49ª MOSTRA: O Beijo da Mulher Aranha; entre a dor, o desejo e o Technicolor 

Com um pé na política e outro no escapismo, Bill Condon revisita o clássico de Manuel Puig e o reinventa como um musical arrebatador sobre o poder da arte em tempos sombrios.


Em O Beijo da Mulher Aranha (2025), Bill Condon assume a difícil missão de revisitar o clássico de Manuel Puig e sua adaptação musical, criando um filme que transita entre o drama político e o espetáculo farsesco com uma ousadia que certamente marcará sua filmografia; uma obra ambiciosa, visualmente exuberante, e que surpreendentemente, encontra o equilíbrio ideal entre os mundos díspares que deseja unir: o sombrio confinamento da prisão e o brilho glamoroso do cinema em Tecnicolor.

No longa acompanhamos Luis Molina (Tonatiuh), um prisioneiro homossexual condenado por “conduta imoral”, que divide cela com Valentin (Diego Luna), um militante político torturado pelo governo. Para suportar a brutalidade do confinamento, Molina recria em sua imaginação um dos filmes de sua diva favorita, Ingrid Luna (Jennifer Lopez), O Beijo da Mulher Aranha. Entre a fantasia e a realidade, os dois homens constroem uma relação.

Condon, ao lado do diretor de fotografia Tobias A. Schliessler, aposta alto na dicotomia desconcertante entre o real e o imaginário como um dos fortes da sua roupagem desta história. As cenas transcorridas na prisão são duras, opressivas, carregadas de tons metálicos e sombras pesadas, enquanto os números musicais são repletos de cores vibrantes e coreografias clássicas que evocam e homenageiam os grandes musicais de Hollywood dos anos 40 e 50. Há uma artificialidade nos enquadramentos do longa musical presente dentro do longa que assistimos que contrasta diretamente com os enquadramentos menos chamativos do mundo real, em que a câmera se resigna apenas ao papel de uma discreta observadora. O trabalho de cor também é deslumbrante: no mundo de La Luna, tudo é vibrante, colorido, vermelho (“a cor do sexo”, como descreve Molina), e na prisão, a melancolia do cinza e do azul petróleo sufocam o ambiente. Poucos filmes conseguem ornar uma dicotomia tão bem para que ela ainda pareça uma unidade; O Beijo da Mulher Aranha é um deles.

O diretor, assim como os antecessores que contaram essa história, entende que, no fundo, O Beijo da Mulher Aranha é uma trama sobre cinema. Sobre como a sétima arte permanece na vida de quem a ama mesmo nos momentos mais sombrios, e que, por mais escapista que ela possa ser, também se comunica com as mais diversas mazelas do contexto em que está inserida. Dentro do longa, Molina e Valentin interpretam o longa fictício de Ingrid Luna de formas diferentes; uma visão mais romântica e outra mais politizada — e nenhuma das duas está “errada”. Essa é a mágica deliciosa do cinema e como é bom assistir a um filme que fale com propriedade sobre ela.

Quando se fala sobre o longa, todos os elogios se voltam a Jennifer Lopez. A atriz, com uma carreira controversa e insucessos subsequentes nos últimos anos, atraiu um buzz de Oscar por sua interpretação aqui. De fato, Lopez é ótima; ela canta e dança com um magnetismo impressionante, seja no dance off de sua personagem Aurora ou no fabuloso número Kiss of the Spider Woman, que se assemelha a um glorioso videoclipe dentro do filme (digo isso no melhor dos sentidos). Ela preenche a tela e a domina com uma presença arrebatadora, porém, muito disso se deve ao fato de que Lopez não tem necessariamente um papel para interpretar aqui. Aurora, Ingrid Luna e a Mulher Aranha não são personagens construídas com camadas complexas, mas sim, arquétipos de divas hollywoodianas em que a atriz é formidável em dar corpo. Lopez é incrivelmente soberba no que se propõe aqui, e talvez, ela até possa vislumbrar um futuro mais artístico na Broadway, mas se este filme é de alguém, esse alguém é Tonatiuh. Sua performance como Molina poderia facilmente descambar para o caricato, mas há uma delicadeza no ator que torna sua entrega muito mais verossímil; Molina tem muito a dizer por trás de seu comportamento extravagante e divertido, sendo, além de um alívio cômico altamente eficiente, a âncora emocional que nos prende ao filme até o minuto final. Nos números musicais, o que Tonatiuh oferece é um presente, desde músicas mais singelas como She’s a Woman ao estonteante número final Only In The Movies, onde eles nos encanta com toda a potência de sua voz. Tudo que ele toca no longa, se torna ouro.

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Infelizmente, se em Lopez e Tonatiuh temos pontas muito bem amarradas, Diego Luna, está aqui no automático “pressão baixa” em um papel de mais um revolucionário carrancudo. Praticamente não há diferença entre Valentin e o seu Andor, de Star Wars. Quando ele canta então… Ainda bem que temos apenas um solo seu em todo o longa.

Sobre o aspecto musical, inclusive, Condon toma a decisão ousada de manter todo conteúdo musical da peça apenas no filme fictício dentro do filme. Somente dois números musicais extrapolam a prisão (os ótimos Where You Are e Visit). Pode parecer uma escolha engessada, afinal, o musical ficaria presente apenas no longa dentro do longa, mas essa opção amplifica ainda mais a potência do drama na prisão. A força do filme está em sua coragem de manter viva a essência política da história, apesar de todo o glamour Hollywoodiano. Aqui, a opressão e a marginalização seguem sendo o cerne do enredo. Condon não suaviza a dor da prisão com a música, mas, ao mesmo tempo, permite que o poder da arte surja com mais força através do musical que permeia a mente dócil de Molina. Isso só funciona graças ao excelente trabalho de montagem do longa, que consegue criar transições que fazem o espectador mergulhar plenamente em ambos os universos descritos aqui. Quando a câmera dança com Lopez ou quando o mundo fantasioso de Molina se sobrepõe à brutalidade da cela, é onde O Beijo da Mulher Aranha encontra sua potência.

O Beijo da Mulher Aranha é daquele tipo de trabalho onde se vê uma entrega genuína de todos os lados. Condon nos mergulha em uma experiência híbrida, entre o sonho e o pesadelo. É como a vida e o cinema: momentos de dor, sofrimento, agonia, loucura e desejo entrelaçados em um lindo sonho em Technicolor. Sublime.

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