Eu amo cachorros e enquanto assistia ao filme, estava realmente preocupada se algum cão se machucaria (mesmo que seja uma história fictícia). Por sorte, Luc Besson é muito carinhoso com os cachorros e com as pessoas que amam esses animais. Após o filme de duas horas, há várias mortes de humanos, mas nenhum cachorro foi ferido. Só isso já me fez sentir muito melhor em relação ao filme.
Comparado ao jeito como Dogman trata os cães, sua atitude em relação aos humanos é muito pior. Esse sentimento de antipatia não é mostrado retratando vilões específicos como ruins, mas sim através da decepção e distanciamento do protagonista de todos.
Sério, esse filme não tem um vilão realmente ruim e poderoso. O pai e o irmão de Douglas são descritos como tolos em vez de cruéis. Parece que Luc Besson não está interessado em revelar o destino deles. Então, seus finais são mencionados apenas por um segundo. O público não obtém nenhuma satisfação emocional com a morte do irmão de Douglas e a punição de seu pai.
Isso também nos faz perceber algo triste: mesmo quando os vilões como o pai e o irmão de Douglas recebem a punição que merecem, o aspecto triste da vida dele continua.

Eu acredito que a ausência de um protagonista maligno e poderoso é a maior diferença entre Dogman e os filmes anteriores de Luc Besson. Vamos relembrar a interpretação de Stansfield feita por Gary Oldman em O Profissional. Quando ele ouve Beethoven, segurando uma arma, e mata cruelmente toda a família de Mathilda, o público não apenas sente seu terror, mas também uma espécie de loucura emocionante. Porque ódio intenso pode trazer um intenso desejo de vingança. E o próprio desejo de vingança é uma paixão. É precisamente porque o personagem de Stansfield é ruim o bastante que pode suscitar a empatia do público pelo desejo de vingança de Mathilda.
Porém, tal paixão desaparece em Dogman, deixando apenas um sentimento profundo de decepção e exaustão.
O filme não está realmente interessado em mostrar como as pessoas podem ser sombrias. Além da família de Douglas, a maioria dos personagens no filme são só pessoas comuns. Elas não são malvadas nem nada disso, e não têm poderes malignos. Na maior parte do tempo, as pessoas só estão cansadas, são tolas e muito focadas em suas próprias coisas. Quando Douglas está procurando um emprego, todos que recusam lhe dizem “sinto muito”. E quando o abrigo vai fechar, um funcionário que o avisa até se oferece para tentar mantê-lo aberto por mais tempo. Essas pessoas não queriam tornar as coisas difíceis para Douglas ou fazê-lo se sentir mal; elas estavam apenas sendo educadas.

Mas apenas ser educado não basta. Para alguém como Douglas e os cães dos quais ele toma conta, eles precisam mais do que apenas gentileza para tornar suas vidas melhores. Mas esse tipo de amor real é muito raro e não dura muito, o que ele aprende no seu relacionamento com Salma. Ele começa a acreditar no amor de novo quando Salma o conforta, mas no final, ele fica ainda mais triste porque perde esse amor. Assim, uma verdade mais dura é revelada: mesmo se ninguém fizer uma maldade, a vida ainda é cheia de tristeza e desamparo. Em outras palavras, os problemas da sociedade humana não podem ser resolvidos com a eliminação de vilões específicos. A tragédia e a maldade vão surgir de instituições e estruturas sociais invisíveis, assim como da ignorância e indiferença coletivas. O amor pode ter o poder de dissolver essa indiferença, mas há poucas pessoas realmente capazes de amar.
Então, mesmo que Douglas consiga matar a gangue buscando vingança no fim, é difícil para o público sentir aquela sensação satisfatória de vingança. Porque todos nós sabemos que mesmo que a resistência tenha sucesso, não fará diferença no destino de Douglas. No fim, ele ainda caminha em direção à morte sozinho, um passo de cada vez. Os verdadeiros amigos e companheiros na nossa sociedade são aqueles que ainda possuem a capacidade de amar: os cachorros abandonados.

A única coisa no filme que traz conforto são os adoráveis cães. Toda vez que Douglas é derrubado e machucado, são os cachorros que o acompanham e o aquecem. Porém, o amor deles não pode dissipar o desespero embutido na história. Não é porque os cães não são bons o bastante, mas porque seguimos o filme e ficamos na perspectiva dos animais, apenas para descobrir que o mundo ainda é cruel e os humanos não são dignos da confiança dos cães.
Animais abandonados são muitas vezes usados em filmes para representam metaforicamente as minorias e grupos vulneráveis na sociedade. Essa violência é um choque tremendo e uma dor insuportável para todos os humanos conscientes e compassivos. Por isso, em histórias que retratam animais abandonados, sempre sentimos uma tristeza profunda. Quanto mais altruísta e puro é o amor dos cachorros, como público (e amante desses animais), mais eu sinto que os humanos são desprezíveis e indignos do amor dos cães.
Acho que o próprio Luc Besson sempre teve esses sentimentos. Desde O Profissional, os filmes de Luc Besson têm um toque de negatividade. Neste filme, a tristeza implícita que existia em seus filmes anteriores é mostrada abertamente em Dogman. Isso também me fez pensar se é porque Luc Besson envelheceu ou como espectador, meu ponto de vista mudou, e é por isso que o filme parece tão pessimista? Talvez quanto mais compreendermos o mundo, mais adoraremos os cães em vez dos humanos.
De qualquer forma, se você adora cães e está decepcionado com a humanidade, você deveria assistir Dogman. Tire um tempo para apreciar como os cachorros sempre confiam em nós, humanos imperfeitos. 🐶❤️



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