Gosto como Tenebre parece um filme que teme o futuro do mesmo jeito que ri dele. Dario Argento, o diretor, costumava comentar que o filme se passa no futuro. Qual futuro? Ninguém sabe. Mas gosto de pensar que o que ele aponta nessa afirmação é para o caminho que a Itália parecia traçar a passos largos. É também um filme que, de certa forma, parece lançar luz para uma própria crise, seja do cineasta ou do giallo como um todo.
Veja, quando digo “crise”, me refiro sobretudo ao sentido semântico da coisa. Crise vem de krisis, palavra grega que significava decisão, definição, julgamento. A crise é um ponto de ruptura tanto quanto um ponto de virada. Se Argento faz piada com as próprias críticas que recebia - dado o discurso de sempre de que faria filmes misóginos - ao colocar seu protagonista, o escritor Peter Neal (vivido por Anthony Franciosa), sendo questionado por uma jornalista sobre sua opinião a respeito de que seus livros seriam sexistas, de alguma forma pode-se compreender essa autoconsciência do diretor italiano como um ponto de virada per si, uma vez que sua filmografia foi carro-chefe do giallo italiano durante toda a década de 1970 - década essa em que começou a fazer longas-metragens e onde, juntamente a Mario Bava, fez obras seminais que definiram as regras sobre as quais jogariam os gialli.
Mas para que meu texto não seja pregação para convertidos, talvez valha a pena rapidamente esclarecer o que é o giallo, gênero inicialmente literário que passou a dar as cartas no cinema barato e popular italiano já no fim dos anos 1960. Os livros gialli se chamavam assim pela cor amarela das capas. Eram uma espécie de literatura pulp, ou seja, livros bem baratinhos, de qualidade vagabunda, que no contexto em questão publicavam muitos autores policiais consagrados, como Edgar Wallace e Agatha Christie. O cinema giallo, por sua vez, para além de dar seguimento às narrativas policiais - que majoritariamente vinham acopladas ao terror -, bebeu bastante dos filmes krimi alemães, apropriando-se dos assassinos de luva de couro e identidade misteriosa, ao passo que injetaram um senso estético muito próprio, vindo de um período em que o cinema do país reciclava muito do que vinha de fora em cópias baratas que logo revelaram linguagens próprias - como o spaghetti western (jeito italiano de fazer bangue-bangue), os peplum (jeito italiano de fazer épico) e os poliziotteschi (jeito italiano de fazer Dirty Harry).
Já Tenebre (ou Tenebrae, originalmente) acompanha esse escritor estadunidense, Peter Neal, que seria justamente um escritor de gialli, livros policiais de sucesso mundial, e chega na Itália para uma turnê de lançamento de seu novo livro, Tenebre. Acontece de, coincidentemente ou não, várias pessoas no entorno do escritor passarem a ser mortas por um assassino (ou assassina) sádico que parece muito interessado no escritor - além de colecionar fotografias de suas vítimas. Lançado em 1982, 12 anos após seu primeiro longa, Tenebre é um filme que julgo sofrer de um leve desencanto com o gênero. Talvez daí, aliás, venha a ideia da trama quase que metalinguística, transformando Peter Neal numa espécie de Dario Argento da literatura.
Para além do comentário sobre si e sobre o gênero, vale destacar aqui uma observação trazida pela estudiosa Maitland McDonagh (escritora de Broken Mirrors/Broken Minds - The Dark Dreams of Dario Argento, livro dos anos 1990 sobre a filmografia do diretor até então), sobre como direção de arte e figurino em Tenebre colaboram para a construção de um não-tempo em um lugar muito bem definido.
Parte dessa percepção vem das roupas usadas pelos personagens, hora parecendo que misturam épocas diferentes, hora parecendo que não seguem tendência de época nenhuma, num anacronismo esquisito que realmente parece refletir o comentário ácido do diretor de que o filme se passaria no futuro. Mas o que McDonagh chama mais atenção é para a arquitetura retratada em Tenebre, sempre muito modernista, quando não brutalista, cinzenta, fria. Esse item é especialmente interessante se considerarmos a filmografia do diretor até então, destacando especialmente O Pássaro das Plumas de Cristal e Prelúdio Para Matar, dois filmes que me parecem muito interessados na arquitetura de Roma, dotados de um senso para o barroco que virou lugar comum no gênero a partir de 1970.
Argento tinha um prazer estético em filmar as ruas, os prédios históricos, as estátuas greco-romanas, os paralelepípedos e as neblinas. Os filmes parecem se passar numa Itália anacrônica mas muito imponente, como se cada morte carregasse sobre os ombros o peso da História. Em Tenebre, isso muda. Os casarões antigos dão lugar a prédios frios e impessoais, arquitetura futurista e ao mesmo tempo sem personalidade. Parecem pequenos não-lugares no coração da Itália, quase como se o filme trabalhasse essa dicotomia entre deixar claro a todo instante que trata-se do país do diretor ao mesmo tempo que coloca-nos diante de construções que poderiam estar em qualquer lugar do mundo dito ocidental.
Isso tem seu ápice possivelmente em um esquisito plano sequência em que a câmera move-se por vários cômodos de uma casa moderna através de suas janelas. O tempo que o compasso da câmera leva de uma janela à outra é longo, fazendo com que na maior parte do plano apenas estejamos vendo cimento e concreto, ao invés de algo interessante entre os intervalos de janela a janela. Um jeito satírico e não por isso menos melancólico de apontar que algo se perdeu no país naquele início da década de 1980. Comparado ao que veio antes da filmografia, Tenebre parece regido por um motor deliciosamente reacionário, o que não o impede de entregar algumas das cenas mais impressionantes do cinema de Argento. Uma das sequências finais, quando ocorre todo o desenlace da trama e os personagens que ainda restam vivos se encontram, é de uma força expressionista nauseante. O vermelho explode em exclamações fatais, mãos são arrancadas, paredes brancas são alvo de pinturas dignas de Pollock e pescoços são cortados. Ou não. No giallo desencantado de Argento, tudo não passa de uma farsa perversa e divertida.



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