Estamos na década de 30, em meio a um Estados Unidos devastado após a Primeira Guerra Mundial, a Grande Depressão, um período de enorme instabilidade econômica e social, com desilusões sem fim, tudo isso prestes a culminar na Segunda Grande Guerra. No meio desse cenário, sem perspectiva de retomada ou de mudança nos aspectos políticos e sociais, surge então uma força incomum. Essa força toma forma nas tiras de quadrinhos impressas, nas cores vermelha, azul e amarela, trazendo a arte como refúgio e, principalmente, como símbolo de esperança.

Foi dessa forma que, em sua primeira aparição em 18 de abril de 1938, na Action Comics #1, nasce o Superman. O personagem se tornou ícone ao representar superforça e heroísmo, oferecendo uma visão singular sobre o que é lutar contra o mal e as injustiças ao redor. Memórias foram criadas, histórias também. Desde os quadrinhos, que desde então fazem sucesso nas bancas de jornal - bancas essas que infelizmente estão desaparecendo - até músicas, produtos diversos, referências em várias mídias, atos políticos, séries de TV e, principalmente, seus filmes.
Ao tentar materializar Clark Kent, algumas imagens vêm imediatamente à mente. Uma delas certamente é a interpretação de Christopher Reeve no longa de 1978. Com seu rosto angelical, Reeve encarnou o herói de forma tão marcante que, até hoje, impressiona. Reeve é o Superman. Richard Donner, diretor do longa, em combinação com sua equipe e a emblemática trilha sonora de John Williams, fez um homem voar e fez com que todos acreditassem que aquilo era real. Para muitos, esse é o melhor filme já feito sobre o Homem de Aço.

87 anos se passaram desde sua primeira aparição, um número que pode parecer distante apenas em termos cronológicos, mas que, em pensamento, se mostra muito próximo. Desde a crise de 2008, tivemos uma ascensão evidente do fascismo ao redor do mundo, com líderes clamando pelo retorno de períodos sombrios, os mesmos contra os quais o personagem lutava em 1938. Guerras, invasões, ataques de ódio, grupos extremistas e tantas outras coisas que nem merecem a escrita. Ao olhar ao redor, percebemos que perdemos algo essencial: o simples ato de sermos humanos.
É nesse cenário conturbado, onde os mesmos fantasmas do passado insistem em assombrar o presente, que Superman retorna às telas em 2025. Sob uma nova gestão do universo cinematográfico da DC, James Gunn assume a responsabilidade de reimaginar esse símbolo com a sensibilidade e a ousadia que o momento exige. A promessa não era apenas reconstruir um herói, mas resgatar sua essência, a de um forasteiro em meio ao caos, que ainda acredita no bem, mesmo quando o mundo insiste no contrário.
Após três anos combatendo o crime em Metrópolis, Superman intervém na guerra entre Boravia e Jarhanpur, opondo-se à invasão irresponsável de Boravia, país que conta com o apoio do governo americano, este comandado por um agente externo: Lex Luthor. Essa intervenção causa divisão entre os cidadãos, entre os que o apoiam e os que desaprovam seu envolvimento. Dentro de tudo isso, ainda acompanhamos o relacionamento entre Clark Kent e Lois Lane, a presença de outros heróis e até mesmo um cachorro espevitado com poderes.
Essa nova roupagem construída por James Gunn nos apresenta um herói falho. Logo nos primeiros minutos, somos expostos ao seu momento de maior fragilidade, a perda de sua primeira batalha. Fisicamente e mentalmente destruído, temos aqui um Superman vulnerável e principalmente, humano. Algo raro de se ver, especialmente em relação à sua versão glorificada de Zack Snyder. Esse Superman é diferente, mérito de quem o interpreta: David Corenswet. Desde os trailers já brilhava, e aqui consegue mostrar todo o seu jeito desajeitado como jornalista no Planeta Diário e o ímpeto de alguém que está ali para proteger a população.

População essa que está rodeada por informações, vindas de veículos de notícias, boatos e redes sociais. A mídia exerce um papel fundamental no longa e é trabalhada de maneira precisa por meio do núcleo do Planeta Diário, com Lois Lane, interpretada por Rachel Brosnahan, Jimmy Olsen, vivido por Skyler Gisondo, e também pelo núcleo de Lex Luthor, interpretado por Nicholas Hoult, usando a mídia como ferramenta de desinformação contra o Superman, tentando destruir sua reputação diante da população.
Meu maior destaque vai para Luthor, que representa perfeitamente o estereótipo do vilão clássico dos filmes de super-heróis, mas com um olhar atual. Ele não é caricato, como muitos antagonistas costumam ser. Hoult não precisa verbalizar seus pensamentos; seu comportamento já nos remete, sem esforço, a figuras que estão hoje no poder. Suas ideias e vieses se alinham com discursos extremistas, principalmente de extrema direita, mas sem perder a essência do personagem dos quadrinhos e das animações da Liga da Justiça. Criando portais para mundos cartunescos e até sendo capaz de iniciar uma guerra distante de Metrópolis apenas para destruir seu arquirrival.

Essa trama política é extremamente bem construída e ousada para os dias de hoje. O problema está justamente quando o filme se distancia dela. É claro que, por ser um filme de super-herói, são necessárias grandes cenas de ação e destruição. No entanto, é aí que o filme me incomoda. Talvez pelo excesso de filmes que seguem essa mesma fórmula, sinto que, ao se afastar dessas cenas, o longa ganha em qualidade. As batalhas nem sempre agregam algo. Isso se torna um problema, pois quando a história tenta avançar nas questões políticas, essas batalhas acabam interrompendo a narrativa. Todo o enredo sobre Ultraman e sua identidade poderia ter menos destaque, mesmo que sirva para demonstrar a inteligência de Lex Luthor e como ele é calculista em sua tentativa de destruir o Superman.
Dessa forma, fico muito satisfeito com o que foi entregue. Principalmente por apresentar um Superman que é, antes de tudo, um imigrante na Terra, como o próprio James Gunn destacou. Um personagem inserido em conflitos que reconhecemos no mundo real. A arte, aqui, segue sendo esse refúgio do mundo caótico, mas, acima de tudo, uma crítica, um espelho. É por meio da ficção que tratamos os conflitos do mundo. E a situação em que vivemos hoje faz com que um herói de capa vermelha e cueca por cima da calça venha nos lembrar de quem somos, e de tudo aquilo contra o qual precisamos lutar: as injustiças, o fascismo, a tirania.
No fundo, ele nos mostra que ainda somos humanos. E é preciso da arte para nos acordar para a realidade porque se em 1938 Superman nasceu como resposta a um mundo que desmoronava, em 2025 ele retorna com a mesma missão. Talvez com novas roupas, novos rostos e novos cenários, mas carregando a mesma essência: a de um símbolo de esperança que atravessa gerações, resiste às sombras do tempo e nos convida, sempre, a acreditar que ainda há tempo de mudar.



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