Falar sobre “Iracema – Uma Transa Amazônica” é falar sobre o Brasil. Falar sobre o Brasil daquela época, mas também sobre o Brasil de hoje. A construção da rodovia Transamazônica, elemento central do filme, abre caminho para a ação humana sobre territórios antes considerados intocáveis -- pela natureza, pelas populações locais, por um certo senso de respeito ambiental e cultural. Essa estrada representa mais do que um avanço de infraestrutura: é um símbolo de como o progresso pode ser violento quando dirigido por interesses econômicos e desprovido de um olhar humanizado.
A Transamazônica torna acessíveis regiões da floresta antes protegidas por sua inacessibilidade, permitindo a entrada de madeireiros, garimpeiros e grandes fazendeiros. Isso transforma não apenas o ambiente, mas também a vida das pessoas que habitam essas regiões. O filme traduz isso de forma crua, ao mostrar como a construção da estrada também pavimenta o caminho das perversidades. O asfalto que deveria conectar e desenvolver, muitas vezes só expande as desigualdades.

É nesse cenário que conhecemos Iracema, uma jovem que tenta sobreviver vendendo seu corpo à beira da estrada. A presença da Transamazônica em sua vida não traz desenvolvimento, mas sim uma forma precária e dolorosa de tentar existir. Sua história é atravessada pelo apagamento histórico e estrutural do Norte do Brasil, uma região que, desde o período retratado no filme até os dias atuais, segue sem a devida atenção dos governos e da mídia. Assim como no filme “Filhos do Mangue”, que também retrata a invisibilidade -- Leia aqui meu texto sobre o longa, “Iracema” escancara a negligência com a qual esses lugares são tratados.
Iracema olha para São Paulo como uma espécie de terra prometida, um lugar de possibilidades, onde tudo pode dar certo -- ou ao menos é o que lhe dizem. Esse sonho de ascensão a partir do deslocamento geográfico, no entanto, logo se mostra frágil. É curioso como essa esperança de encontrar um futuro melhor em São Paulo dialoga com o que vemos em “São Paulo S.A.”, de Luís Sérgio Person. No filme de Person, o protagonista tenta escapar da lógica sufocante da metrópole, mas acaba sendo tragado novamente por ela. Em Iracema, vemos o mesmo ciclo: mesmo que a jovem queira escapar de sua realidade, o sistema sempre a puxa de volta para o mesmo lugar -- para a mesma margem.
Essa ideia fica evidente em uma das cenas mais dolorosas do filme, quando ela implora para que o caminhoneiro a leve com ele, e ele, de maneira fria, a abandona. O abandono ali é mais do que físico. É simbólico: ela representa o Brasil que é deixado para trás, ignorado, descartado. A Transamazônica, que deveria ser um símbolo de conexão, se torna o palco da solidão, da exploração e da exclusão.

A escolha estética de Jorge Bodanzky e Orlando Senna reforça ainda mais esse impacto. Ao mesclar ficção com o realismo do documentário, os diretores criam uma obra híbrida que confunde os limites entre atuação e vida. Tião Brasil Grande, o caminhoneiro, é um personagem que encarna o olhar do forasteiro, aquele que chega pela estrada para trabalhar e que, em seu caminho, encontra moradores, trabalhadores, histórias reais. Essa mistura é potente porque nos tira do conforto do “filme” e nos coloca diante de algo que pulsa verdade. As entrevistas parecem improvisadas, e os depoimentos autênticos fugindo de um roteiro pré anunciado. Tudo contribui para dar ao filme um caráter quase etnográfico, sem perder o poder dramático.
Essa forma de narrar aproxima o espectador dos personagens, mas também da paisagem, da poeira das estradas, das árvores cortadas, das construções precárias e do cansaço que marca cada rosto. A câmera observa, acompanha e registra, sem filtros, sem grandes construções artificiais. É quase como se estivéssemos assistindo a um país em ruínas tentando manter alguma dignidade em meio à devastação.
“Iracema” é um retrato do Brasil esquecido. Não por falta de importância, mas por falta de interesse em vê-lo. Um Brasil que ainda hoje carrega as marcas da exploração, do descaso e da falsa promessa de progresso.



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