"O Agente Secreto" e o Brasil febril 

Oficialmente nosso representante na corrida para o Oscar 2026, O Agente Secreto, novo filme do diretor Kleber Mendonça Filho, é uma continuação da pesquisa que havia começado em Retratos Fantasmas sobre o passado e o Recife. De O Som ao Redor a Aquarius e Bacurau, Kleber sempre trabalhou muito bem a influência dos espaços em seus personagens. Natural do Recife e com muito orgulho de suas origens nordestinas (e acima de tudo, brasileiras), a filmografia do diretor vem construindo uma investigação interessante sobre o Brasil do passado, do presente e do futuro, com forte discurso de viés social e político.

O Agente Secreto

Dito isso, o Brasil retratado em Agente, o Brasil dos anos 70, é um país peculiar. Como disse em um dos meus textos sobre o filme de Walter Salles, Ainda Estou Aqui, eu hoje percebo a ditadura militar brasileira, a falsa ideia de uma ameaça comunista e o mais recente capítulo da nossa história que quase seguiu o mesmo caminho, como uma febre. Um estado de transe, caracterizado pela dissociação da realidade e pela violência, que somente se justifica através do total descolamento da realidade dos fatos.

Em um dos diálogos de Agente Secreto, em que o personagem de Wagner Moura, Marcelo/Armando, conversa com o filho sobre a partida prematura da mãe, uma febre de cinquenta graus é citada. A frase pode não parecer muito, ainda mais que o contexto não é exatamente o mesmo sob o qual o interpreto, mas para mim essa pequena frase virou um grande tema e guiou meu olhar ao longo do filme solar, cômico e sexy de Kleber, mesmo em meio a uma atmosfera de morte e perigo constantes.

Entre suor, sangue, lendas urbanas e muito frevo, a Recife de Agente se encontra em estado febril. Com isso, quero dizer, se encontra propensa a alucinações coletivas — como acreditar que uma perna cabeluda sairia pela cidade cometendo crimes. O fato de uma estória tão bizarra quanto esta ter realmente estampado manchetes em jornais e rádios à época diz muito sobre como aquelas pessoas, que viviam sob a vigilância do regime ditatorial, eram obrigadas a dissociar da realidade lendo contos ao invés de notícias na coluna policial dos jornais.

Nesse sentido, a febre que me refiro e que assola os personagens é semelhante a um estado de transe além de fortemente endossada pela manipulação midiática. Não é à toa que Kleber inicia seu filme com imagens de músicos, atores, novelas, vedetes e tudo o mais que estava em alta nas televisões do Brasil naquele momento, O Agente Secreto é uma combinação perfeita entre a brasilidade das telenovelas, da diversidade cultural, e a inventividade do cinema hollywoodiano setentista.

Como crítico e cinéfilo, Kleber não perdeu a oportunidade de pôr em evidência grandes filmes da década de ouro do cinema blockbuster como Tubarão e A Profecia. Mais que isso, ele constrói seu filme com a sujeira, o suor e o sangue típicos de obras daquele período, o que por vezes me remeteu a filmes como Serpico de Lumet, A Outra Face da Violência de John Flynn e Todos os Homens do Presidente de Alan J. Pakula, além de, claro, vários filmes do Brian De Palma. Não fosse pela linha do tempo presente, diria que o teletransporte existe — ainda mais com a direção de arte impecável de Thales Junqueira.

Nessa de reescrever a história através do cinema, é curiosa e nada ao acaso a escolha do diretor por revelar o motivo da fuga de Marcelo/Armando em uma pequena sala no prédio do Cinema São Luiz. Uma fita e um gravador avançam e voltam no tempo para reconstruir os fatos que levaram o protagonista até este lugar e se torna evidente a natureza de um cinema de memória e resistência que ganha vida no enlace entre passado, presente e futuro – nebulando a linha que os separa.

Os vários personagens funcionam para a narrativa como arquétipos da nossa pluralidade e, por vezes, do “jeitinho” brasileiro – ao qual a personagem de Maria Fernanda Cândido se refere como mambembe. O coronel estapafúrdio e o empresário fascista são facilmente reconhecíveis, assim como a patroa que chora copiosamente a morte do filho da empregada para estampar as manchetes de jornais e se esconde atrás dos vidros que embaçam sua sombra ao ouvir o primeiro grito de sofrimento daquela mãe.

O Brasil do AI-5, mostra-nos o filme, é um monstro adormecido apenas, que continua ali mesmo após a redemocratização. É um assombro que está presente na xenofobia que exclui o nordeste e norte do país, que nega a pesquisa feita pela universidade pública em prol de favorecer o capital privado, que busca assombrar o povo pela mentira, que esconde fatos e que persegue pessoas. A tentativa vã, ainda bem, de muitos brasileiros no 8 de janeiro de retornar à esse período sombrio da nossa história ignora por completo o que nos ensinou o passado.

Fora daqui, o filme mais premiado do Festival de Cannes tende a dialogar com diferentes nações e cenários políticos. Vivemos todos em um período histórico de pesadelos que tentam a todo custo voltar para nos atacar. O desfecho de Agente, embora agridoce à primeira vista e provavelmente seu ponto de maior controvérsia, é como uma revelação que abrange todos os pontos que abordados durante a trama. É uma reafirmação de que os mortos e perseguidos pelo regime ditatorial continuam vivos de alguma maneira, especialmente na memória, nem que seja em outra pessoa.

Para mim, Wagner Moura interpreta o grande papel da sua vida, em solo brasileiro e falando português, bastante seguro da sua função como espinha dorsal de um filme tão denso. Chamo atenção também para Dona Sebastiana, interpretada por Tânia Maria, um farol que ilumina as cenas mais cômicas com seu brilho e carisma naturais. Contudo, se ainda não ficou claro durante este texto, o maior mérito do filme reside na maturidade de Kleber como diretor e roteirista, por se desafiar a fazer uma obra certamente complexa incorporando elementos fundamentais de sua filmografia que se fazem presentes desde o começo.

De Vinil Verde, o horror e a estranheza, de Recife Frio a comicidade do absurdo, de Bacurau a maneira como transita entre diferentes gêneros com fluidez e de filmes como O Som Ao Redor, Aquarius e Retratos Fantasmas, a maneira como o espaço e o individuo estão em sempre se influenciando. Em suma, O Agente Secreto é mais do que a representação de um Brasil febril, portanto, é um gesto de cinema que insiste em olhar para as nossas cicatrizes sem perder a ironia, a sensualidade e a potência criativa.

Se o passado insiste em retornar como fantasma, Kleber Mendonça Filho demonstra que o cinema pode ser o espaço onde esses espectros se reorganizam, ganham voz e confrontam o presente. Seu filme não apenas se coloca como um marco da produção nacional contemporânea, mas também como um testemunho universal de que a arte segue sendo um dos últimos refúgios contra o esquecimento — e, talvez, o mais poderoso antídoto contra a febre que ainda nos assola.

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