O Olhar do Norte e o meu olhar de júri 

Entrar no Teatro Amazonas sempre carrega uma sensação de grandeza. Estar ali como júri do 7º Festival de Cinema Olhar do Norte, na Mostra Outros Nortes, acrescentou um peso diferente: o olhar não era apenas de espectador, mas de alguém que precisava debater, refletir e decidir. O espaço histórico parecia conversar com os filmes contemporâneos vindos de Alagoas, Bahia, Rio de Janeiro, Amazonas e outros estados, em um encontro de tempos, sotaques e visões.

Foram 11 curtas na mostra, cada um trazendo um universo próprio. Dois Nilos, de Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro, acabou se tornando o grande vencedor: um retrato precioso de Afrânio Vital, cineasta marginal esquecido, que nos anos 1960 e 1970 circulava ao lado de nomes como Jean Garret e Carlos Reichenbach. O curta reconstrói essa memória e questiona o apagamento, ligando o cinema de ontem ao de hoje. Ao lado dele, Seu Corpo é Belo, de Yuri Costa, e Ataques Psicotrônicos, de Calebe Lopes, mostraram a ousadia de experimentar formas e gêneros dentro de um mesmo panorama.

Outros títulos também marcaram presença: Marmita, de Guilherme Peraro; Entre Corpos, de Mayra Costa; Cavaram uma Cova no Meu Coração, de Ulisses Figueiredo; O Mediador; O Faz Tudo, de Fábio Leal, que arrancou gargalhadas; Mais um Dia; e Cantos da Metamorfose, além de Americana, de Agarbe Braga, com sua multiplicidade de olhares sobre uma mesma situação cotidiana, e Mansos, de Juliana Segovia, que evocava o terror para falar das periferias. Cada filme, a seu modo, expandia o cinema brasileiro em direções inesperadas.

E não foi só a mostra que marcou. A abertura trouxe Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, exibido em Manaus antes mesmo de outros lugares. Assisti também A Natureza das Coisas Invisíveis, uma experiência belíssima na tela e no som do Teatro Amazonas. O festival ainda premiou Boiuna, de Adriana de Faria, um filme paraense que já acumula reconhecimentos nacionais e internacionais.

No meio disso tudo, havia também o júri: eu, Camila Henriques e Ivanildo Pereira. Dois críticos que sempre admirei e que já li tantas vezes (ainda leio, claro). Estar ao lado deles, discutindo filmes e dividindo impressões, foi uma daquelas viradas silenciosas de vida: de leitor, passei a colega. E, no palco, anunciando o vencedor, me vi dentro de um daqueles pensamentos que a gente guarda com incredulidade — “e se um dia fosse eu ali?”. Pois foi.

Olho para esse caminho e penso no quanto tudo se conecta. Há cinco anos venho me dedicando à crítica, e há dois, com ainda mais intensidade. Não se trata de ego, mas de realizações pessoais. É estar cada vez mais próximo daquilo que amo desde criança, quando eu não sabia explicar por que passava horas assistindo a filmes, querendo falar sobre eles, querendo sentir algo que só o cinema me dava. Hoje entendo que é pesquisa, aprendizado, surpresa — é ser atravessado por histórias.

Ser júri me ensinou outra coisa: por mais que se fale em “olhar crítico”, não há uma fronteira rígida entre ele e o olhar do público. Todos vemos arte a partir da nossa experiência. O que muda, talvez, é a constância do exercício, a forma como vamos afunilando o olhar com o tempo, como em qualquer ofício. Mas a emoção, a troca e a descoberta seguem sendo o centro.

O 7º Olhar do Norte ficará para mim como um desses capítulos que não se esquecem. Foi o cinema me trazendo de volta para o mesmo lugar de sempre — a sala escura, a tela gigante —, mas de uma maneira que a criança que eu fui jamais imaginaria.

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