Cox e as almas sem rumo em Almería 

O anúncio de que o diretor Alex Cox estava realizando um faroeste inspirado em Nikolai Gogol acendeu uma luz de alerta no radar cinéfilo desta que vos escreve. Não apenas por tratar-se de um exemplar de um gênero pelo qual nutro uma relação de afeto, mas porque o cinema de Cox sempre me reservou, no mínimo, uma diversão saudável. Repo Man (1984) e Sid and Nancy (1986) que o digam. Incluído na programação da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Almas Mortas ainda contava com um ponto extra para a minha curiosidade: um roteiro assinado pelo diretor e por Gianni Garko, o eterno Sartana. Do alto dos seus 90 anos, o ator italiano aceitou esse desafio. A pergunta que fica após assistir ao filme é em quais linhas suas mãos estiveram para resultar na loucura anárquica que se apresenta na telona.

Apesar de tratar-se de uma viagem com toques lisérgicos, o longa-metragem inicia honrando algumas tradições do faroeste, em especial do subgênero spaghetti western. Os créditos de abertura deixam isso bem claro e o protagonista, Strindler, interpretado por Cox, traz o ar misterioso envolto em um figurino peculiar. Isso porque ao invés do chapéu e do coldre, ele se apresenta vestido de preto, afirmando ser um religioso que está em busca do nome de trabalhadores imigrantes mortos na região. A paisagem também aciona a nostalgia dos fãs do gênero, já que a produção foi filmada no deserto de Almería, cenário de inúmeros filmes. Porém, o que nas produções dos anos 1960 eram pequenas cidades repletas de poeira, aqui ganha uma aparência mais “limpa”, quase como um parque de diversões temático. É nessa ideia de uma ambientação de faroeste para contar uma história que parece querer percorrer outros universos que Almas Mortas perde seu rumo.

Os diálogos iniciais entre Strindler e os poderosos da cidadezinha são engraçados e ganham um certo charme por conta da caracterização estereotipada dos personagens. Mas o que divertia nos primeiros minutos logo passa a incomodar, especialmente por conta do ritmo aplicado por Cox para a trama. Trechos musicais e de animação stop-motion e até um pulo no futuro surgem em Almas Mortas sem muita explicação. Um pouco de nonsense é sempre bom, mas aqui a atmosfera não colabora para que o espectador mergulhe de verdade. O baixo orçamento não é uma desculpa, já que temos bons exemplos de trabalhos onde a grana curta foi superada com criatividade. Mas Cox e sua turma parecem não se importar muito em construir algo coeso. É preciso lógica até para sair da linha.

A questão dos imigrantes, em especial os mexicanos, dá indícios de ser um dos fios condutores do filme, mas logo também é perdida. Não que o objetivo de Cox seja uma crítica social contundente, mas haveria inúmeras possibilidades de explorar o tema sem perder seu estilo. Afinal, fica claro que o diretor tem domínio visual e consegue boas cenas, como o papo sincero e alcoólico na carroça entre Strindler e Borracho. Mas em menos de uma hora e meia de duração, contar nos dedos boas cenas não é um bom sinal. Até o protagonista, que conta com o carisma de Cox, perde a simpatia dos expectadores. As duas únicas personagens femininas também não são desenvolvidas, ao ponto de uma delas ir de uma viúva carola para uma sensual cantora para, sem nenhuma explicação, desaparecer.

No final das contas, o faroeste de Cox traz alguns sorrisos para os admiradores do gênero mais pela nostalgia do que pela qualidade da história. Gogol, conhecido por sua escrita intensa, parece só ter deixado marcas no título do filme. E Garko, como roteirista, faz bater a saudade do homem sem piedade que era Sartana.

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