Antes de falar sobre Pecadores (2025), novo filme escrito e dirigido por Ryan Coogler, gostaria de contar uma história sobre minha experiência assistindo Bacurau (2019), filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Vai fazer sentido, eu juro.
Em 2019, poucos meses após Bacurau estrear em Cannes, fui para uma sessão de pré-estreia sem saber muito bem o que esperar do filme. Não sabia a sinopse, não tinha visto trailer. Para além de acompanhar a carreira dos diretores com bastante interesse, conhecia um ou outro elemento por ler notícias a respeito, e só. É importante destacar isso porque eu não fazia ideia de até onde Bacurau estava disposto a ir em sua negociação com o cinema de gênero. Eu não sabia até onde o filme pernambucano pretendia esticar a corda do que é fazer cinema de gênero no Brasil. Aí em determinado momento, um gringo é atingido em cheio na cabeça por um tiro vindo de uma espécie de bacamarte. A cabeça explode, os miolos voam. Tudo muito explícito, direto, sem sutileza. Quando isso aconteceu, eu instantaneamente comecei a chorar. Chorei muito, mesmo não sendo uma cena emocionante. Não era uma cena pra choro. Eu não sabia exatamente o porquê de estar chorando - afinal, era só mais uma cena de violência, não?
Depois de um bom tempo, revisitando aquela emoção, eu entendi que o choro era por ver um filme de gênero feito no Brasil com todo aquele calibre, aquele primor técnico, e esse vigor em abraçar a frontalidade da violência dando-lhe um tratamento estético que me remetia a um cinema que me formou. O cinema brasileiro sempre teve violência, muitas vezes atrelada à realidade social, ao crime, à marginalidade dos que vivem à margem. Aquele tiro não. Aquele tiro carregava um século de história do cinema. Ele vinha após uma tensão crescente que refletia pra mim uma das cenas mais fortes de Os Intocáveis (1987), de Brian De Palma, mas era seguido por um gore com o qual eu lidei durante toda a minha cinefilia - porém nunca havia lidado no cinema brasileiro. Ativou-se uma memória afetiva da violência de cinema. Segundos depois da cabeça explodida, uma mão leva um tiro e fica lascada tal qual uma couve-flor ensanguentada, num tipo de destruição da carne que me levou diretamente para o tiro na mão que Alex Murphy recebia na cena mais pesada de Robocop (1987), de Paul Verhoeven. Era por isso que eu chorava numa cena onde as pessoas se horrorizavam ou batiam palmas via catarse. Aquela cena, pra mim, carregava toda uma sensibilidade que só pode ser obtida após muitos e muitos anos de amor pelo cinema de gênero. É essa sensibilidade que encontro em Pecadores.
Na verdade é além, porque até mesmo se compararmos com o filme brasileiro, o longa de Coogler é feliz onde muita gente tentou e não conseguiu: Pecadores é genuinamente um filme carpenteriano. Talvez o filme mais carpenteriano que já vi desde o cinema do próprio John Carpenter. E isso não se dá unicamente pelo gênero (faroeste, terror), pelas referências (há muito de Vampiros e de Assalto à 13.ª DP aqui, além de citações diretas a O Enigma de Outro Mundo) ou pelo tropos (filme de cerco). Tem mais a ver com uma sensibilidade carpenteriana, seja na organização da mise-en-scène, seja no uso da música (onipresente e sempre uma doce surpresa atmosférica), seja na maneira como estabelece a sua moral. Em Carpenter, há sempre um convite para que o espectador abandone a sua própria moral, extrafílmica, do lado de fora da sessão e adentre o filme disposto a assistir a construção de uma moral própria, em um mundo com regras próprias. Uma moral de cinema, que te leva a torcer por gente que na vida real talvez você não simpatizasse tanto assim. Isso está mais explícito justamente em dois dos filmes que citei há pouco: em Assalto à 13.ª DP (1976) a situação da ameaça externa acaba por nivelar as posições que até aquele momento os personagens ocupam socialmente. Não existem mais “a secretária mulher”, “o policial negro” e “o criminoso branco”. Existem pares, com pesos iguais, mas sem deixar de ser quem são. Em O Enigma de Outro Mundo (1982), MacReady e Childs são os trabalhadores braçais daquele posto. Não são cientistas, pesquisadores ou militares, como os outros. São os caras que pilotam os veículos, são meio que os faz-tudo da base. Quando a situação fantástica se estabelece naquele mundo tão banal, o jogo é nivelado e os dois trabalhadores braçais tomam a dianteira e liderança da situação.
Essa moral carpenteriana está em Pecadores, e acho que vale a pena destacar aqui o quanto a construção da moral do filme em momento nenhum ignora que a história se passa nos Estados Unidos de 1932. Não há gente “desconstruída” aqui, não há exatamente mocinho ou vilão. Há gente babaca, gente traumatizada e gente escrota. E com algumas óbvias exceções, você não é guiado pelo filme a odiar ninguém ali. Quando um dos irmãos interpretados por Michael B. Jordan, ao oferecer emprego a um conhecido na frente da esposa do mesmo diz que lhe pagará tanto dinheiro que talvez a mulher permita que o marido coloque o pau em sua boca naquela noite, o filme está estabelecendo muito bem o tipo de mundo a que iremos nos apegar: um mundo de personagens demasiadamente humanos. Não há maniqueísmo em Pecadores, e isso é essencial dentro da sensibilidade carpenteriana.
E faço questão de, nesse texto, falar sobre o filme ancorado em obras ou autores que vieram antes dele, porque uma das coisas que mais me fascina no filme de Coogler é que é um filme muito consciente de que a ancestralidade que guiará sua poética não está ancorada apenas na historicidade preta estadunidense, ou na filiação instigante ao afrossurrealismo que faz. Está também impressa na própria história do cinema. Não é apenas um filme de tema, um filme de alegoria ou metáfora. Temos aqui um filme de cinema, que não nega a sua raiz estética - pelo contrário, a reforça a cada fusão entre planos, olho brilhante na escuridão, sangue de cor não realista ou coro gótico que parece um leitmotiv saído diretamente de um filme da Hammer. A sensação que tive era de estar vendo um filme feito com tesão, filmado com as entranhas e escrito com talento, diante de imagens, sons e diálogos genuinamente diabólicos.
A despeito do afrossurrealismo que citei, a construção que Coogler realiza através da música, a maneira como integra tão bem o que é mundano e espiritual, e especialmente a dissolução que faz do que conhecemos como Tempo, é um negócio que me pegou de surpresa. Tem momentos que Pecadores não parece filme, parece ritual. Quando surge sua grande cena (aquela sobre a qual ainda falaremos por muito tempo), me percebi com a mão tapando a boca, espantado, enquanto sentia meus olhos tornarem-se cachoeira. Eu não vi isso vindo. Quando notei, já estava assim. É essa a capacidade de tornar-se transe que faz um filme como esse ser tão especial.
Uma vez João Benárd da Costa escreveu que uma vida humana é curta demais para mais que duas ou três boas ideias fixas. Recordo também de já ter visto Carlos Reichenbach falando que adorava assistir filmes irregulares porque sabia que até eles poderiam entregar algum momento de maravilhamento, de sublimação. Eu acho que essa cena a que me refiro, a cena onde a música abre as portas do mundo espiritual e rasga o tecido do tempo é, provavelmente, uma das grandes ideias de cinema de nosso tempo. É esse momento de arrebatamento, de sublimação, de maravilhamento. É quando o filme transcende, quando você se sente suspenso diante de algo que ainda não viu. Um daqueles momentos que justificam a existência do cinema. Joaquim Pedro de Andrade disse que fazia filmes para ver e mostrar o nunca visto. Coogler me mostrou algo nunca visto. E o que senti, muito similar à força de um tiro que carregava em si toda uma carga história de cinema de gênero, foi especial, muito especial.
É o tipo de ideia arriscada que poderia pôr tudo a perder. Acho que o filme está cheio delas, aliás. Me parece que Pecadores está impregnado pelo desejo de risco. Enquanto assistia, me ocorreu diversas vezes em pensamento a frase “não se fazem mais filmes assim”. Um filme adulto, feito para espectadores adultos, que constrói suas personagens com o mesmo respeito com que as descarta, que não nega a sua narrativa a presença de pathos ou eros, que é preenchido por sangue e sexo ao mesmo tempo em que torna tudo político porque entende que tudo é político. Aquelas existências, naquele contexto, são irremediavelmente políticas. Nesse sentido, o filme de Coogler dosa muitíssimo bem o seu desejo de cinema e seu desejo de discurso - até porque me parece que, antes de tudo, seu maior interesse na construção do mesmo está na forma.
Coogler e sua diretora de fotografia Autumn Durald Arkapaw enquadrarem corpos pretos e amarelos vivendo, amando, trepando ou matando em uma tela gigantesca de IMAX filmado em 65mm é tão político quanto qualquer mensagem que o texto traga, e o filme sabe disso. Aliás, valeria também falar sobre o trabalho de Arkapaw, que aqui investe em largo formato com câmeras IMAX e Panavision 65mm, além de lentes anamórficas, para construir um filme de visual sujo. É curioso comparar a imagem de Pecadores com a de filmes recentes igualmente filmados com o formato ou o mesmo uso de lentes.
Se observarmos a imagem de um Tenet (2020), dirigido pelo amigo de Coogler, Christopher Nolan, dá pra observar como a imagem do filme de tão límpida e definida muitas vezes remete até mesmo ao digital. Ou se pensarmos em John Wick 4 (2023), de Chad Stahelski, que utiliza lentes anamórficas com um filtro no vidro frontal especialmente preparado para que se controle a entrada de flares, e assim se busque uma imagem mais limpa. Não estou criticando esses filmes, estou apontando como são obras que utilizam do formato ou do equipamento, mas parecem estar sempre buscando uma atmosfera moderna, mesmo acenando para o passado (filmar em película com lentes Panavision tem um peso histórico dentro do cinema). Em Pecadores não há isso. Parece que Arkapaw saboreia cada plano extremamente granulado, contraste altíssimo, muitas vezes subexpostos - tem vários planos que poderiam ser considerados “erros” de exposição e que aqui são de um bom gosto tremendo.
E acho que essa questão de que o que poderia ser considerado erro ou problema transformar-se em força está durante todo o filme. Pecadores consegue construir uma magia tão própria, uma força de cinema tão encantadora, que é o tipo de filme que você até fecha os olhos para eventuais questões que se tenha. Claro, para além de toda tecnicidade, há ainda todo o mérito político e também religioso da coisa (não é todo dia que se vê numa tela de cinema um patuá protegendo alguém), mas acho que outros textos lidarão com isso, então tentei me focar no que mais me interessa nele, essa força de cinema que causa esse arrebatamento, que emociona, que arrepia, que te faz sair do cinema meio atordoado, se perguntando o que acabou de ver.
No momento, me ocorre que Pecadores é um filme perfeito. Pra mim, filmes perfeitos não são filmes que não têm falhas, mas filmes cujos méritos são tão grandes, tão fortes, que te fazem ignorar os eventuais problemas. Na balança do coração, o que agrada pesa muito mais, sublima todo o resto. É genuinamente como se apaixonar por alguém e ver aquela pessoa se tornar perfeita diante de seus olhos. Um filme de amor, afinal.



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