O cinema, essa caverna de sonhos 

Existe certa magia que só pode ser vivida numa sala de cinema de rua. Com a crescente diminuição delas desde os anos 1980 - quando se estabeleceram no país os shoppings com seus multiplexes -, ir ao cinema de rua infelizmente caminha cada vez mais na corda bamba do acesso, olhando para baixo enquanto contempla um lago de hipsters de classe média.

São poucas as salas de rua que ainda resistem no Brasil, uma vez que a maioria se transmutou em cinema pornô, igreja evangélica ou Casas Bahia. Quem vai a uma sala de cinema de rua, especialmente naquelas dos centros das grandes cidades, dificilmente está lá para brincadeira. Não existe tanto o acaso de estar zanzando pela praça de alimentação, ver que ainda tem umas 2 horas livres no shopping e de repente se perguntar "o que será que tá passando?". Geralmente, quem vai ao cinema de rua vai ao encontro dos filmes. É um crime doloso, recheado de intenção de cinema. Vai além do matar tempo, além do escapismo. Ao menos gosto de pensar assim, quando entro numa sessão de rua e me sinto rodeado por aquelas poucas e bravas pessoas que serão minhas colegas de aventura durante os próximos 90 minutos.

A história que pretendo compartilhar com o leitor, porém, aconteceu numa sala cheia, no resiliente Cine Glauber Rocha, centro da cidade de Salvador, em frente à praça Castro Alves e à Baía de Todos os Santos. Caso desconheça, vale o Google. Pois bem, voltando: festival de cinema, sessão lotando no meio da tarde para ver filme brasileiro - cinemas de rua também são espaço de sonho e utopia. As pessoas iam entrando, conversando empolgadas naquele tipo de expectativa que se tem ao entrar numa sessão de festival onde sabe-se que está prestes a descobrir alguma coisa nova. A luz apaga-se, as vinhetas de patrocinadores começam. Silêncio e rostos iluminados pela luz que rebate no ecrã. O filme começa, até que em poucos instantes há uma queda de energia absoluta. Ficamos ali, aquelas dezenas de estranhos, sem entender o que está acontecendo. Alguém sai da sala para tentar buscar ajuda de funcionários do cinema outra grita que faltou luz. Em segundos, a concentração de outrora é desmontada, e a sala de cinema torna-se um simulacro do que foi o episódio da Torre de Babel.

Ficamos ali, sem saber se saímos da sala, se continuamos aguardando, se o cinema tem um gerador, se alguém ligou para a COELBA. As pessoas vão conversando entre si e os minutos seguem correndo no relógio, até que uma moça no fundo da sala liga a lanterna do celular e aponta para a tela. Todo mundo olha pra frente novamente, tentando entender o que está acontecendo. A moça da lanterna agora faz sombras da própria mão, projetando na tela de cinema pássaros, coelhos e uma criatura que na hora julgo ser uma lhama. Todo mundo ri, para de conversar e fica ali, olhando as sombras. Aí um rapaz do lado esquerdo da sala também aponta a lanterna do celular para o ecrã, fazendo suas próprias sombras de bichinhos, um pouco mais caóticas que as da moça. Em instantes, as sombras começam a interagir entre si, e assistimos aquilo como uma espécie de Animal Planet rupestre.

Todos riem e aplaudem o espetáculo, até que a energia elétrica volta e a sessão recomeça. Naturalmente, eu já tinha esquecido que estava ali para ver um filme. A sensação era de que o filme já estava acontecendo, ao vivo, diante de mim. E todo mundo ali, estranhos entre si, aliados mediante um apagão, talvez tivesse se tornado cúmplices daquele filme, que só existiu durante aqueles minutos, mas que foi estranho e especial. Gosto de imaginar que isso não aconteceria em nenhum outro lugar que não fosse uma sala de cinema de rua, esse espaço onde as pessoas vão para descobrir o que ainda não tem nome - e que, no fim, sempre saem descobrindo mais do cinema, esse mito da caverna moderno, que segue arrebatando, fascinando, prendendo e libertando.

LIGHT

Ilumine e aumente a visibilidade — seja o primeiro!

Comentários 8
Bombando
Novo
comments

Compartilhe sua opinião!

Seja a primeira pessoa a iniciar uma conversa.