O nosso maior artista popular 

por Leandro Afonso

Uma experiência e alguns números

Buenos Aires. O lançamento do livro acontece no bar que fica próximo à esquina da avenida Entre Ríos com a rua Venezuela. Os autores apresentam a publicação, se disponibilizam para assinar as dedicatórias e depois dão as boas-vindas à parte mais lúdica do evento: o momento musical. O público é diverso, inclui jovens universitários e o decano da Faculdade de Filosofia e Letras. Clássicos de diferentes décadas são interpretados, mas uma canção se destaca por reunir um coro que combina entusiasmo adolescente e nostalgia romântica. Garçons e garçonetes, escritores e leitores, netos e avós, calouros, veteranos e professores, entoam a plenos pulmões “Ella ya me olvidó”, canção eternizada na voz de Fuad Jorge Jury Olivera, mais conhecido como Leonardo Favio.

A cena descrita poderia facilmente narrar um acontecimento de 1969. Ela seria ainda mais precisa se acontecesse a exatas dez quadras daquele bar, na esquina das ruas Sarmiento e Ayacucho, onde o cineasta Mario Soffici costumava se reunir com Leonardo Favio, protagonista do filme Fuiste mía un verano (Eduardo Calgano, 1969), lançado meses depois do disco homônimo. A passagem retratada, contudo, diz respeito a uma experiência pessoal no lançamento dos dois volumes de Reconozco la canción, organizados por Pablo Piedras, Sophie Dufays e Lucía Rodríguez Riva, que inclusive vestia uma camisa com o rosto de Favio. Em 2024. 55 anos depois do filme.

A essa altura, é natural que surjam algumas perguntas. O nosso maior artista popular é argentino? Adianto que o nosso aí diz respeito ao espaço geopolítico onde nos encontramos: a América Latina (se preferir, Améfrica Ladina).[1] Ok, mas se ele é tão bambambam, por que eu, ou muita gente ao meu redor, não faz ideia de quem ele é? Esse tal de Favio é mais popular que Roberto Carlos? Maior que Glauber Rocha? Ele se senta na mesma mesa de Grande Otelo? Adianto que – embora vá divagar sobre essas provocações – o principal ponto não é discutir os muitos possíveis significados de popular, nem estimular a competição de o meu é maior que o seu. O texto busca jogar luzes também brasileiras para um artista que conjuga tantas camadas do popular e, no entanto, fora de um círculo muito específico da cinefilia, segue pouco conhecido nas bandas de cá.

Para não dizer que não falei de números, trago a mais recente enquete robusta dos 100 maiores filmes argentinos de todos os tempos, feita em 2022. Aí votaram “críticxs, periodistas, investigadorxs, historiadorxs, programadorxs, coleccionistas, directorxs, guionistas, productorxs, actores, actrices, directorxs de fotografía, montajistas y sonidistas, entre otros rubros vinculados a la realización cinematográfica. En todos los casos, se intentó abordar la convocatoria con un criterio federal y diverso” (Encuesta, 2022). Ela traz quatro filmes nos quais Favio é o ator principal: Dar la Cara (José A. Martínez Suárez, 1962), A Mão na Armadilha (Leopoldo Torre Nilsson, 1961), Fin de Fiesta (Leopoldo Torre Nilsson, 1960) e El Secuestrador (Leopoldo Torre Nilsson, 1958). O mais impressionante, porém, é a faceta diretor de Favio.

Os 100 mais incluem nomes do quilate de Leopoldo Torre Nilsson e Maria Luísa Bemberg, com cinco longas cada, Fernando ‘Pino’ Solanas, Adolfo Aristain e Lucrecia Martel, com quatro filmes. Favio dirigiu nove longas em sua carreira e oito deles estão na lista: Crônica de uma criança solitária (1965), O Romance de Aniceto e Francisca (1966),[2] O Dependente (1969), Juan Moreira (1973), Nazareno Cruz y el Lobo (1975), Soñar, Soñar (1976), Gatica, el Mono (1993) e Aniceto (2008). Seis desses figuram nas 20 primeiras posições. A História Oficial (Luis Puenzo, 1985) e O Segredo dos seus olhos (José Luis Campanella, 2009), vencedores do Oscar, aparecem apenas depois de sete filmes de Favio. A única obra que conseguiu se manter no top-10 na enquete anterior da mesma natureza, realizada em 2000, foi Crônica de uma criança solitária (1965), também de Favio.

Crônica de uma criança solitária (1965) é a estreia de Favio como diretor

Embora popular dentro de um círculo reconhecido mundialmente, o cinema argentino, Leonardo Favio é – como bem diz a já mencionada Lucía Rodríguez Riva (2017) – reconhecido fundamentalmente como cantor na América Latina. Esse fato se torna ainda mais curioso quando se descobre que nem o diretor cinematográfico nem o artista da canção estavam no radar de desejos do adolescente Fuad.

Um jovem sem destino

“Quando nós éramos crianças, víamos os westerns que eram exibidos em séries. Um capítulo começava no domingo e continuava no domingo seguinte. Sempre pensei que esse era o idioma dos filmes. Eu não sabia que existia o idioma inglês. Pensei que era um som inventado para dar mais emoção aos filmes”.[3] Fuad via filmes com a inocência típica das crianças. Não dá para dizer, entretanto, que foi um cinéfilo, nem sempre essa rotina lhe era possível. Ele nasceu em 1938, em Las Catitas, cidade que hoje sequer tem 6 mil habitantes e faz parte da província de Mendoza, no Oeste argentino, a aproximadamente mil quilômetros de Buenos Aires.

Em 1948, Fuad foi cativado pela religião, recebeu uma bolsa para ir ao seminário, mas durou pouco meses, pelo incomum hábito – para a sua idade – de fazer xixi na cama. Quando chegou em casa, expulso, ele escutou do tio Manolo. “Bravo, Chiquito, que a Igreja vá à merda: por uma par de mijadas perderam um papa”. A incontinência urinária do menino, digamos assim, durou até os 15 ou 16 anos.

Nessa época Favio conheceu A Estrada da Vida (Federico Fellini, 1954), um marco na sua formação cinematográfica, que foi consolidada posteriormente por um nome nacional. Florencia Halfon – na biografia sobre o artista onde estão distribuídas as informações desse subtópico – diz que apenas quando o amigo Yaco Lorca o convidou para ver La casa del ángel (Leopoldo Torre Nilsson, 1957) e lhe disse quem dirigia, o então ator de radionovelas reparou que os filmes tinham um diretor. O jovem de Las Catitas tinha 19 anos.

Outra inocência, todavia, Fuad perdeu rapidamente. Halfon traz uma declaração de Leonardo Favio, em 21 de janeiro de 1969, ano do lançamento do filme Fuiste mía un verano, onde toca “Ella ya me olvidó”. “Fui um ratinho que fugia de povoado em povoado, de cidade em cidade, de província em província. Conheci a fome sem romantismos literários e, quando necessário, roubei para comer”. Já adulto, ele não teve problemas em admitir que furtou mais de uma vez, e que era comum ser preso por suspeitas de pequeno delitos que, eventualmente, de fato ele poderia ter cometido.

A última solução aparente para Fuad – facilmente resumido a um delinquente juvenil – foi fazer parte de uma das Forças Armadas. Ele entrou na Marinha, segundo as próprias palavras, porque era o que faziam os meninos que, como ele, não tinham destino. O problema é que a entidade exigia que seus integrantes tivessem pelo menos o tercero grado completo, e Favio tinha apenas o segundo, equivalente ao segundo ano no Brasil. Segundo ano fundamental, diga-se. Ele contou com a ajuda de um vizinho, frequentou a Escola de Suboficiais de Zárate e lá permaneceu por sete meses, antes de ser expulso como incapaz. A solução para os meninos que não tinham destino fracassou.

O filho de um imigrante sírio conhecido como El Turco já não era a criança do interior da província de Mendoza. Tinha 17 para 18 anos, nenhum trabalho fixo, e ostentava um currículo marcado por detenção e criminalidade juvenis. Até que vem uma oportunidade.

Se o trabalho não desse certo, “o único que me restaria era delinquir, porque eu não sabia fazer outra coisa", ele afirmou ao Clarín. Essa chance única permite que Favio se torne, anos mais tarde, um fenômeno sem precedentes: um nome que viveu uma infância pobre não só atinge o reconhecimento da crítica e do público de cinema, como se torna um cantor extremamente popular. Essas conquistas, no entanto, não o deixam imune às convulsões latino-americanas dos anos 1960 e 1970. A admiração e o fascínio que ele desperta coexistem com a perseguição política e diversos problemas de saúde.

Favio, como ator, também está em Crônica de uma criança solitária (1965)

[Essa história continua aqui].


[1] Améfrica Ladina é uma expressão popularizada por M.D. Magno e Lélia González a partir dos anos 1980. Ela busca transformar a lógica do nome que parte do colonizador (América de Américo e Latina do Latim) para um nome que abarque outras especificidades que se manifestam na vida cotidiana, notadamente uma africanidade e uma astúcia que não aparecem no nome do colonizador.

[2] O título original de El romance del Aniceto y la Francisca é – respire... – Este es el romance del Aniceto y la Francisca, de cómo quedó trunco, comenzó la tristeza y unas pocas cosas más… (1966). Conhece algum título mais longo?

[3] SCHETTINI, Adriana. Pasen y vean. Sudamericana. 1995.

Referências

- CLARÍN. 7 fev. 1988.
- ENCUESTA de Cine Argentino. https://encuestadecineargentino.com/top-100/. 2022.

- HALFON, Florencia. Favio vigente: un recorrido por sus pasiones. Futurock Ediciones. 2023.
- RODRÍGUEZ RIVA, Lucía. Leonardo Favio, entre lo testimonial y el espectáculo: sus películas como cantor. In: Rebeca, Vol 2, 6, 12, jul-dez, 2017.

Para dialogar

- AMANCIO, Tunico. 2008. Leonardo Favio: Faces E Interfaces De Um Certo Cinema Latino. In: Significação: Revista De Cultura Audiovisual 35 (30): pp. 89-100.

- PIEDRAS, Pablo; DUFAYS, Sophie (orgs.). Reconozco la canción: tramas musicales en los cines posclásicos de América Latina y Europa. Buenos Aires: Ediciones Imago Mundi, 2024.

- PIEDRAS, Pablo; RODRÍGUEZ RIVA, Lucía (orgs). Reconozco la canción: Exploraciones de la canción en los cines ed Argentina y América Latina.

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