Embora o cinema brasileiro como um todo esteja vivendo uma espécie de novo auge perante a opinião pública (logo, o senso comum), tenho a impressão de que o grande público ainda não conseguiu acessar plenamente o verdadeiro ouro da coisa toda, que são os curtas-metragens. Os curtas brasileiros têm sido, constantemente, espaço de invenção e reinvenção, onde as paredes do cinema são alargadas via empurrão. Quer acompanhar o que há de melhor em termos de risco? Veja curtas-metragens brasileiros. Para quem, como eu, tá sempre ávido por um cinema formalmente arrojado, que tensione o que pode ser feito com uma câmera, talvez encontre contento não com os longas - que, cá pra nós, me parecem majoritariamente cada vez mais adeptos de uma certa forma do como se filmar que raramente me atiça criativamente - mas com a produção em curta-metragem.
O motivo para isso é simples: no longa, por mais que se tenha financiamento público, na maioria das vezes, ainda existe uma espécie de negociação com o público que não raras vezes é antagônica ao risco. Em um longa-metragem pode-se errar pouco. Você quer fazer outros filmes, quer que as pessoas gostem deles, quer atrair investimentos, seleções e prêmios. No curta, não. O curta constantemente permite esse luxo do errar, uma vez que raramente tem retorno financeiro. Onde não há risco de dinheiro, há liberdade do risco.
Dentro dessa seara, um dos exemplares que mais me chamaram atenção nos últimos anos foi Guará, curta-metragem de 2019 escrito, dirigido e montado por Fabrício Cordeiro e Luciano Evangelista. Trata-se de um exemplar possivelmente um tanto esquecido de nosso cinema de gênero recente, um filme que aposta todas as fichas na farsa que são os 24 quadros por segundo. Filme de lobisomem por excelência, aproveita-se do cenário urbano goiano para construir uma fábula esquisitíssima com jeitão de lenda urbana da era YouTube, regada a sangue e uma certa sensibilidade pro "trash" (aspas porque detesto essa palavra). É o tipo de filme que Larry Cohen provavelmente dirigiria caso tivesse tido a sorte de nascer brasileiro.
Quando falo sensibilidade, tento abarcar uma série de minúcias por trás de decisões de câmera e corte que me levam a acreditar que este é um filme feito por pessoas apaixonadíssimas pelo cinema B. Existe um aspecto de arrebatamento em certas imagens, como a da revelação do monstro na penumbra ou a crescente de sua sombra na parede - ou até mesmo em certos códigos, como os movimentos de câmera abruptos e imprecisos, os cortes bruscos, as fusões entre planos que sempre apontam para um certo embaralhamento do tempo do cinema.
Essa anacronia se dá especificamente porque por mais que use recursos "clássicos", de um cinema artesanal feito em película, me soa um filme orgulhosamente do hoje, ostensivamente digital. Chega a ser estranho o quanto a imagem é nítida, o quanto soa moderno e banal em suas composições. Apesar de ter muitos planos externos e noturnos, é um filme onde tudo se enxerga, com a limpeza de imagem que só lentes modernas trazem.
Somado a isso vêm as próprias possibilidades de intervenção na imagem que o virtual entrega, é um filme que tem takes cropados e redimensionados, zooms feitos digitalmente, um uso de keyframes que torna a câmera um tanto rígida demais, robótica demais, o que gera um efeito interessantíssimo quando paramos pra pensar que isso se dá no mesmo filme que aposta tanto nessas estilizações de um cinema B de décadas atrás. É um filme romanticamente amador, de certa maneira, pois apaixonadamente brega - o diferencial é que o faz sem o menor cinismo. As coisas soam falsas mas sempre filmadas de maneira séria, comprometida com o tipo de prazer estético que só o cinema mais vagabundo consegue proporcionar.
O maior símbolo disso é o próprio lobisomem, que apesar de ser beneficiado pelo jogo de quando mostrar e o quanto mostrar o monstro (lição que o cinema hollywoodiano parece ter feito escola a partir do Alien de Ridley Scott mas que já mostrava as caras desde Tourneur), toda vez que surge não te deixa dúvidas: é uma pessoa vestindo uma fantasia. Não na diegese - no filme é realmente um monstro -, mas trata-se de um curta-metragem construído em cima de uma não sutileza que me é muito instigante, até mesmo em seus eventuais problemas de refinamento de imagem e som. Costumo admirar os filmes irregulares que apresentam algum gesto próprio. Nesse caso aqui, o gesto é o da própria fé na mentira que tá contando. Um filme que tanto mente que nem sente.
A concretude desse gesto se dá durante a matança no clímax do filme, onde dobra (triplica, quadruplica) a aposta dessa dicotomia do encenar seriamente o que é visivelmente falso, tosco, ridículo. O que acontece ao fim do filme é uma total quebra do pacto do cinema enquanto ilusão: o filme deixa mais explícito do que nunca que trata-se de um filme. Não resta ao espectador aceitar que a estratégia antinaturalista exigirá de si um posicionamento mais ativo: o filme é o que você quer que ele seja. Não é ele quem te engana, é você que topa ser enganado. O que torna tudo ainda mais especial é justamente a ausência de cortes, o tal do plano sequência, que a princípio seria utilizado para criar a ilusão do tempo da vida - logo, da realidade. Novamente acompanhamos a rota de colisão entre o nítido e o turvo, o real e o imaginário, o verdadeiro e o farsesco. Tudo encenado da maneira mais frontal, o dispositivo exposto, os artifícios assumidos (o sangue que espirra fora de quadro, a cabeça que é arrancada longe da câmera). É um grande final de cinema, num grande filme de cinema. Tudo isso em um curta-metragem de 20 minutos que você pode assistir agora mesmo no YouTube. Esse texto é uma tentativa de espalhar a palavra, de aumentar a lenda.



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