
Desde de que o cineasta grego Yorgos Lanthimos surgiu, seu cinema sempre se colocou num lugar de confronto com o espectador. Ao migrar para o cinema norte americano, o diretor assumiu uma persona que disseca o comportamento humano em delírios bastante satíricos, um pouco mais palatáveis, mas ainda assim, provocantes. Em Bugonia, encontramos Lanthimos mais escancaradamente cômico do que nunca e ainda mais pop do que em seu A Favorita ou em Pobres Criaturas. Após o trágico Tipos de Gentileza, o cineasta almeja nos conquistar novamente pelo riso de nervoso em um longa cujo marketing escondeu a todo custo que se trata de um remake de Salve o Planeta Verde, de Jang Joon-hwan. Aqui, o diretor grego agora mergulha no terreno da paranoia contemporânea com uma premissa absurda: dois teóricos da conspiração sequestram a CEO de uma gigante farmacêutica porque acreditam que ela é uma extraterrestre disfarçada, prestes a destruir a humanidade.
Ridículo, não é? Mas o que é mais interessante em Bugonia é que tanto Lanthimos quanto seu roteirista, Will Tracy, entendem que mergulhar no ridículo pode ser um espetáculo. Os primeiros 30 minutos de Bugonia são uma diversão soberba, com direito a Emma Stone cantando o hit Good Luck, Babe, de Chappell Roan; uma cena de sequestro hilária (como deveria ter sido a cena de Anora se o Sean Baker soubesse ser engraçado) e performances tão convictas de seus pontos de vista que é quase impossível não rir diante da falta de hesitação dos personagens em proferir os maiores absurdos (“Raspamos seu cabelo para que você não entre em contato com sua nave mãe!”).

Na filmografia de Lanthimos, o grotesco e o cômico sempre se misturaram de modo desconcertante, mas aqui, o cômico é a estrela; e ainda bem! Existem cenas em Bugonia de se gargalhar alto, o que, de certa forma, ajuda a amplificar o choque de sequências mais dramaticamente carregadas ou tensas. Mas se há algo mais estrelar que o humor em Bugonia, esse algo é Emma Stone, parceira constante do diretor, que entrega aqui uma performance muito precisa. Sua Michelle Fuller é uma mulher poderosa e refinada, que de repente se vê à mercê de um sequestro absurdo que não há considera uma humana, e justamente por isso, o modo como ela alterna entre frieza, medo e manipulação é magnético e, no melhor dos sentidos, humano, confirmando o lugar da atriz como uma musa perfeita para o cinema de Lanthimos.
Jesse Plemons, por sua vez, compõe Teddy, o sequestrador paranoico, com uma energia perturbadora: ele consegue ser simultaneamente patético e ameaçador, convicto de lutar por uma verdade aparentemente impossível. E no meio desta guerra de titãs está Aidan Delbis sendo nada mais do que adorável, em uma espécie de representação visual do público dentro da narrativa, alternando entre a crença nos dois grandes personagens do longa.

Visualmente, Bugonia é um escândalo. Lanthimos mantém sua assinatura: planos fixos, lentes grande-angulares, composições simétricas e uma paleta opaca que acentua o distanciamento entre personagens e os espectadores. O diretor também se dedica para que o som seja aqui uma experiência sensorial perturbadora, aliado a uma trilha sonora que irrompe com trompetes estrondosos nos momentos menos esperados.
O timing do longa é sensacional: A parte central é ambientada quase inteiramente no espaço do cativeiro e ainda assim o ritmo nunca se torna irregular. Lanthimos articula para que a repetição de confrontos entre sequestradores e vítima não diluam a tensão, mas a amplifiquem. E no terceiro ato… que terceiro ato! Os espectadores vão divergir? è óbvio. Mas inegável para todos será a ousadia do diretor.

Bugonia é quase invulnerável; em qualquer canto que se olha, ele acerta. Uma sátira sobre o mundo contemporâneo com atuações impecáveis e uma direção que reafirma o talento de Lanthimos como cronista do absurdismo humano, mesmo quando este absurdo começa a se parecer demais com o mundo real. Me sinto BUGONIZADO!



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