Já podemos dizer que MALIGNO é um jovem clássico do terror? Spoilers

Não vejo controvérsia alguma em classificar James Wan como um dos maiores cineastas de terror de todos os tempos. Despontando nos anos 2000 com o potente Jogos Mortais - que, por sua vez, daria início a uma das mais duradouras franquias de terror da História do Cinema - o cineasta malaio de criação australiana rapidamente se tornou um dos nomes com maior assinatura e estilo dentro do gênero. Ofereceu a possibilidade do torture porn com Jogos Mortais, empurrou os limites do paranormal com a franquia Sobrenatural, misturou fato e ficção em uma saga Blockbuster com Invocação do Mal e até se aventurou em produções de ação com o emocionante Velozes e Furiosos 7 e os dois filmes do Aquaman, da DC.

Mesmo viajando entre gêneros, Wan sempre trouxe ideias estimulantes e desenvolveu seu próprio estilo. Gosto de destacar também suas obras mais subestimadas, como Gritos Mortais e Sentença de Morte, que servem como laboratório para suas principais ferramentas em atividade. Um conjunto de obra formidável que culmina naquele que considero como seu melhor filme até agora: Maligno, o bizarro e surpreendente longa original de 2021, que nasceu de uma ideia de Wan e sua esposa Ingrid Bisu (também atriz) em uma forma de combinar o terror giallo italiano com o cinema clássico de monstros e… Seja lá como queira rotular o que exatamente acontece aqui.

A história é simples, mas instigante: Madison, vivida por Annabelle Wallis, tem uma experiência traumática ao ser agredida pelo marido, perder seu bebê e, na sequência, ter seu companheiro brutalmente assassinado. Sozinha em sua casa a partir de agora, ela passa a ter visões perturbadoras, como se estivesse no ponto de vista de uma criatura violenta e letal, que sai em uma jornada de assassinatos sangrentos ao redor da cidade, enquanto Madison é incapaz de fazer qualquer coisa. Com a ajuda da irmã adotiva Sidney (Madie Hasson, sósia incrível da Florence Pugh) elas partem para investigar as visões, e como o passado oculto e sombrio de Madison guarda a chave das respostas.

A influência do giallo

O primeiro ponto a se observar em Maligno é a influência do giallo. É uma vertente do terror introduzida no cinema italiano e popularizada pelas obras de Dario Argento, normalmente se caracterizando pela presença de um assassino com luvas pretas e facas afiadas, além de um teor sexual considerável. Wan não aposta muito na segunda parte, preferindo se ater ao gore gráfico, mas certamente abraça a figura do assassino trajado de longas vestes de couro preto - e traz um troféu de medicina transformado em uma faca absurdamente chamativa e incrível. Maligno também olha bastante para o cinema de Argento, com a fotografia de Michael Burgess se divertindo com luzes coloridas e fortes, que invadem a paisagem e os quadros de forma não natural, reforçando a natureza absurda e - em partes - ridícula do projeto.

Durante a primeira parte, Maligno oferece um bom mistério que é bem executado, como sempre, pela miss en scene criativa de Wan. As sequências em que Madison fica paralisada e o ponto de vista do assassino tomam conta são inspiradas, especialmente quando vemos o cenário se transformar ao seu redor, seja com Madison deitada na cama e a janela ao fundo se transformando, ou em uma das tomadas mais famosas do filme, com um elegante giro em 360 graus ao redor de Madison no chão, que tem sua lavanderia transformada na sala de estar de uma das vítimas. É uma construção formidável e que traz todas as características fortes de Wan, que também traz um belo aceno ao terror clássico da Hammer da década de 1970 ao explorar um hospital psiquiátrico abandonado e seus experimentos bizarros.

Gabriel e a grande revelação

O que nos leva à grande revelação de Maligno, e que torna o filme tão especial. Confesso que quando assisti o filme pela primeira vez, suspeitava que de alguma forma Madison seria responsável pelos assassinatos, em algum tipo de distúrbio de personalidade à lá Psicose ou até mesmo Cisne Negro. Se alguém me dissesse que seria um caso de Madison ter um irmão gêmeo parasita mal desenvolvido, conectado à suas costas e cabeça, que tem a habilidade de dominar sua consciência e seu corpo, eu diria que essa pessoa está completamente viajada. Mas é isso o que Maligno faz, e o resultado é absurdamente chocante, e muito funcional.

A ideia de Wan e Bisu, que é concretizada pela roteirista Akela Cooper, nos faz acreditar que o corpo de Madison é possuído por um rosto em carne viva, que habita a nuca de Annabelle Wallis, e a faz andar invertida para cometer essa série de assassinatos. É totalmente ridículo, mas ao mesmo tempo original e perturbador, ainda mais porque Wan tem completa noção da natureza B do projeto, apostando em sequências onde o gêmeo maligno batizado de Gabriel protagoniza cenas de luta elaboradas e ultra violentas, quase como se o lado Aquaman do diretor tomasse conta da projeção.

Admiro bastante também a execução dessa criatura grotesca, que é realizada com efeitos práticos notáveis; incluindo uma marionete para fazer seu corpo incompleto se mexer nas costas da atriz McKenna Grace em um flashback e o próprio trabalho de maquiagem para criar seu rosto de carne viva, que aparece por baixo da cabeleira longa de Wallis. Além disso, o trabalho da dublê contorcionista Marina Mazepa que precisou literalmente andar de forma invertida para vender a ilusão de que Madison realmente tem seu corpo sequestrado. É uma verdadeira união de departamentos que garante uma das criações mais formidáveis do cinema contemporâneo, mostrando novamente que nada é muito absurdo ou extremo quando estamos falando de terror.

Maligno parece ser a concretização de tudo que James Wan já fez como diretor. É elegante, brutal e completamente maluco, trazendo reviravoltas que marcaram seus anos iniciais no terror, rivalizando com a revelação final de Jogos Mortais e até com a de Gritos Mortais. Eu pessoalmente ficaria muito feliz com uma continuação de Maligno, por mais improvável que isso possa parecer, mas de qualquer forma sigo esperando ansioso pelo próximo projeto de terror de Wan, pois tenho certeza de que ele encontrará mais uma forma de nos surpreender e chocar novamente.

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