Hoje decidi falar sobre um curta-metragem experimental que pode ser assistido no YouTube. Pas de Deux, filme de 1968 realizado por Norman McLaren - um dos mais importantes cineastas escoceses, que viu o florescimento de sua carreira no Canadá. Para fazer jus a seu tamanho, é justo dizer que McLaren pode ter sido um dos grandes artistas do século XX, e se você não ouviu falar dele certamente experimentou consequências diretas de suas invenções. McLaren foi um dos “experimentadores”, por assim dizer, que desenvolveram as possibilidades do som no cinema.
Através de pequenos furos e riscos na fita da banda sonora, descobriu que sons estranhos poderiam ser produzidos diretamente no filme, sem a intermediação de instrumentos musicais. Daí se iniciou toda uma relação com o som (e com a música) em seus filmes para além do óbvio. O som não ilustra ou acompanha a imagem, de certa forma faz parte dela, são uma coisa só. Porém, neste texto não falarei sobre som, embora ele seja um componente vital no arrebatamento que Pas de Deux causa. Este é um texto sobre imagens em movimento.
Não me cabe aqui definir o que é o filme - luxo que se tem ao falar sobre cinema experimental que também deveria valer para o cinema narrativo -, mas basta dizer que talvez sejam os 13 minutos mais hipnotizantes a que o leitor poderá ter o prazer de ser exposto essa semana. O que me pega no minimalismo do filme - e que também é um fascínio que se estende por diversas filmografias do cinema experimental - é que ele parece apontar para uma estratificação do cinema. Filmes como Pas de Deux nos lembram que cinema, no fim das contas, é apenas a fascinante junção de luz e movimento.
"Faça-se o movimento", teria ordenado Deus no oitavo dia da criação - daí foi criado o cinema. Para além do registro de uma dança, o que me enche os olhos no filme de McLaren é que o cenário é completamente anulado, assim como o corpo, diante da câmera, torna-se só um corpo. Ou além, o corpo só existe por conta da luz. É a luz que dá forma e contorno ao que reconhecemos como corpo, de modo que você não sabe se está vendo mero recorte de luz impresso em celuloide ou uma rotoscopia muito bem feita. Não importa como foi feito, importa o que é. Importa o que se alcança através daquela junção de elementos tão alquímicos, que por sua vez constroem uma ilusão tão abstrata.
O minimalismo é o que gera a abstração: o corpo também deixa de ser um corpo e vira uma forma. A forma movimenta-se, mas por conta da luz e do contraste entre preto e branco, também deixa de ser mera forma. Vira outra coisa, talvez animação, talvez o que ainda não tem nome. Fato é que as imagens fascinam, em um balé que me evoca a criação a partir da figura feminina. A mulher como início de tudo. Quando surge o homem, essas imagens parecem transar - e quando transam, multiplicam-se. A partir daí, a imagem tudo cria, o filme parece que tudo pode. Existe uma exploração de infinitas possibilidades de formas, tons, ritmos, tudo isso a partir do movimento de dois corpos em sincronia (daí o pas de deux, passo à dois, termo que vem do balé dançado em dupla).
E aí retorno à ideia de estratificação do cinema. Tornar o cinema uma polpa, ir ao núcleo, ao início de tudo. Reduzi-lo à sua condição primária, primordial, primitiva. O cinema enquanto sombra na parede da caverna. O cinema como devir humano, como possibilidade de tornar-se, como brincar de deus, como experimentar do dom da criação do que nunca existiu.
As formas a que os corpos chegam em Pas de Deux não estão na ordem da geometria. Não são obliterações de quadrados, triângulos ou círculos. São as formas do que é único. Cada corpo humano é único, indefinido, disforme. O cinema existe para o corpo. A luz e o movimento existem para o corpo. Só um corpo se move, só um corpo enxerga. E aí parece que a partir do cinema, o corpo pode tudo. Talvez o cinema seja o estado máximo do corpo, sua maior potência.
É por isso que mais de 100 anos depois, essas imagens em movimento seguem nos intrigando. É por isso que o brilho de uma luz projetada em um ecrã sempre soa como a criação do fogo. Um grupo de imagens que, postas lado a lado em milésimos de segundos, geram a sensação de movimento. E a partir dessa ilusão, criamos a vida, o mundo, os medos, os amores. Tudo isso não raras vezes mediante o corpo. O corpo que sofre, que contorce, que chora em duas dimensões - e ainda assim nos afeta do outro lado. De certa forma, esse fascínio presente em Pas de Deux já estava na maneira como o trem dos Lumiére criava a ilusão de aproximação. Já estava no registro de uma multidão de operários saindo de uma fábrica. Ou nas possibilidades de ser e de ver em Guy Blaché. Ou no aparecer e sumir de um homem nos filmes de Mélies. Ou no registro da coreografia de um corpo com Maya Deren. Talvez estejam no freeze frame de uma mão levitando que logo desaparecerá ao ser tocada no ar durante uma dancinha de TikTok. De certa forma, tudo isso está em Pas de Deux. O cinema é visto pelas entranhas.



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