"Quarteto Fantástico: Primeiros Passos": como é bom ver a Marvel ser a Marvel 

Fui assistir a Quarteto Fantástico: Primeiros Passos com o mesmo espírito com que a gente entra numa padaria nova no fim da tarde: sem fome, sem expectativa, mas com uma curiosidade que não admite nem pra si mesmo. Eu, que venho acompanhando a fase mais recente da Marvel com um misto de tédio e resignação, entrei na sala de cinema meio que só pra ver no que ia dar. E saí, honestamente, com uma sensação que há muito tempo não sentia saindo de um filme de herói: entusiasmo. Não aquele entusiasmo barulhento e histérico dos grandes crossovers, mas um mais sereno, quase agradecido, tipo reencontrar um velho amigo que você achava que tinha perdido de vez.

A Marvel já foi mais certeira. Já entregou experiências que eram tanto épicas quanto íntimas. Mas, nos últimos tempos, a coisa andava meio sem alma. Filmes mal formulados, humor fora de hora, personagens sem peso emocional real. E aí vem Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, que, contra todas as probabilidades, entrega um equilíbrio raro entre aventura, emoção e identidade visual, resgatando aquela sensação de universo expandido sem parecer uma colcha de retalhos. A começar pela estética — e aqui eu preciso respirar fundo pra elogiar.

O diretor Matt Shakman aposta numa ambientação que lembra muito o Guardiões da Galáxia original. Não por ser cósmico apenas, mas pelo modo como consegue nos apresentar personagens aparentemente desconexos da trama doida de milhares filmes da Marvel, e ainda assim construir uma narrativa que faz com que essas jornadas possam se entrelaçar naturalmente no futuro. É aquela velha fórmula da familia perfeita, margarina, mas sem parecer reciclada. Existe uma unidade estética e dramática que dá liga ao conjunto. E isso, por si só, já é uma pequena vitória no caos criativo em que a Marvel vem patinando.

Uma das maiores surpresas do filme, pra mim, foi o ritmo. Nada de correria sem sentido, nem aquelas pausas dramáticas para piadinhas que cortam a tensão no meio. O roteiro parece finalmente ter entendido que cada personagem precisa de um tom, e que o humor só funciona quando vem da essência de quem o está dizendo. Johnny Storm, o Tocha Humana, é o alívio cômico — e só ele. Isso já resolve metade do problema. Reed Richards é sério, cerebral, e não tenta ser engraçado porque… bem, ele não precisa. O texto respeita a inteligência emocional do público, sem subestimar a necessidade de silêncios, pausas e nuances. E isso já o coloca muitos degraus acima dos últimos filmes que vi da Marvel.

Julia Garner como a Surfista Prateada foi um acerto quase poético. Sua presença em cena carrega uma dor contida, uma urgência que não é histriônica, mas quase filosófica. A personagem tem uma origem que faz sentido dentro daquele universo e, melhor ainda, faz sentido emocional. Julia entrega uma atuação com camadas que raramente se vê em personagens do “núcleo cósmico” da Marvel. Ela me lembrou — em outro registro — o peso que Gamora trouxe no primeiro Guardiões, mas com mais densidade e menos ironia. Sua relação com Galactus é inquietante, e a ameaça desse vilão finalmente parece real. Ele não é só um colosso animado por CGI que vai cair depois de um discurso inspirador. Galactus tem presença. Ele ameaça como uma entidade que não se curva ao roteiro. E isso é raro.

Falando em presença, Vanessa Kirby como Sue Storm merece mais do que aplausos — merece tempo de tela, arcos próprios, e talvez uma indicação qualquer (sim, eu disse o que disse). Sue é o centro emocional do filme, e Vanessa entende isso sem transformar a personagem numa “mãe do grupo” caricata. Ela é força, mas também é dúvida. É poder, mas também é afeto. Em tempos em que personagens femininas ainda são escritas entre o clichê da mulher durona e a mulher sensível, Sue surge como um equilíbrio maduro: ela lidera, ela sofre, ela raciocina. Ela é completa. E é por isso que a gente se importa com ela.


E quanto ao Coisa — sempre um risco, né? Visualmente complicado, dramaticamente fácil de transformar em estereótipo. Mas aqui, felizmente, ele é tratado com respeito. Nada de voz forçada ou “grunhidos com coração”. O personagem é humano, mesmo debaixo da rocha. Seus conflitos são discretos, suas emoções são expressas mais nos gestos e nas pausas do que nos discursos. E isso faz dele, paradoxalmente, o mais tocante do grupo.

Claro que nem tudo são flores. O CGI continua sendo aquele ponto frágil que persegue a Marvel como um fantasma do passado. Tem momentos em que os efeitos destoam, em que as texturas parecem plastificadas, e a imersão sofre um abalo. Mas (e aqui entra um ponto importante) pela primeira vez em muito tempo, isso não comprometeu minha experiência. Porque o filme não depende só de efeitos pra funcionar. A direção de arte compensa. A fotografia tem um cuidado que valoriza cada cena. E a trilha sonora... ah, a trilha sonora! É envolvente, pontual, e costura as emoções do filme sem ser invasiva. É daquelas que você percebe depois de sentir — e isso, pra mim, é o melhor tipo de música em um filme.

Agora, vamos falar sobre Pedro Pascal, porque é inevitável. Ele não é só “mais um nome forte no elenco”. Ele é a prova viva de que carisma, quando bem direcionado, carrega cenas inteiras com a mesma leveza com que a gente muda de assunto numa conversa boa. Pascal tem aquele dom de parecer confortável em qualquer universo. E aqui, ele entrega uma performance que não é exagerada, mas tem presença. Ele preenche o espaço. Ele olha e você acredita. E isso, convenhamos, é um talento que poucos têm.

A maior vitória de Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, no entanto, não está apenas nas atuações, no roteiro ou na estética. Está no resgate da sensação de pertencimento. A Marvel, por muitos anos, foi sinônimo de coesão narrativa. A gente via um filme e sentia que fazia parte de algo maior. Essa sensação se perdeu um pouco nos últimos tempos, com histórias desconectadas, personagens soltos no espaço e no tempo, e um excesso de conteúdo que diluiu o impacto. Este filme, no entanto, parece entender que construir um universo é antes de tudo construir relações. Entre personagens. Entre tramas. E, principalmente, entre o filme e o público.

Quarteto Fantástico: Primeiros Passos parece saber que quem está ali na plateia já viu muita coisa. Que o público não precisa mais ser convencido com pirotecnia, mas sim reconquistado com substância. Que a emoção não vem do tamanho do vilão, mas da vulnerabilidade dos heróis. Que a beleza de uma história está mais no detalhe de um olhar do que na destruição de uma cidade.

No fim, saí do cinema com a estranha e boa sensação de que talvez a Marvel esteja reencontrando seu caminho. Não com gritos, nem com fan service descontrolado, mas com consistência. Com escolhas narrativas mais maduras. Com personagens que não são apenas engrenagens para um evento futuro. E isso, numa era de saturação de franquias, é mais do que um acerto — é um respiro.

Recomendo o filme, claro. Mas mais do que isso: recomendo ir sem esperar o mundo, porque talvez seja justamente isso que torne a experiência mais rica. Ir como quem vai encontrar um velho amigo que andava sumido. E descobrir que ele ainda tem muito a dizer.

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