Algumas coisas me chamam a atenção nesse Ballerina, spin-off que situa-se entre o terceiro e o quarto filme da franquia de ação John Wick, encabeçada por Keanu Reeves e que aqui tem o bastão devidamente cedido a Ana de Armas - que, por sinal, maneja várias durante o filme. Perdão, irresistível.
A primeira coisa que me vem diz respeito a essa ideia de mitologia e universo, elementos que parecem tão caros a um cinema comercial americano contemporâneo. O espectador exige cada vez mais um conceito de verossimilhança que passa pelo esforço de que tudo esteja sempre interligado. Vai além da citação, é um desejo de que tudo realmente faça parte do mesmo mundo - talvez uma das maldições que amargaremos herdar durante um bom tempo graças ao MCU (lê-se “eme-cu”).
Perceba, Ballerina é um spin-off que visa a expansão de seu universo - mas o faz através da subversão de lugares comuns. Parece um filme com mais tesão por percorrer os mesmos caminhos já corridos - só que de maneira ligeiramente diferente -, que com uma busca pela expansão de um olhar. Quando digo olhar, me refiro à maneira como nos relacionamos com esse universo. Onde se coloca a câmera, define um olhar. Quando se corta um plano, define um olhar. O olhar no filme de Len Wiseman parece pagar pedágio ao estabelecido pelo diretor da quadrilogia original, Chad Stahelski, a todo instante. Nossa sorte é que o que já vinha sendo estabelecido na matriz era de muito boa qualidade: Wiseman não ousa criar planos que já não tenham sido usados pelo diretor original, mas felizmente Stahelski sempre teve um traquejo bom para enquadrar e compor plano de ação. Nosso azar é que as melhores ideias do filme parecem vir mais de decisões de roteiro que de decisões de câmera.
Quando falo sobre olhar, também quero dizer que Ballerina parece mais interessado em fazer uma manutenção de seu universo do que exatamente uma expansão dele. É a velha máxima da continuação hollywoodiana: repete o que o fã gostou e aumenta a escala. Entrega-se muito background do que não carecia de contextualização. E troca-se um deserto de areia do filme anterior por um deserto de gelo, a grosso modo. Por diversas vezes o filme tenta alçar voos próprios interessantíssimos a partir de subversões (já tratarei disso), mas sempre me parece refém dessa necessidade do lugar comum. Veja bem, estamos no universo John Wick, então obrigatoriamente teremos uma luta em balada. Ou uma luta numa construção histórica (aqui, um castelo). Ou uma luta em ruínas. Ou num certo hotel. Enfim, você entendeu. Na esmagadora parte do tempo, Ballerina parece jogar no seguro de falar no ouvido do espectador a todo instante que ele está em terreno familiar, não há risco de dar de cara com algo novo. É curioso em um filme com tanta pancadaria de qualidade uma câmera que se recuse a agredir seu público, a agredir suas certezas. Pouco se inventa além da emulação da escola Stahelski de filmagem de pega-pra-capá.
Não há problema algum nesse esforço em replicar os mesmos cenários já conhecidos, mas não pude deixar de me perceber tentando fazer aquele exercício maldito que geralmente reclamamos que críticos fazem: o de imaginar um outro filme que não aquele. Eve, a primeira mulher (hah!) a ser protagonista na franquia JW, é treinada num clã que intercala as aulas de artes marciais ao balé. A dança, está presente em todo o filme - e me salta aos olhos especialmente tudo o que envolve a escola de balé, seus corredores, dormitórios, segredos. Me perdoem a canalhice de imaginar um filme hipotético, mas que bela oportunidade seria de, numa franquia que a todo momento demonstra uma devoção extrema à história do cinema do corpo (Keaton, Chaplin, enfim), termos essa trama específica guiada por uma linguagem que se permitisse acenar, por exemplo, como quem não quer nada, a um Dario Argento da vida? Só jogando aqui.
Trago essa #provocação porque me parece que, ao tentar encaixar-se em um estilo pré-determinado, perde-se a oportunidade de expandir esse olhar, essa maneira como nos relacionamos com esse universo - que visualmente é tão rico e parece oferecer tantas oportunidades estéticas. Eu adoraria ver um filme do universo John Wick que fosse mais spaghetti western, outro que se permitisse ser mais filme de espião sessentista, outro que apostasse exclusivamente numa estética wuxia, outro que fosse mais terror, e por aí vai. Stahelski é um ótimo diretor, mas não sei se o estilo dele precisa guiar a mise-en-scène de qualquer filme desse universo. No fim das contas, a franquia John Wick é uma franquia de cinefilia. Ela carrega em cada decisão de roteiro e de direção toda uma história do cinema de ação de várias épocas. Por que não se permitir brincar com isso? Por que não se permitir tensionar para além do que se convencionou a elogiar nesses filmes, coisas como “investe em planos abertos e sem muito corte, o que permite ver melhor a coreografia da luta”?
Mas voltando a Ballerina. Na primeira metade, estava envolvido com o filme mas achando tudo um tanto quanto domesticado demais - pelos motivos que relatei acima. Aí quando vamos pra segunda, parece que a coisa vai engrenando e ganhando um fôlego muito próprio. Caso não se preocupasse tanto em explicar coisas que não precisam ser explicadas (afinal, parte do charme da franquia é justamente recorrer a esses lugares comum de cinema enquanto constrói uma mitologia própria que tem seus mistérios), talvez a primeira metade de Ballerina ficasse livre para fazer o que a segunda faz tão bem: construir set pieces de luta cada vez mais inventivos, num trabalho de coreografia inspirado e num desencadeamento de ação e reação, de causa e consequência, que obriga seus personagens e se adaptarem e improvisarem. Tem luta com espada, lança-chamas e até patins de gelo - as cenas de ação vão surgindo quase que ao acaso, levando os personagens a terem que improvisar e a partir daí erguer novas possibilidades cênicas, e isso é muito bom. A partir de seus melhores momentos, Ballerina termina como um belo filme da franquia que, pra mim, não deve nada aos demais John Wick - mesmo que esteja carregado dessa sensação de deja vu derivado. Quando engrena, ninguém para.
E aí aqui cabe falar das subversões que citei anteriormente. Elas começam desde a primeira sequência, quando uma reviravolta num destino trágico faz com que as coisas terminem ligeiramente diferentes do clichê que você espera. Ou podemos falar também sobre a obrigatória sequência em que um fornecedor de armas apresenta vários “brinquedos” novos, comentando sobre cada um - geralmente o momento em que vemos uma simples lojinha de armamentos pesados e elegantes transformar-se na disneylândia de todo homem frustrado que um dia ousou sonhar que um revólver lhe serviria melhor que o próprio pinto. Divaguei. Voltemos. Ballerina tem uma cena ótima de “apresentação de armas que serão usadas na próxima missão”, e boa parte do frescor que sequência tem, já tão batida desde que James Bond conheceu Q, vem da subversão de expectativas que o roteiro constrói. O filme tem várias dessas brincadeirinhas, mas uma em especial me pegou em cheio.
Vamos imaginar um pouco, vem comigo. Externa, rua, noite. Plano aberto frontal. A protagonista sai correndo de um prédio e entra em seu carro. Pisa no acelerador rua afora, enquanto a câmera sobe num pedestal - movimento feito com grua, geralmente utilizado nesse tipo de plano em que um carro anda por uma rua estreita, distanciando-se da câmera. Na maioria das vezes, nesse plano a câmera vai subindo, subindo, dando um panorama geral da rua e, corta. Aqui não. A mesma subida de grua que a câmera dá, é a mesma descida que logo mais ela dará quando o plano de escapar dirigindo dá errado. É um movimento pendular, quase como a subida na escada que John Wick dá antes de ser jogado degraus abaixo novamente. Essa sacada é simples mas boa, porque parece subverter não um clichê da própria franquia ou do gênero, mas um lugar comum da própria linguagem do cinema hollywoodiano. A câmera sobe e, ao invés de cortar, a câmera desce. É esse tipo de sacadinha que me ganha em um filme como Ballerina. É esse tipo de personalidade que tento buscar quando assisto a um filme que caminha tão tenuemente na linha do derivativo. Talvez esse gesto de buscar frestas de respiro próprio seja cada vez mais importante num tipo de cinema comercial que tenta entregar sempre o mesmo produto sob novas embalagens. Acredito que com o tempo essas frestas farão com que seja melhor apreciado. Talvez até dê pra sonhar que, em uma eventual continuação, consigamos ver a personagem andando com as próprias pernas, formalmente falando.



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