
Um bom filme é aquele que fica com você mesmo depois de os créditos rolarem. Na medida em que é alvo de discussões, formam-se significados, que podem variar de pessoa para pessoa. Mas tem filmes que mesmo depois de um tempo, a dúvida ainda permanece. Então, a minha ideia aqui é discutir: afinal de contas, o que é Sirāt?
Ao pensar nele sempre me vem a dúvida: o que leva um pai e seu pequeno filho, procurar por sua filha e irmã mais velha, que já é maior de idade e responsável por suas próprias decisões, em um deserto no sul do Marrocos? Esse fato é uma questão até mesmo para o garoto, Esteban (Bruno Núñez Arjona), que não parece tão investido naquela jornada quanto o pai, Luis (Sergi López), mesmo ainda carregando o desejo de ver sua irmã novamente. Então, qual o grande argumento dessa jornada? A negação.
Ela é o ponto de partida nesse entendimento do que é "Sirāt" (2025), uma obra complexa, pois lida com questões que vão muito além da história de Luis e Esteban, olhando para todo um grupo de pessoas que escolheram ir até aquele lugar à procura de algo. Seja uma experiência, uma descoberta, uma filha, uma irmã ou simplesmente uma fuga.

O trance, que é trazido no subtítulo do filme em espanhol — “trance en el desierto” —, é o ritmo que nos guia por toda essa jornada, um literal transe que mantém a todos em espera para o que está por vir. O diretor Oliver Laxe, em seu quarto longa-metragem, faz aqui, sobretudo, uma experiência sonora marcante, uma experiência que te deixa atordoado desde o princípio até o final. As vibrações das caixas de som parecem esconder algo além do que está em tela, uma rave no deserto que parece não ter fim, até a chegada do exército e rapidamente tudo muda. Uma guerra em escala global acabava de começar.
Em resposta a notícia, Luis e Esteban parecem dispostos a seguir com um grupo que sai da fila organizada pelo exército local para a evacuação das pessoas presentes e fogem para o meio do deserto, em meio a notícias de uma outra festa não tão distante dali. A história, levando em conta um cenário de extrema incerteza, parece seguir por um caminho de esperança. Porém, logo se percebe que não é o caso.
Assim, já que o filme se mostra como uma resposta à realidade vigente, talvez a forma mais fácil de traduzi-lo fosse voltando ao simbólico. Sirāt, logo em seu início, nos explica sobre o seu nome: um caminho estreito entre a vida e a morte, pelo qual estes personagens se movimentam em busca de um propósito, seja ele qual for.
Com a junção do som eletrônico e a vastidão do deserto, há espaço para pensarmos sobre tudo, desde o drama familiar, ao caminho tomado por cada um daqueles viajantes para estarem ali, até temas mais amplos, como a guerra, religião e a morte, por exemplo. Através desse panorama apocalíptico, o filme se torna uma jornada espiritual que guia esses indivíduos até os seus destinos.

Dessa forma, eu volto a questão, sobre o que de fato é Sirāt? Bom, Sirāt é a jornada, por mais amplo que isso pareça, é exatamente o que ele é. Algo difícil de traduzir para uma experiência racional, mas talvez não para uma experiencia sonora, sendo portanto um percurso que todos nós temos que percorrer, um caminho tortuoso, inevitável e que sempre, sempre envolverá fazer escolhas.
O deserto, então, é o local ideal para essa história, um território imutável e novo a cada dia, uma imensidão de nada ou de tudo, a depender do seu ponto de vista. Agora, se formos discutir, o que há no deserto?
Eu desejo uma boa sorte, porque o caminho é longo...



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