Confesso, quando penso em “melhores relacionamentos do cinema” não são esses filmes do título que me vêm logo à mente. Poderia citar Anna Scott e William Thacker, personagens vividos por Julia Roberts e Hugh Grant em Um Lugar Chamado Notting Hill - talvez minha comédia romântica favorita. Penso também em Charlie e The Kid, protagonistas de O Garoto, filme dirigido por Chaplin que apertou meu coração nas inúmeras vezes em que o vi em DVD quando criança. Ou talvez no intenso amor de Clementine e Joel em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, filme sobre o qual já escrevi aqui.
Tentei, porém, ir mais fundo nas lembranças de relações que me impactaram no cinema. Cheguei primeiro a Superbad, filme que foi, à seu jeito, um daqueles marcos do fim de minha adolescência - talvez um dos melhores momentos da vida para se assisti-lo. Existe algo que sempre me tocou na amizade de Seth e Evan, personagens vividos respectivamente por Jonah Hill e Michael Cera e inspiradíssimos na amizade de Seth Rogen e Evan Goldberg, roteiristas do filme (os homônimos não são à toa). Talvez seja o senso de realidade que as atuações transmitem, ou a sensação de conhecimento de causa que traz uma verdade no texto dos roteiristas. Ou talvez seja apenas o fato de ter sido uma das primeiras vezes que vi amor entre dois amigos homens.
Vamos pular a parte das problematizações, tá? Faz muitos anos que vi Superbad, não faço a menor ideia do que pode ter envelhecido como leite no longa dirigido por Greg Mottola. Neste texto só nos concentraremos no efeito que teve em mim, que o assisti pela primeira vez já no ensino médio - mesmo momento da vida em que estão os protagonistas. Talvez deva confessar isso em voz baixa para o leitor, mas eu chorei no final de Superbad nas primeiras duas ou três vezes em que o assisti. Chorei porque aquele final, aquela escada rolante separando-os, aquela olhadinha para trás que cada um dá, me remetia exatamente ao que eu mais temia naquele momento: crescer, me formar, perder amizades. Me distanciar de meus melhores amigos. Eu não sabia, mas isso realmente aconteceria. E nem doeria tanto assim, porque a vida se encarregaria de passar o mertiolate. Não me julguem, aos 9 anos me debulhei em lágrimas com o fim de O Menino Maluquinho, escrito e ilustrado por Ziraldo, unicamente porque o Maluquinho, que sempre havia sido um ótimo goleiro nas partidas de futebol com os amigos, segurava todas as bolas mas não conseguiu segurar o tempo. Maluquinho cresceu, a vida aconteceu para ele. Isso me marcou na infância tanto quanto Superbad me marcou na adolescência.
De alguma forma, a amizade de Seth e Evan esteve comigo nesses anos todos. Em cada amizade verdadeira que tive com outros homens, em cada momento de intimidade genuína que os limites da heterossexualidade frágil permitiram. Talvez sejam Seth e Evan os fantasmas que me fazem chorar também ao fim de Era Uma Vez em… Hollywood, filme mais recente do cineasta Quentin Tarantino, que traz Leonardo DiCaprio e Brad Pitt como a dupla de amigos Rick Dalton e Cliff Booth. Existe um momento na última cena do filme, quando Cliff é carregado em uma maca para dentro de uma ambulância após ser esfaqueado, que Rick se prontifica a acompanhar a ambulância para ir com o amigo até o hospital. Booth, sempre meio cínico, ri e aconselha que Dalton fique em casa e cuide de sua esposa. Ele está bem. Tudo ficará bem. Os dois se olham. É um olhar de cumplicidade, o mesmo olhar que Seth e Evan se dão na escada rolante, ou talvez um olhar de carinho que já me vi tendo com diversos amigos ao longo dos anos. Isso me emociona.
Veja bem, tanto em Superbad quanto em Era Uma Vez em… está-se em pontos de colisão nas relações dessas duplas de melhores amigos. Boa parte das narrativas, inclusive, giram em torno desse ponto que, de alguma forma, também simbolizam amadurecimento: os meninos de Superbad vão para faculdades diferentes, os homens tarantinescos separam-se porque um deles entendeu o que quer da carreira, da vida, do amor. As coisas já não podem ser como antes. Em Superbad o que está em jogo não é apenas perder a virgindade antes de se formar, mas aproveitar o último momento que se tem com o melhor amigo ao lado. Para Seth e Evan, o tudo ou nada daquela noite maldita também é a tentativa de uma última noite para se lembrar. De igual modo, quando Rick chama Cliff para conversar e lhe conta das escolhas que fez na vida - incluindo financeiras, o que faz com que não lhe possa mais pagar salário -, o pacto permeado de silêncio (sempre ele) que se estabelece entre aqueles dois homens é o de encher a cara, usar muita droga e terem uma última noite memorável dentro daquela configuração que já não funciona.
Cada um a seu jeito, esses filmes parecem apenas estar falando de amizade mas também estão falando de amor. Amor genuíno entre homens. Quando acordam após toda a confusão em que se meteram, deitados no chão e ressacados, Evan e Seth trocam um “eu te amo” meio bêbado, meio constrangido mas imensamente sincero. Aquilo ali é o punch que impulsionará, novamente, a tal da cena da escada rolante. Os garotos, que passaram a noite anterior inteira tentando transar com qualquer mulher que lhes concedesse a misericórdia, magicamente estão agora cada um com uma garota dos sonhos ao lado. “Magicamente”, aliás, me parece um bom termo, porque as coisas se desenrolam muito facilmente naquele encontro aleatório do shopping, quase como se a vida estivesse se organizando para que eles realmente entendessem que estão se separando, que agora virão outros interesses, outras histórias, outras pessoas. Agora, quem sabe, eles até podem namorar. A vida se encarrega de tudo.
É difícil escrever um texto desses sem cair nos papos fáceis sobre masculinidade tóxica e sobre como homens foram ensinados a manifestar amor uns pelos outros de uma maneira estranha e por vezes problemática. De alguma forma, sinto que esses filmes, porém, apresentam perspectivas pra lá de realistas (inclusive porque nenhuma das duas duplas é composta por seres angelicais e livres de falhas) sobre algo que homens que têm melhores amigos de muitos anos devem entender perfeitamente. Mesmo que de maneira silenciosa, ou com um “te amo” chapado passando o dedo no rosto do outro. Essas coisas me são tão caras, que confesso que por vezes enquanto escrevia todas essas palavras, dei umas engolidas em seco, pensando em todos os meus amigos. Ricardo, meu pai. Klaus, Caio, Alan, Léo, Max, Batata, Thiago, Rafa, Nelson, Davi e tantos outros que me acompanharam em todos esses anos. Dedico esse texto a vocês. Eu amo vocês.



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