Eu entendo que, como fã da Marvel, você possa se decepcionar com As Marvels; e você provavelmente tem muitos motivos para argumentar por que este filme não atende às suas expectativas – tenho total empatia com seus sentimentos, mas não foi uma surpresa. Vamos considerar os filmes que a Marvel lançou nos últimos cinco anos: Pantera Negra 2, Venom 2, Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania, Doutor Estranho 2, Thor 4 e Eternos – eles pouco agradaram o público. Parece que os filmes de super-heróis estão passando por uma crise de meia-idade: apresentam os mesmos personagens, histórias e grandes cenas, mas sua qualidade geral caiu. Comparando As Marvels com as sequências que o estúdio fez nos últimos cinco anos, ele não é particularmente impressionante – ou terrível – porém, quero enfatizar que do ponto de vista feminista, entrega algumas diferenças em relação ao passado: é um filme de super-heróis onde todas as personagens principais, inclusive as vilãs, são mulheres.
Não há como negar que os filmes de super-heróis se concentram predominantemente em narrativas masculinas, e o MCU não é exceção: dos 33 filmes lançados desde 2007, apenas Capitã Marvel (2019), Viúva Negra (2021), Eternos(2021) e Pantera Negra 2 apresentam protagonistas femininas.

Mas isso não significa que falte personagens femininas no MCU – frequentemente, elas recebem papéis coadjuvantes e servem como assistentes; são retratadas como meninas problemáticas, parceiras românticas ou, até certo ponto, subordinadas aos protagonistas; além disso, muitas vezes apresentam instabilidade emocional. Um bom exemplo é a Feiticeira Escarlate, uma das mais poderosas d’Os Vingadores, mas que é constantemente influenciada e restringida por personagens masculinos; seus superpoderes são consistentemente usados para servir alguém, seja seu irmão ou marido. No recente Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, seu temperamento foi retratado como mais próximo do de uma mulher histérica e de uma mãe aterrorizante.
Ter super-heroínas desempenhando papéis coadjuvantes envia uma mensagem: não se pode ameaçar a masculinidade dos protagonistas. Assistir por muito tempo histórias de personagens femininas vulneráveis/dependentes pode fazer com que as meninas se sintam insatisfeitas com suas próprias identidades; além disso, a supersexualização pode mexer com a autoestima das telespectadoras em relação aos seus corpos.

Hollywood parece reconhecer a necessidade de mais e melhores super-heroínas para contar histórias sobre mulheres e injetar energia e criatividade nas narrativas de super-heróis das quais o público está cada vez mais cansado. É por isso que estamos vendo um aumento no número de heroínas no MCU, como a Viúva Negra, que foi lançado em 2021 – mas é importante lembrar que demorou dez anos para isso acontecer, já que sua primeira aparição foi em Homem de Ferro 2, de 2010. Durante esses dez anos, filmes com super-heróis como Thor, Homem-Formiga e Pantera Negra receberam luz verde e foram lançados, enquanto a Viúva Negra permaneceu como coadjuvante. Foi só em 2020, em parte em resposta às demandas feministas trazidas pelos movimentos #TimesUp e #MeToo, que ela finalmente conseguiu seu próprio filme.
Nesse contexto, Capitã Marvel e seu filme independente servem para representar personagens femininas que faltam nos filmes da Marvel. Essa representação é notável em As Marvels, onde Carol Danvers (Capitã Marvel) é acompanhada por três outras personagens principais: a paquistanesa-americana Kamala Khan, a afro-americana Monica Rambeau e Dar-Benn, uma vilã que busca restaurar o ecossistema de seu planeta – suas identidades são evidentes; quando a jovem Kamala se proclama a escolhida, isso ressoa em mim. Por muitos anos, me acostumei a assistir filmes da perspectiva de homens brancos; se eu fosse uma garotinha, teria dificuldade em encontrar um protagonista semelhante a mim. Os meninos podem se imaginar como o Homem-Aranha, equilibrando a vida escolar e salvando o mundo, mas e as meninas? Embora Homem-Aranha: No Aranhaverso também apresente uma jovem Mulher-Aranha, a origem e o núcleo da história ainda giram em torno dos meninos. Então, quando vejo a Ms. Marvel se declarando com segurança como a escolhida, me sinto inspirada.

Devo afirmar que a criação de mais filmes de super-heroínas tem importância social – a influência da tela grande é inegável, filmes comerciais têm um impacto profundo nos nossos pensamentos e ações. Uma prova convincente é o aumento de 105% no número de participantes femininas em competições de tiro com arco em 2012, em comparação com o ano anterior, após os lançamentos de Valente e Jogos Vorazes. O surgimento de novas super-heroínas irá, sem dúvida, inspirar as telespectadoras, aumentar sua autoestima e confiança, e incutir-lhes a crença de que possuem a capacidade de participar ativamente seja dentro de uma comunidade, país, ou universo que precisa ser salvo.
No entanto, reconhecer o significado feminista de As Marvels não significa dizer que o filme seja excepcional – problemas de enredo que prevalecem nos mais recentes da Marvel também aparecem aqui. Além disso, o filme continua a contar com impressões estereotipadas de personagens femininas e carece de profundidade na sua representação: elas são apenas substitutas dos personagens masculinos, e o desenvolvimento da história e as relações entre os personagens ainda seguem a estrutura narrativa dos filmes tradicionais centrados no homem – por exemplo, Carol é retratada como uma figura paterna para Monica Rambeau (Spectrum), que se sente triste por sua ausência; além disso, a cena em que Carol dança com o príncipe retoma o enredo de um personagem masculino tendo um relacionamento amoroso com uma exótica princesa tribal durante sua jornada ao redor do mundo.
Quando se trata de desenvolvimento de personagem, a característica mais notável de Carol é sua calma – porém, ela parece carecer de outras características. Além disso, sua calma é retratada como indiferença aos acontecimentos externos e às relações interpessoais. Normalmente, o enredo principal de um filme de super-herói gira em torno do herói derrotando o vilão e salvando o mundo, enquanto a subtrama se concentra no protagonista superando lutas internas e resolvendo problemas psicológicos e emocionais – As Marvels também segue essa fórmula: a missão principal de Carol é derrotar Dar-Benn e salvar o planeta. Para conseguir isso, deve enfrentar pessoas inocentes que sofrem como resultado de suas ações, como os Skrulls e os Kree. O filme tenta convencer o público de que esses indivíduos sofredores se tornaram as lutas internas de Carol, a ponto de nunca mais retornar à Terra para evitar sentir culpa.

A culpa não é sentida exclusivamente por Carol, muitos outros protagonistas também vivenciam isso. A questão está no fato de os roteiristas não retratarem a reação da Capitã a essa carga emocional; ela não faz nenhum esforço para enfrentar a deterioração ecológica causada por sua presença no Império Kree. A crise é resolvida através do encontro casual de Monica, que leva à cena mais absurda de todo o filme: quando Monica pergunta a Carol por que ela não usa seus poderes para acender o sol dos Kree e corrigir seus erros, a resposta de Carol é “Nunca pensei nisso”. Ela rapidamente faz isso, o que significa que o cerne do conflito dramático da história poderia ter sido resolvido em apenas alguns segundos. Sua culpa reflete sua falta de iniciativa; ela nunca viaja de volta à Terra e não demonstra qualquer hesitação. Se não fosse pela aparição inesperada de Mônica, ela teria continuado evitando enfrentar a culpa, e isso diminui significativamente a agência de Carol como personagem: sem pensamento proativo, sem ações proativas, sem expressão proativa.
A falta de profundidade resulta diretamente na falta de lutas emocionais pelas quais possamos sentir empatia – também leva à falta de tensão dramática em seu relacionamento com outros personagens. Desde o início, vemos que Kamala admira Carol, enquanto Monica sente sua falta. Entretanto, no final, o relacionamento delas permanece o mesmo. Além de uma conexão física, a relação emocional entre elas é praticamente a mesma – esses problemas contribuem para a falta geral de apelo das Marvels; seu desempenho de bilheteria e notas baixas em sites de crítica confirmam isso. Porém, o que quero enfatizar é que as falhas não se devem às suas protagonistas, mas ao fracasso dos roteiristas em desenvolver as personalidades dessas três personagens e seus relacionamentos e em lidar com os conflitos dramáticos. O fracasso também não representa o fracasso dos filmes de super-heroínas – na verdade, destaca a necessidade de mais filmes que explorem como elas podem ser diferentes dos tradicionais super-heróis e não deveriam ser simplesmente inversões de gênero.
Há grandes expectativas por Madame Teia, que será lançado no ano que vem. Ainda espero que estúdios como a Marvel reconheçam e priorizem seu público feminino e as emoções das meninas quando assistem aos filmes que produzem.




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