Feitiço do Tempo | A monotonia é um assassino lento 

Enquanto Billie Joe Armstrong continua dormindo, lembrei que ainda é tempo de #SetembroAmarelo. Logo, senti uma necessidade genuína de escrever algo relacionado à isto. Mas dentro desse afã, haviam as escolhas óbvias de filmes que retratam a temática como ponto central, e as atípicas que comentam sobre isto dentro de outros contextos. Decidi falar sobre um longa que se enquadra nesta última classificação. Tragicamente, uma comédia. “Groundhog Day”, ou “Feitiço do Tempo” aqui no Brasil, é uma comédia dramática de 1993, dirigida por Harold Ramis, estrelada por Bill Murray e Andie MacDowell.


Antes de darmos sequência, um aviso: o texto a seguir apresenta uma análise referente a temas sensíveis, como depressão e ideação suicida, podendo despertar alguns gatilhos no leitor. Se você está passando por um momento difícil, você não está sozinho, e pode contar com apoio imediato, como por exemplo o CVV, atendendo 24 horas por dia, todos os dias, pelo número 188. 🎗


Seguindo, escrevo essa análise mais como uma troca de experiência do que crítica efetivamente (terá alguns spoilers, já aviso de antemão), por dois motivos: o primeiro é que “Feitiço do Tempo” é um dos meus filmes favoritos da vida; e o segundo é porque a depressão vem e volta, e foi aqui nesse filme que consegui aconchego em um período turbulento, há alguns anos. Para mim, esse foi um daqueles que te pegam em um momento chave da sua existência aqui neste plano. Definitivamente, no momento em que assisti a esse filme, não vi chegar a surra na cara. Aquele tapa angustiante, mas necessário. A princípio - e para muitos - é um filme de comédia dos anos 90, estrelado pelo Bill Murray, assim como qualquer outro. E, mesmo tendo outros exemplos de filmes que abordam especificamente o tema central dessa análise, foi aqui que encontrei cenas que exploram com muita sensibilidade a depressão, juntamente com ideações suicidas.

It's Groundhog Day! Stop Making the Same Tire Mistakes

Resumidamente, Phil Connors (Bill Murray) é um arrogante e mau humorado meteorologista que vai cobrir o Dia da Marmota, em 2 de fevereiro, em uma pequena cidade da Pensilvânia, juntamente com sua equipe, Rita (Andie MacDowell) e Larry (Chris Elliott). Connors demonstra o tempo inteiro o quanto ele não gosta de sua equipe, sua emissora, e dessa tradição "antiquada" dessa cidade “caipira”. Tal tradição consiste na previsão do tempo, segundo a dinâmica de movimentação de uma marmota e sua sombra. Isto é, se o roedor sair correndo significa que a primavera chegará mais cedo. Agora, se o bichinho sair e se assustar com sua própria sombra, fazendo-o voltar para sua toca, o inverno se estenderá por mais algumas semanas.

An Odd Scene in Groundhog Day - HaphazardStuff

A missão, basicamente, era chegar à cidade, gravar a reportagem e já voltar para o centro. No entanto, uma nevasca acaba impedindo a equipe de retornar para suas casas no mesmo dia, fazendo com que precisem passar mais uma noite nessa pequena cidade. Mesmo revoltado, Phil acaba cedendo e dorme no hotel em que estava hospedado. No “outro dia”, ele acorda - com a mesma música “I Got You Babe” de Sonny e Cher, na rádio - e vai percebendo, aos poucos, que está no mesmo dia, tendo que gravar a mesma reportagem, interagir com as mesmas pessoas e com os mesmos assuntos, caindo em um loop temporal. A princípio, Connors acha que está em um déjà vu, até que, concomitantemente, vai aceitando que está vivendo naquele inferno, entrando em uma sucessão de surtos, tentando sobreviver à essa solitária situação angustiante.

Conforme o tempo vai passando (ou não, né?), Phil apresenta inúmeras mudanças de humor. Primeiro, começa com ataques de raiva, tentando entender o que está acontecendo, tendo reações grosseiras com as pessoas que interagiram com ele. Posteriormente, apresenta uma jornada muito tocante de autoconhecimento e ressignificação de sua própria vida. No início, até tenta explicar a situação para Rita, mas - obviamente - ela não acredita, taxando-o como louco (até porque a má fama de rabugento do repórter também não ajuda). A partir disso, cada “novo dia” de Phil é vivido de diversas formas peculiares, passando de cair na farra e bebedeira com desconhecidos até roubar e desrespeitar os outros, como se não houvesse amanhã (literalmente). Por mais que ele fosse preso ou recebesse uma consequência ruim totalmente irreversível, nada daquilo importava, pois no dia seguinte iria acordar na mesma cama, ao som de “I Got You Babe”, e iria viver tudo aquilo novamente. Depois de muito viver de modo inconsequente, em certa altura do longa, Phil tenta se aproximar da Rita, o que acaba tendo algumas passagens interessantes, afinal os dois se odeiam. No entanto, como Phil apresenta essa vantagem do tempo, ele acumula várias informações a respeito da moça, conquistando-a aos poucos. Mesmo, em certo ponto, Rita acreditando no que Phil estava dizendo, aquilo não era o suficiente para mudar o loop. Phil, insistentemente, acordaria sozinho ao som de Sonny e Cher de novo, novamente.

Groundhog Day | 10 Memorable Movie Breakfast Scenes | TIME.com

Inevitavelmente, Phil acaba tomando decisões extremamente severas na tentativa de destruir esse ciclo infernal, cometendo suicídio inúmeras vezes. A forma como Bill Murray varia entre a comédia e o drama em sua performance é cativante, fazendo o espectador sentir a dor e angústia da personagem tentando encontrar maneiras de passar os dias naquele contexto, ao mesmo tempo que acompanhamos seu amadurecimento, durante o processo. Phil se joga de em um penhasco no carro em alta velocidade, pula do alto de um prédio, além de procurar outras maneiras em seu quarto do hotel. Estas cenas são tocantes, pois aparecem como uma sequência breve, como se o protagonista estivesse tomando essas decisões por diversos dias ou semanas. Já não temos mais a noção de quanto tempo ele se encontra nesse loop. Já o vimos raivoso, indiferente, deprimido. O ciclo todo estava completo, e em uma vida natural aquilo já teria tido seu fim há muito tempo. Phil procurou isso, de formas rápidas à longas, ele procurou e executou. Mas não se concretizou. Sua maldição era a imortalidade, mas sem poder criar vínculos, suas ações não eram duradouras, não tinham consequências a longo prazo. Tudo parecia não ter sentido.

The best scenes from 'Groundhog Day'

Até que a jornada de autoconhecimento começa a engrenar para um lado mais altruísta, a partir do momento em que Phil percebe que um mendigo morreu por causas naturais neste dia. Ou seja, não há nada que ele possa fazer para impedir isso. A morte daquele sujeito era inevitável. Portanto, em uma forma de compensação, o repórter decide fazer desse dia o melhor possível para o andarilho. Posteriormente, começa a prestar mais atenção nas intempéries e infelicidades dos moradores daquela cidade, ajudando-os com pequenos atos na tentativa de melhorar o dia de todos, seja evitando atropelamentos ou trocando pneu de carro. À medida que a história avança, Phil começa a estudar diversos assuntos, visita à biblioteca, lê inúmeros livros, aprende a tocar piano, a falar outras línguas, a esculpir no gelo. Enfim, vira especialista em diferentes temas universais. Paralelamente, suas conversas com Rita foram ficando mais naturais, sem o lado “forçado” de suas primeiras investidas, de um jeito muito mais maduro agora, consciente de sua prisão.

Groundhog Day' movie: The Buddhist lifehacker film | CNN

Até que, finalmente, depois de muito tempo, farras, atitudes inconsequentes, prisões, surtos, crises de ansiedade, picos de mania, de depressão, suicídios, gestos nobres, romances, dentre outras infinitas manifestações, Phil acorda com a mesma música “I Got You Babe”, som ambiente natural para seus ouvidos há muito tempo. Entretanto, não está mais sozinho: Rita está lá. O radialista começa a contar outras piadas matinais, revelando, enfim, que era 3 de fevereiro.

No tomorrow: confronting sobriety with

Phil não necessariamente aprendeu o significado do universo com esse castigo celestial (estima-se por aí, que ele tenha ficado preso no loop temporal entre 30 a 40 anos). Ou, talvez, tenha aprendido. Sobre um universo ainda mais fascinante do que o dito espacial: o universo particular. “Cada um de nós é um universo, Pedro”, já dizia Raul Seixas. Dentro de cada um de nós, há muitas possibilidades e caminhos que os outros - meros figurantes em nossa vida/filme particular - nem imaginam que seguimos. E, por conseguinte, esses figurantes vivenciam infinitas possibilidades em que nós - vulgos protagonistas por nós mesmos - nem sequer temos a curiosidade de pensar sobre. Vivemos como uma unidade, como um lembrete de pertencimento. Por mais deslocados que pareçamos ser - e estamos - é preciso ter a consciência de que fazemos parte de uma comunidade maior. Um pequeno ato para alguém pode ser de uma importância tremenda para outro. E são nesses pequenos atos (ou, até, lapsos) diários em que encontramos satisfação e autorrealização.

Feitiço do Tempo” é (o que muitos chamam de) um filme de “Sessão da Tarde”. Isto é, uma comédia dos anos 90 com pouco mais de 1 hora e meia, da qual garante um bom entretenimento para toda a família. Sempre tive a ciência desse filme com esse status. E já comentei em algum outro texto por aqui mesmo, o quanto condeno usar esse termo de forma pejorativa. Existem muitos filmes que levo comigo que são claramente “filmes de sessão da tarde”, e sempre vou guardá-los em meu coração, em um lugar especial. E mesmo sabendo da existência do longa, só fui prestar atenção mesmo em 2020, no começo da pandemia. E foi por conta deste motivo que esse filme acabou me pegando de jeito. Na pandemia, todos os dias pareciam iguais, dando a percepção de desesperança angustiante na maioria de nós (e indiferença para alguns). A cada dia que passava, a vacina parecia mais distante, não havia um vislumbre de quando iríamos sair dessa. Havia uma sensação mórbida constante naqueles dias, com todas aquelas notícias horríveis, fazendo com que muitos de nós vivessem sem esperança, sem expectativa de que amanhã seria um novo dia. Esse novo dia nunca chegava…

Parafraseando uma música do The Growlers, a monotonia é um assassino lento, daqueles que não matam imediatamente, mas sim com golpes sutis, gerando um efeito acumulativo de dor e sofrimento, como uma espécie de tortura mesmo. É preciso mudança, às vezes. É preciso agitação, insatisfação. E isto começa de dentro. Antes de haver a consequência no todo, é preciso ter a causa aqui dentro. O motivo que nos faz levantar todo santo dia - ouvindo “I Got You Babe” ou não - e querer estar vivo, querer viver aquele dia, por mais que ele seja igual a todos os outros.

Conviver por anos com a depressão (e algumas ideações indesejadas), faz com que a experiência desse filme seja um pouco diferente. É uma comédia dramática muito profunda que foi absurdamente necessária para mim naquele período específico. Às vezes, para seguirmos em frente, nada melhor do que estar na companhia de um bom filme, em uma noite fria, depois de um dia difícil. O grande segredo é não tentar desviar desse feitiço do tempo, mas sim encará-lo, de igual para igual, que tudo tem seu tempo, todos nós temos o nosso próprio tempo, e assim vai, um dia após o outro dia. Não estamos sozinhos! Ainda estamos vivos aqui, de novo!

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