As consequências de se tirar O Bigode (2005) 

Filmes como O Bigode (La Moustache, 2005), me fisgam pela premissa. Não bastaria este ser o primeiro longa dirigido por Emmanuel Carrère, adaptando um livro próprio, tampouco o rosto de Vincent Lindon, dos atores mais interessantes do cinema francês, estampando o cartaz. Ao ler a sinopse de O Bigode, senti o mesmo palpitar que agitou meu pobre coraçãozinho há muitos anos atrás, quando a contracapa de O Homem Duplicado, livro de Saramago, me saltava aos olhos em uma livraria.

Tratam-se, ambos, de narrativas de perda de identidade, um desses dilemas que parecem bater cada vez mais forte conforme as nossas possibilidades identitárias expandem-se ao passo que afunilam uma certa angústia existencial pós-moderna, que vem justamente pelo esvaziamento de um cardápio vasto.

Na trama do filme, Marc (vivido por Lindon) arruma-se para sair um jantar na casa de amigos, acompanhado da esposa Agnès (vivida por Emmanuelle Devos). Enquanto barbeia-se, decide tirar seu bigode - coisa que não faz há muitos, muitos anos. Ao ver seu rosto liso e irreconhecível no espelho, decide fazer uma surpresa para Agnès, a fim de ver a reação da esposa quando vê-lo sem bigode. Tchanram! Agnès não parece nem notar. Não apenas ela, mas quando chegam na casa dos amigos, todo mundo também parece não perceber a mudança no rosto de Marc. É claro que isso vai gerar um desentendimento entre o casal, dada a decepção do homem que a esposa não lhe dê a devida importância. É aí que Agnès revela que Marc nunca teve bigode.

Algo de estranho se apresenta aí. Ou Marc tá pirando na batatinha, ou Agnès tá orquestrando alguma coisa em conluio com seus amigos. A investigação desse mistério é o que guia a trama, que francamente é menos um thriller e mais um drama existencial - o que era o tipo de coisa que justamente me atraiu desde o início na sinopse. Veja bem, sou um homem de bigode. Para além da importância da representatividade, o que me cativou é essa possibilidade maluca de extrair de seu próprio rosto uma característica tão marcante que as pessoas não passem mais a te reconhecer. No fim, é disso que se trata o conflito de O Bigode, essa possibilidade de seu mundo ruir a partir de uma pequena característica que lhe garanta uma identidade perante o outro.

É justamente o tipo de angústia existencialista que me ganhou no livro de Saramago, ao narrar a história de um homem que, ao alugar fitas VHS para passar o fim de semana em casa assistindo filmes, descobre a si mesmo como figurante em um desses filmes. Ou é uma vida pregressa que já não se lembra, ou existe por aí, andando pelas ruas, um homem exatamente igual a ele. Um homem que talvez saiba de sua existência, que já pode ter assumido sua identidade ao encontrar um conhecido seu na rua, um homem que talvez ande por aí fingindo ser ele mesmo. É esse desespero existencial, de deparar-se com a própria descartabilidade, de enxergar como farsa o que garante que você seja você, que Villeneuve jogou fora em sua adaptação de 2014, quando transforma o doppelgänger de O Homem Duplicado para uma metáfora da guerra dos sexos.

Enquanto via O Bigode, é claro, lembrei muito de O Homem Duplicado, o livro - o filme tento me fazer o favor de esquecer. Também pensei num quadrinho antigo de Mutarelli, em que conta a história de um homem que toda semana ia visitar a avó, até que um dia notou uma pequena diferença na avó que o deixou com uma pulga atrás da orelha. Na semana seguinte notou outra diferença, e depois outra, até que passou a acreditar que aquela não era sua avó, mas uma impostora tentando passar-se por sua vó. Essa narrativa também está presente no livro A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, do mesmo Mutarelli, que de alguma forma daria um bom caldo se posto junto a este filme aqui. Para além dessas referências que carrego comigo (porque são nossas vivências que criam nossa subjetividade e assim formam a nossa relação com os filmes, preenchendo-lhes de sentido), me peguei também pensando numa ex-namorada que me contara que nunca havia visto o pai sem bigode. Por quase 30 anos de vida, ela só conheceu um rosto possível para o pai, e me confessou que tinha certo receio do estranhamento que sentiria se um dia ele tirasse.

Nesse sentido, a narrativa de O Bigode é um anti-unheimlich freudiano, porque a sensação de familiaridade nunca está posta. Marc busca fotos antigas do casal, todas em que ele está de bigode, e Agnès age como se não enxergasse o bigode nas fotos. Ou pior, age como se o marido estivesse vendo coisas, o que lhe preocupa progressivamente. Quando ameaça tornar-se um “filme de descoberta de maluquice” à la Uma Mente Brilhante, O Bigode quase me perdeu. Mas Carrère nunca deixa essa peteca cair, grande parte porque conhece como ninguém o material de origem, grande parte porque revela-se um cineasta astuto, dono de uma encenação elegante e econômica, que deixa para momentos chave as movimentações de câmera mais potencialmente desorientadoras.

É aí que entra a beleza da coisa toda, porque o filme parece que vai sendo contaminado pela confusão mental de seu protagonista. Os cortes da montagem vão abrindo mão de continuidade e dando prioridade a uma confusão espacial que me cativa. A câmera passa a fazer movimentos mais enérgicos, sempre acompanhando o olhar do protagonista. O filme vai largando a mão dessa racionalização das coisas, da “patologização” de seu conflito, e abraçando uma atmosfera que mais parece refletir o estado de espírito do mundo globalizado, o pavor das idiossincrasias cotidianas, do marasmo da rotina, de tudo o que pela repetição diária nos torna quem somos.

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