Superman (2025) e o sinal dos tempos 

Muitas coisas me chamam a atenção nesse filme do Superman escrito e dirigido por James Gunn, mas estruturei meu texto em torno de apenas três delas. A primeira, diz respeito ao seu subgênero. É um baita acerto compor seu filme em um universo que já se inicia tendo a presença de metahumanos (ou seres com superpoderes) há três séculos. Isso permite que o filme reflita o tão falado suposto esgotamento do subgênero, uma vez que já no primeiro minuto de filme somos jogados ao meio de uma ação da qual nunca veremos a origem (bem como o início de todos os personagens aqui também é deixado de lado).

Quando a ação inicial vai para o centro de Metrópolis, a reação dos habitantes da cidade varia entre o óbvio desespero diante da ameaça à própria vida e até certa indiferença: soa como uma terça-feira monótona na cidade. São espectadores vendo sempre o mesmo tipo de filme. Não existe a sensação de pequeneza humana diante da grandiosidade dos deuses, como nos filmes de Zack Snyder, nem o maravilhamento com essas aparições salvadoras, como nos filmes do MCU sob produção de Kevin Feige. Observando como os cidadãos de Metrópolis reagem a monstros interdimensionais e super-heróis voadores, me peguei lembrando do segundo Homem-Aranha dirigido por Marc Webb: na cena de apresentação do vilão Electro, os nova-iorquinos parecem reagir ao perigo do vilão como quem interage com uma atração de parque temático. Isso tudo é interessante nesse filme de James Gunn porque trata-se de um mundo pós-cinema de super-herói - o que permite que o diretor se dê esses luxos de não apenas não contar origem de ninguém, como também de abraçar o lado mais fantasioso dos quadrinhos da Era de Prata da DC, onde conceitos científicos malucos são pura encheção de linguiça, pepino pra personagem inteligente descascar.

Nesse quesito, é um filme muito consciente, muito sintonizado com o que se passa na indústria e no próprio subgênero. Dá até para ir além, e dizer que todos os elementos que compõem esse novo Superman parecem resultado de alguém que não apenas trafegou pelas duas maiores casas do ramo como também estudou apaixonadamente seus filmes e quadrinhos. Especialmente quadrinhos, aliás - o leitor de Morrison ficará feliz assistindo ao novo filme do Azulão. Mas meu principal ponto se dá em como o filme situa-se na exata intersecção do filme grandioso e um tanto descerebrado com o qual a Marvel consegue fazer zilhões, e uma certa pretensão autoral de um Coringa ou The Batman da vida, com a qual a DC também fez seus bons trocados. Situa-se no meio porque Superman jamais deixa de ser um filme de ação muito honesto, grandiloquente e por vezes até genérico - e faz isso sem nunca deixar-nos esquecer que trata-se de um filme construído em cima de um sólido ponto de vista (talvez hoje um dos Santo Graal de um cinema hollywoodiano cada vez mais afeito a uma ideia de produção em massa sem personalidade.)

Isso me leva à segunda coisa a tratar nesse texto: sua linguagem. Pessoalmente me preocupo com o nerdola que assistir ao filme e, previamente querendo desgostar, vá dizer que trata-se de mais do mesmo. Não é. Assim como já havíamos visto no filme anterior de Matt Reeves e no próprio Esquadrão Suicida de Gunn, Superman é um filme muito bem dirigido, que possui uma unidade formal robusta: todos os elementos em cena convergem para a criação de um tom, de uma atmosfera, que me parece fresca mesmo que olhando constantemente para o passado (sejam os filmes de Donner, sejam as ainda impressionantes animações em technicolor da Fleischer Studios). O filme recupera um tom cartunesco (“de matinê” tem sido uma expressão recorrente a ser lida nas redes sociais como elogio) muito bem vindo, utilizando-se dele pra desenvolver seu sem número de personagens em cena. É um filme um tanto episódico (termina-se com a impressão real de ter pego um quadrinho na banca de revista no meio de um arco e lido alguns números até o final), que poderia soar inchado se não utilizasse esse mesmo tom para apresentar personagens e suas motivações. O filme consegue desenvolver tudo e todos a partir da simplicidade, e o faz com muita fé e carisma honesto, sem cinismo.

Em Superman, heróis e mocinhos discursam sobre o motivo de agirem como agem, enquanto personagens e tramas são desenvolvidos em paralelo, nunca hierarquicamente. A isso, soma-se o próprio trabalho de câmera, sempre muito revelador do projeto de cinema que Gunn pretende construir daqui em diante. Se por um lado as cores e a distorção das lentes aumentam a ideia de um mundo estilizado, a câmera na mão (e sempre surpreendentemente estabilizada) nos permite acompanhar a ação muito de perto, dando-lhe a mesma atenção que se dá aos momentos intimistas e dramáticos. É muito revigorante assistir a um filme em que cada elemento em cena parece ter sido desenvolvido com gosto, com tesão e propósito, e onde existe uma mise-en-scène que dá conta disso.

Repare, por exemplo, na movimentação de câmera, no jeito com que usa zooms ou chicotes (aqueles travellings rápidos) sempre de maneira dinâmica, como se a imagem do filme também tivesse sido contaminada pelo tom das atuações, do design de produção, do texto. Ou como o próprio texto, aliás, cria dinamismo até nas cenas de diálogo mais banais. As falas são sempre entrecortadas pelos personagens fazendo outras coisas (lição hitchcockiana básica sobre como se filmar bate-papo) que acompanham o tom do diálogo e adiciona-lhe subtexto não-dito.

Na minha cena favorita do filme, um diálogo tenso entre Lois e Clark sobre seu relacionamento é dividido em atenção com uma cena de ação aleatória que acontece ao fundo do cenário, no horizonte da cidade. A cena lá fora, absurdista em seu conceito, é cômica. O que está acontecendo aqui dentro com o casal, não. Ou seja, numa ideia de planificação do quadro, dá pra dizer que em primeiro plano temos drama e em segundo plano comédia. A maneira como nós, enquanto espectadores, vamos nos relacionar com isso (“que momento vamos rir”, “que momento vamos chorar”, etc.) é intermediada por duas coisas: corte e mudança de foco (rack focus). É o diretor quem vai nos conduzir para onde e como olhar.

A cena termina com minha primeira lágrima derramada no filme - o momento em que o herói anuncia que vai se entregar aos vilões por preocupação com um cachorro. “É só um cachorro”, Lois responde, colocando na balança que Superman se entregar pode lhe custar a vida (o que significa o custo de inúmeras outras vidas por tabela). Aí Clark responde que precisa descobrir onde Krypto, o cãozinho, está. Porque o imagina com medo, sozinho. E por isso há de se sacrificar. É um jeito muito bonito de construir esse personagem que está disposto a abrir mão da própria vida não apenas por todo o universo, por toda a humanidade, mas por uma única criaturinha que ele imagina que está com medo e indefesa. Esse diálogo só me desarmou tanto, porque ele vem ao final de uma cena que ziguezagueia muito bem entre a comédia e o drama. Superman é o tipo de filme que quanto mais se olha com carinho, especialmente para sua mise-en-scène, mais pode se encontrar coisas bonitas tipo essa.

E olhar com carinho e atenção me leva para a terceira coisa que me cativa no filme: seu gesto político (provavelmente) involuntário. Veja bem, quando digo involuntário não quero dizer que não há intenção (é um filme carregado de intenções políticas). Mas tenho me interessado cada vez mais pelo que escapa do controle de um cineasta. Pelos erros, pelos acasos e pelas profecias que podem estar perdidas em um filme.

Nesse sentido, apesar de construir suas duas nações fictícias em guerra de um jeito em que elas podem simbolizar muito mais que o conflito Israel e Palestina (os paralelos com Rússia e Ucrânia também podem ser feitos - são nações genéricas justamente para que projetemos nelas os conflitos do hoje, coisa que a Nova Hollywood fez tão bem), existem duas imagens que o filme capta que me parecem muito sintonizadas com o tempo em que vivemos. E o melhor disso tudo é que elas independem da intenção de quem realizou ou produziu. Porque são maiores que o próprio filme e ainda mais contundentes que o discurso do roteiro. A primeira mostra um povo fugindo, acuado e defendendo-se com armas arcaicas e ferramentas de trabalho, enquanto tem um exército financiado pelos EUA e munido de fuzis e tanques perseguindo e massacrando. Minha mente foi diretamente para A Greve, de Eisenstein, filme produzido há 100 anos sob um outro contexto, com outras questões, mas que já inseria no cinema, na câmera de cinema, essa capacidade de representar o encurralamento de um povo a partir da encenação de um extermínio. Perceba, não estou dizendo que é referência ou citação direta - isto não é mais um post de “paralelos cinematográficos”.

New on Video, 'Strike' and the Works of Dirk Bogarde - The New York Times
Strike | film by Eisenstein | Britannica

Estou falando da capacidade brechtiana do cinema de criar essas imagens que nos assombram. De colocar você em uma sala IMAX, diante de uma tela gigantesca, com o som nas alturas, e lhe entregar uma representação de genocídio que lhe faz pensar no que é extra fílmico. A outra imagem é a desses soldados, financiados por um bilionário que se mete com política e pelo governo dos EUA, apontando fuzis para uma criança no meio de uma multidão massacrada. Esse tipo de imagem, fica. Desse tipo de imagem dificilmente se escapa.

E esse, ao meu ver, é um dos grandes méritos de Gunn, a maneira como põe os pés no chão, como apesar de todo o tom cartunesco de aventura sci-fi da Era de Prata, ainda assim consegue não alienar-nos diante da realidade. O filme vai lidar diretamente com discurso de ódio em rede social, com fake news (em determinado momento uma gravação é amplamente viralizada pelo mundo e não apenas personagens como o próprio espectador é levado a duvidar de sua credibilidade), com a intervenção militar que o governo estadunidense faz em países de terceiro mundo. Tudo isso quando aqui, em nossa realidade, Trump decide taxar o Brasil como punição pelo julgamento de Bolsonaro. Ou quando há poucas semanas circulou pela internet essa imagem de um palestino jogando uma precária bomba caseira dentro de um tanque de guerra israelense. Não existe ideia, diálogo, ação ou situação de um roteiro que consiga ter a força de um filme sintonizado com o sinal do hoje. Não existe arco de empoderamento, casting representativo ou quote pra ser compartilhado na internet que se compare ao poder que o cinema tem, que um artista tem, de captar o espírito de seu tempo.

E o mais legal é que faz tudo isso enquanto cumpre seu principal desafio, que é o de lidar com a contradição de trabalhar mundialmente um personagem que sempre foi sinônimo do ideal americano. A principal tarefa do filme talvez fosse essa, descolar o super-herói do contexto de um país imperialista. Ou do contexto do que é a própria existência do super-herói, essa fantasia supremacista de que a luta só se vence através da força de um salvador. Vai contra isso a partir de uma narrativa onde abraça-se a utopia de que a bondade pode salvar-nos do capitalismo, sim, mas bem ou mal Gunn aqui tenta nadar contra a maré através de um personagem que não apenas intervém contra o próprio governo, mas a partir de um Superman que apanha, erra e que em seu grande discurso ao fim, na hora de confrontar seu principal oponente, gagueja tropeçando nas próprias palavras. Pequena aula de como se faz um blockbuster de super-herói que ainda pretende parecer um filme.

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