente se funde com a trilha sonora do filme. Compreender A Cor da Romã exige lembrar que a arte nem sempre envolve perguntas incisivas e respostas precisas. Estamos acostumados a assistir a filmes que nos mimam, explicando os temas e deixando claro quem são os vilões e quem são os heróis. Ao assistir A Cor da Romã, é preciso aceitar que às vezes não recebemos perguntas e muito menos respostas, porque existem sentimentos e verdades que não podem ser facilmente explicados.

Esta é uma das melhores cenas para ilustrar o quanto a cinematografia do filme é artística.
Esta é uma das melhores cenas para ilustrar o quanto a cinematografia do filme é artística.

Uma dessas verdades é o sentimento de tragédia que permeia a obra, não apenas por causa das tragédias pessoais de Sayat-Nova ou mesmo da trágica história do povo armênio. Em vez disso, há uma sensação de pesar metatextual pela falta de filmes semelhantes hoje em dia. Testemunhamos pessoas lutando para proteger a própria cultura, propagando-a, escrevendo poemas, dançando e fazendo artesanato tradicional. A obra em si é até uma forma de celebrar e preservar a cultura armênia — Parajanov foi preso por criá-la. Onde está essa mesma arte apaixonada e rebelde atualmente? Temos filmes da Marvel, roupas da Zara e poetas de Instagram, que não são ruins, mas contam com uma homogeneidade e um vazio desanimadores, pois o que costumava ser arte parece ter se tornado apenas mais uma fonte de lucro e status. Perdemos nosso poder cultural com a assimilação da modernidade. É uma constatação deprimente, mas estou feliz com o que A Cor da Romã me proporcionou.

Tapetes armênios tradicionais apresentados no filme.
Tapetes armênios tradicionais apresentados no filme.

Em resumo, não me canso de recomendar A Cor da Romã. Embora eu tenha encontrado esse filme por acaso, quanto mais pensava nele, mais esclarecedor ele se tornava. Pode ser difícil de acompanhar, mas os sentimentos que essa obra contém são comunicados de uma forma bela e única, ao mesmo tempo que partilha a cultura armênia com o público. Também é muito importante lembrar do potencial artístico do cinema e da relevância da arte em si para a cultura em geral. Isso nos faz considerar se estamos ou não satisfeitos com a paisagem artística pós-moderna atual. Mesmo que você não ache nada disso interessante, ainda é possível aproveitar a beleza audiovisual enquanto testemunha como a poesia pode ser traduzida para as telas de cinema.

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