Vida de Inseto me fez amar o cinema 

A primeira vez que entrei numa sala de cinema foi em 1999, numa sessão de Vida de Inseto - clássico da Disney/Pixar dirigido por John Lasseter e Andrew Stanton, respectivamente diretores de Toy Story e Procurando Nemo. Como tinha apenas 3 anos de idade, confesso que pouco lembro do filme em si - quando me esforço a relembrar esse dia, vêm alguns flashes de Chucrute, a lagarta que sonha em ser borboleta, ganhando micro asas ao fim do filme e também imagens de O Jogo de Geri, curta-metragem animado que antecedia o longa nas sessões daquela época.

Apesar de boa parte dessas lembranças que ainda me restam envolver um idoso perdendo (ou ganhando, caso você seja copo meio cheio) para si mesmo, um fato é que Vida de Inseto abriu para mim as portas do cinema e também do interesse por insetos e bichinhos em geral. Quem me conhece sabe (leia isso me imaginando usando uma camiseta branca) o quanto o cinema e os bichinhos ocupam grande parte de minha vida (são basicamente os dois temas que alimentam os algoritmos de minhas redes sociais), e acho que tudo começou ali, naquela sala de algum cinema de shopping em 1999.

Fato é que o cinema passou a exercer certo fascínio em mim. Não apenas os filmes em si, mas também a ideia de uma sala escura onde uma luz colorida saía da parede e projetava imagens numa tela. Lembro até do barulhinho que os projetores costumavam fazer (estamos falando de uma época em que tudo era exibido em película 35mm). Ir ao cinema passou a ser o meu passeio favorito, e por conta das condições financeiras da família o mais aguardado, já que só conseguíamos fazer isso mais ou menos uma vez por ano.

Aí veio o VHS, que não lembro quando meu pai comprou. Na minha memória, ele sempre esteve lá em casa, acompanhado de uma TV de tubo 14 polegadas da Cineral - marca essa que duvido que ainda exista. Um dos primeiros VHS que ganhei, claro, foi Vida de Inseto. Assistir aquela fita era estender a experiência do cinema. Via uma, duas, três vezes na mesma semana, às vezes no mesmo dia. Eu amava os personagens, a história, as músicas. Vida de Inseto virou uma paixão, e tão logo meus pais perceberam, trataram de me dar roupinhas, brinquedos e jogos de tabuleiro do filme.

Tem algo que me lembro com especial carinho e que me acompanha até hoje: assisti tantas vezes que memorizei todos os diálogos. É incrível, há alguns meses resolvi rever o filme e o coloquei dublado no streaming. Não deu outra, eu ia reproduzindo os diálogos por puro impulso, sem sequer refletir muito bem no que dizia. Era como uma memória muscular, de tanto assistir aquela animação aqueles sons passaram a fazer parte de mim. Nunca precisei tentar memorizar nada, apenas ficou gravado, como uma catequese.

Outra coisa engraçada é que percebi que grande parte dos diálogos que memorizei eu sequer compreendia o que estava sendo dito. É uma memória fonética, eu entendia os sons que eram feitos e memorizada, sem sequer conhecer várias das palavras. Talvez tenha sido o que mais me maravilhou nessa revisita depois de tantos anos, o quanto eu agora entendia várias coisas que as personagens falavam. Rever Vida de Inseto foi descobrir um filme muito engraçado e inteligente, repleto de diálogos espertos e bem humorados. Claro, com a bagagem de cinema você também passa a reconhecer o tropos a que a animação se afilia: aquilo ali é Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa, que por sua vez espalhou-se para as narrativas de faroeste em geral. É divertido pensar que Rebel Moon, aquela ópera especial que Zack Snyder dirigiu para a Netflix em que uma guerreira que vive escondida em um pequeno planeta de camponeses sai em busca de guerreiros galáxia afora que a ajude a libertar seu povo dos tiranos que os oprimem, divide uma árvore genealógica com Vida de Inseto, um filme onde formiguinhas buscam a ajuda de guerreiros para derrotar seus exploradores, tal qual no filme de Kurosawa.

Talvez seja por isso que Vida de Inseto continue tão presente para mim: não apenas como um filme de infância, mas como a fagulha que acendeu essa paixão pelo cinema, paixão essa que define quem sou e como me coloco no mundo. Rever o filme hoje é, ao mesmo tempo, reencontrar aquele menino de 3 anos maravilhado diante da tela e perceber como essa experiência aparentemente banal moldou meu olhar, meu gosto e até meu jeito de me relacionar com o outro. No fim das contas, aquela sessão de 1999 não foi só a minha primeira ida ao cinema; foi também o início de uma trajetória pessoal feita de imagens, sons, memórias e afetos que até hoje me acompanham. São essas imagens e sons que definiram minhas amizades, meus estudos e que também definem meu trabalho desde que comecei a trabalhar com cinema e audiovisual. É como se assistir Vida de Inseto tivesse mudado meus rumos para sempre, como um efeito borboleta - e não tem expressão mais cabível para encerrar esse texto.

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