Entre Carax e a Caverna  

Ontem (17), estreou em cinemas selecionados o curta-documentário de um dos cineastas franceses mais celebrados dos últimos anos, Leos Carax. A sessão chega acompanhada de outro curta, “Alegoria Urbana”, de Alice Rohrwacher e JR. Um encontro entre um documentário e uma ficção que caminham lado a lado.

Carax, diretor dos consagrados “Holy Motors” e “Annette” — este último lhe rendeu o prêmio de direção no Festival de Cannes —, entrega agora um curta autobiográfico sobre sua trajetória e seus 40 anos dedicados ao cinema. A proposta surge a partir de uma pergunta simples: “Onde você está, Carax?”

Uma pergunta que também me faço: onde você está, Kauã? Acabo de começar a minha vida, e, ainda assim, essa dúvida ecoa. Será que estamos onde gostaríamos de estar? Carax transforma essa incerteza em um filme-ensaio que transborda memória, sentimentos e referências, revelando como o cinema moldou e ainda molda sua visão de mundo e de si mesmo. O paralelo mais direto com essa proposta está nas obras de Jean-Luc Godard. O uso desses flashes rápidos com letreiros, frases, trechos de filmes e imagens da vida real, remete fortemente ao estilo do mestre francês.

Talvez o cinema seja um refúgio das crueldades do mundo e da própria vida. Para um cineasta como Carax, trazer suas inspirações — como o próprio Godard, David Bowie, Hitchcock, entre outros — é um gesto de cura. Uma fuga como forma de remontar a realidade, ou criar uma arte que a reinvente. Às vezes, como uma mera lembrança do passado, outras, como um modo de mudar seus atos. Assim, cria-se uma nova persona para si mesmo.

Não é preciso uma obra que ganhe louros ou transforme sua vida em espetáculo para contar sua trajetória. Aqui, Carax remete sua história a uma reflexão sobre a vida e a urgência que temos de viver cada vez mais intensamente — influenciado pelos tempos atuais, em que redes sociais e celulares ditam o ritmo da nossa existência.

Isso nos leva à "Alegoria Urbana", de Alice Rohrwacher e JR. O curta já abre com uma panorâmica das pessoas andando pelas ruas da França, olhando fixamente para os celulares. O único em estado de observação do mundo ao redor é a criança que acompanhamos.

Nesse mundo hiper conectado, em que vivemos ligados 24 horas por dia, o trabalho se tornou digital, o home office invadiu nossas casas e o tempo pessoal virou exceção. Estamos sempre rodeados por notificações, mensagens, reuniões online — mesmo nos momentos indevidos. Essa conexão constante nos aprisiona, como se estivéssemos acorrentados.

Essa prisão remete diretamente à teoria da caverna de Platão, na qual os homens presos dentro de uma caverna só enxergam sombras projetadas na parede, acreditando que aquilo é a realidade. Só ao sair da caverna — ao romper com a ilusão — é que se pode ver o mundo como ele realmente é.

Assim como na alegoria de Platão, a criança do curta rompe com esse confinamento ao arrancar uma camada da parede e vislumbrar o que está além. Ao sair da “caverna”, ela encontra um novo mundo, uma nova perspectiva. E, ao se reconectar com o que está ao redor, passa a enxergar não só o ambiente, mas também a si mesma de uma forma mais verdadeira. Essas duas obras dialogam profundamente. Carax se pergunta se está onde gostaria de estar. E nós? Será que estamos? Ou apenas seguimos os caminhos que o mundo digitalizado e acelerado traçou para nós?

É curioso notar como os dois curtas, embora distintos em forma e abordagem, se conectam profundamente em sua essência. Ambos tratam de deslocamentos existenciais e até espirituais. Carax revisita sua trajetória em busca de uma identidade que talvez nunca tenha sido fixa. Rohrwacher e JR, por sua vez, refletem sobre a alienação cotidiana provocada pela tecnologia e a urgente necessidade de nos reconectarmos com o mundo real.

O programa com os dois filmes está em cartaz no IMS Paulista, IMS Poços de Caldas e no Cine Arte UFF, em Niterói. Ambos foram exibidos na 48ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro do ano passado. Não perca essa oportunidade única de ver dois curtas tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão conectados.

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