Os Enforcados (2025) é uma descida ao inferno 

Talvez não estejamos falando sobre Os Enforcados tanto quanto deveríamos. Saí do cinema convencido de que havia acabado de assistir um dos melhores filmes de crime da história do cinema brasileiro. E caso o leitor não saiba, isso é um baita elogio - temos uma longa e rica história no cinema policial. O auge talvez tenha se dado nos anos 1970. Muito embora os anos 1980 não estejam atrás. Pensando melhor, talvez nem os 1990, já que o furacão Beto Brant por aqui passou. Okay, talvez tenhamos um gênero carregado de grandes momentos.

Um fato é que Brasil e crime têm tudo a ver, entenda como quiser. Outro fato é que geralmente os bons filmes policiais nacionais entendem que o crime não é unicamente retrato de uma condição social, mas uma questão de humanidade. Fernando Coimbra entende isso como poucos cineastas brasileiros, e aqui constrói um mondo cane que parte duma lógica shakespeariana e aos poucos ganha surpreendentes ares de conto de terror - mais especificamente as narrativas “crime e enlouquecimento” de Edgar Allan Poe.

Se começa como um filme de bicheiro com jeitão de mafioso e logo dá início ao conflito macbethiano, o que Os Enforcados passa a enfocar conforme suas personagens descem de tobogã rumo ao inferno é que o filme é permeado por uma sensação que Poe chamaria de “demônio da perversidade”. Trata-se de uma história de consciências pesadas e ganâncias calculadas, alianças revistas e reviravoltas convenientes aos desejos de suas personagens. Aqui, “O Gato Preto” do conto de Poe é uma lulu-da-pomerânia branca, felpuda e minúscula de nome Lady. Cachorrinha de madame, madame essa interpretada por Leandra Leal, que aqui faz as vezes da mulher de bicheiro - bicheiro esse vivido com ímpeto heterossexual que Irandhir Santos domina tão bem.

Desde a primeira cena o filme estabelece que estamos também no terreno das aparências, dos jogos de farsa, e por isso trata-se também de um conto sobre desconfiança. Após se verem diante de uma eminente falência, o casal decide cometer um assassinato estratégico porém executado de maneira meio mambembe, no improviso - mas que inicialmente até parece dar certo. Obviamente não dá, e o crime torna-se caixa de pandora de situações cada vez mais perigosas, mergulhando-os em um espiral de violência e espremendo-os (como indivíduos e casal) num funil do qual dificilmente alguém sairá ileso. Cai muitíssimo bem o humor que Coimbra introjeta aqui (melhor aplicado, aliás, que n’O Lobo Atrás da Porta, seu outro belo filme porém um tanto mais sisudo). Aqui estamos no universo das escolas de samba, do feitiço do rio, do jeitinho brasileiro - tudo isso encenado sem uma cuíca na trilha sonora a cada momento que alguém é malandro, graças a Deus.


Coimbra já havia provado isso em seu primeiro longa, mas vale destacar aqui o quanto Os Enforcados grita que trata-se de um dos melhores encenadores do cinema brasileiro contemporâneo. É um desbunde ver como a câmera se movimenta, sempre sedutora, sexy mas igualmente apreensiva. São travellings muito elegantes, elenco se movimentando pelo quadro numa blocagem que entende o potencial para a tragédia que seu teatro de fantoches evoca.

Enquanto assistia, pensei em um filme que muito amo, Antes Que O Diabo Saiba Que Você Está Morto, Lumet tardio que considero um dos melhores filmes de nosso século até então. A maneira como ambos os cineastas narram suas comédias de erros de personagens enfiados na merda até o pescoço tem algo de perverso, de sombrio, especialmente pela maneira como os filmes vão se tornando progressivamente mais escuros, mais sujos. Em Os Enforcados os personagens parecem presos às sombras da própria casa, conforme mergulham em paranoias.

Aliás, quando falo em perversidade, destaco aqui como um grande elogio. Este aqui é um filme diabólico, que não poupa personagem e muito menos público da brutalidade, enquanto exibe um certo sadismo para o choque da violência que sempre soa eficiente, muito bem construído. Tem uma cena específica, envolvendo um banquete, que termina de uma maneira inacreditável pra mim. Daquelas imagens que você não vê todo dia em filmes brasileiros.

É difícil pensar em cineastas fazendo filmes no Brasil hoje que teriam tanto compromisso com a canalhice dos próprios personagens sem nunca julgá-los ou refreá-los. Pelo contrário, até, geralmente o que se vê é uma bunda-molice de não ir até às últimas consequências mesmo quando trata-se de narrativas de violência. Existe, muitas vezes, uma recusa ao mostrar, uma câmera que vira-nos o rosto, um corte que oculta o impacto, um plano e contraplano que dilui a violência e extrai um pouco de sua força para que os protagonistas não se sujem tanto diante dos olhos do público.

Aqui, não. Talvez desde Beto Brant não víssemos filmes policiais nacionais tão dispostos a sujar as mãos junto com seus protagonistas - e fica muito evidente pra mim que este aqui é um filme que não teme a sujeira e suas consequências. É bem escrito, bem dirigido, bem atuado e quanto mais penso nele mais sinto que tudo está no lugar. Tipo de obra que me inspira a dobrar a aposta nos filmes que eu próprio realizo.

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