Certa vez Godard disse que o cinema “é a verdade 24 quadros por segundo”. Tempos depois Fassbinder dobrou a aposta e revelou que na verdade o cinema seria “a mentira 24 vezes por segundo”. Aprendi cedo que as duas afirmações são verdadeiras, uma vez que para o cinema existir ele precisa de um acordo de via de mão dupla entre artista e público: o cineasta conta uma mentira fingindo que é verdade, e o espectador ouve a mentira fingindo que acredita.
Isso dá ao cinema uma característica muito única, a possibilidade de “ver e mostrar o nunca visto”, como diria Joaquim Pedro de Andrade. O cinema pode dar forma ao que não existe e nos fazer reagir emocionalmente àquilo como se existisse - basta você parar para pensar que nada do que se vê e ouve em Star Wars tem correspondência direta no nosso mundo. Cada som daquele - de nave, de sabre de luz, de criaturas alienígenas - precisou ser criado do zero, por não ter correspondência na vida real. Cinema também serve, aliás, para materializar o que já teve correspondência mas não existe mais - já parou pra pensar que a gente tem muito fácil na cabeça como é o som que um T-Rex faz não por já termos ouvido um bichão daqueles rugindo mas porque um dia artistas de som combinaram ruídos feitos por elefantes e coalas e criaram o rugido do dinossauro em Jurassic Park?
Isso sem contar os clichês que se toma por verdade e que formam o imaginário coletivo porque são tão repetidos no cinema que adentram a espessa camada do senso comum. No mundo dos filmes, as pessoas saltam de carros em movimento e levantam ilesas. Explosões empurram seres humanos pelos ares - mas raramente os matam. Homens acordam de pesadelos sempre descamisados e extremamente suados, mulheres levantam pela manhã já maquiadas, presos têm direito a uma única ligação, tiros em mocinhos acertam sempre no ombro e ninguém diz “tchau” ao terminar um telefonema.
Em um primeiro momento, as coincidências e os chamados “furos de roteiro” podem incomodar o jovem cinéfilo que ainda está adentrando o mundo do cinema, mas aprendi com Hitchcock (e posteriormente com De Palma e Shyamalan) que uma mentira bem contada tem seu lugar. Fui compreendendo que os filmes não precisam sempre seguir a lógica da vida, e que o cinema é justamente o lugar da probabilidade mínima. É nos filmes que cai o número exato que precisamos ao jogar os dados - e é um barato essa inversão, de ser plausível no cinema o que é implausível na vida; de ser altamente provável no cinema, o que é bastante improvável no mundo real.
Por que eu tô contando tudo isso? Bem, é capaz de que minha analista dissesse que estou tentando aliviar a barra para mim mesmo, já que o leitor talvez me julgue pelo relato que narrarei: a história de que por um bom tempinho eu acreditei que fosse o Homem-Aranha. Não, você não leu errado: de certa forma, dá pra dizer que eu me tornei o Homem-Aranha pelo período de mais ou menos uma ou duas semanas. Em minha defesa, eu tinha apenas 8 anos - e sabemos bem que quando crianças temos a imaginação aguçada a ponto de enxergar o irreal projetado sobre o real.
Perceba, eu já vinha de um histórico não tão confiável. Para além de ter tido criação evangélica (acreditar em coisas que não existem nunca foi problema), meses antes jurei de pés juntos ter visto andando pelas noites de Salvador a Máquina do Mistério, aquele furgão da turma do Scooby-Doo. Enquanto colegas da escola tinham medo do escuro ou, sei lá, da Mula Sem Cabeça, meu maior medo aos 7 anos era Michael Jackson, após jurar tê-lo visto na janela do quarto de meus pais. Me exponho de tal maneira pra você saber que essa criança tornou-se um adulto que trabalha com cinema, então convenhamos que eu ter sido o Homem-Aranha durante 10 dias era apenas a história de origem de algo maior.
Mas como com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, se citei o meu histórico super heroico é mais do que justo que eu conte como isso se deu. Tudo começou numa manhã de sábado chuvosa. Eu havia acordado há poucos minutos e estava lendo quadrinhos do Homem-Aranha (oh!), quando senti algo comichando por minhas mãozinhas: era uma pequenina aranha, que desceu de uma teia diretamente do teto da casa. Quem convive comigo sabe do meu medo por aranhas (ele é anterior a este causo), então é esperado imaginar que no desespero, a joguei pra longe. Arrepiado e em completa angústia, achei por bem checar mão e pulso pra ver se ela não teria me picado. Aqui vai a primeira problemática: hoje tenho plena certeza de que me convenci que aquela aranhinha me mordeu. Foi pura fanfic que resolvi acreditar, porque na real eu não senti nada. Pura dentada psicológica.
Fato é que naquela mesma semana estreava Homem-Aranha 2 e meus pais me levaram, dias depois ao “incidente”, para assistir ao filme no Tamoio, um cinema de rua que existia no centro de Salvador naquela época. Aí você une a empolgação da criança que viu o herói favorito naquele bendito filmaço de Sam Raimi, com a criança que teve um contato imediato de primeiro grau com uma aranha - vale lembrar, criança essa que cresceu enxergando moonwalk como gatilho. Não deu outra, eu comecei a atravessar durante os dias seguintes toda a metamorfose que Peter Parker havia sofrido no primeiro filme. Não consegui emular tão bem a febre e o desmaio, muito menos o surgimento de músculos (com estes, caro leitor, sonho até hoje), mas foi um tal de saltar, correr, sentir-se mais ágil.
Tudo aquilo, evidentemente, deveria ser mantido em segredo - afinal, tenho pessoas para proteger ao meu redor, amo minha família, preciso de uma identidade secreta. Como qualquer criança periférica que sofre um acidente radioativo e ganha superpoderes, eu não tinha dinheiro para um uniforme. Então comecei a treinar desenhar a máscara do Homem-Aranha em tamanho real. Desenhava os olhos, as teias, pintava tudo, recortava (tesouras sem ponta, conforme os ensinamentos de Eliana), fazia dois furinhos em cada ponta e amarrava com linha. A máscara eu tinha. Um casaco vermelho com gola alta e uma jaqueta jeans por cima resolveriam o obstáculo da roupa. O uniforme eu tinha. Por fim, um Homem-Aranha decente que se preze precisa de lançadores de teia. Resolvi isso pedindo à minha avó que costurasse duas munhequeiras vermelhas pra mim. Os lançadores de teia eu também tinha.
A partir daí, meu trabalho seria apenas manter minha identidade secreta enquanto não podia andar pelas ruas sujas da cidade a fim de arrumar alguma confusão e combater o crime (meus pais não me deixavam sair de casa só). Iniciou-se, assim, a segunda problemática: ninguém fala o quão difícil é manter uma identidade secreta para um super-herói de 8 anos de idade. Especialmente na escola, onde os recreios acabaram tornando-se uma desculpa para explorar meus recentes poderes aracnídeos. O parquinho da escola era o meu parque de diversões, literalmente. Era cada pulo, cada salto, cada chute no ar - muito me admirava que nenhum dos meus amiguinhos ligasse. Se não ligavam, cabia à mim tentar plantar a dúvida na cabeça deles. O grande barato passou a ser tentar fazer com que algum colega da turma um dia se perguntasse: “será que Calebe é o Homem-Aranha?”.
Essa foi a minha ruína. Comecei a dar pala, deixar pistas, gestos ambíguos que pudessem revelar para o colega com faro detetivesco de que naquele angu havia caroço. O auge disso foi numa bela manhã onde, durante um exercício de matemática, uma colega sentada na outra ponta da sala gritou meu nome e perguntou se eu poderia emprestar um apontador. Solícito como todo super-herói, levantei-me para ir até ela, mas o senso de revelar a identidade secreta me acometeu (Poe chamaria isso de “o demônio da perversidade”). Com o apontador em mãos, joguei-me agilmente ao chão, e cruzei a sala movendo-me rapidamente a quatro patas, tal qual… uma aranha.
Lembro de ter tentado passar por baixo das carteiras, mas sequer minha cabeça cabia nelas, por mais que tentasse. Eu era assim, destemido. Então cruzei a sala com essa destreza aracnídea, sujando o uniforme da escolinha e chamando a atenção de colegas e professora. Chegando em meu destino, levantei e, em pé, triunfante, entreguei o apontador para a colega. Ela me olhou fazendo uma cara esquisita (talvez aquela que mulheres fazem quando sentem repulsa) e perguntou: “por que você fez isso?”.
Leitor, meu fiel confidente: eu não soube responder. Me senti mais ridículo do que heróico a partir dali, e cheguei à conclusão de que essa vida de super-herói talvez não fosse pra mim. Aos 8 anos eu havia entendido o que o Comediante de Watchmen precisou levar uma vida para aprender. Eu entendi a humanidade e me tornei uma paródia dela. Ao chegar em casa, resolvi aposentar o uniforme. O crime não compensa, mas esqueceram de me avisar que o combate ao crime também não. A máscara já tava toda amassada, as munhequeiras poderiam ser reutilizadas dentro de alguns anos, se eu me tornasse roqueiro na adolescência. Um filme havia me feito acreditar que ser picado (há controvérsias) por uma aranha me daria poderes, mas no fim das contas os meus anos de combate ao crime haviam acabado. Homem-Aranha nunca mais.
Rain drops keep falling on my head…



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