Os segundos iniciais de Hollywood 90028 me deixaram com expectativa de ver um exploitation sujo e diabólico, filme vagabundo daqueles produzidos à torto e à direito no cinema americano dos anos 1970. Os planos que abrem o filme, uma sequência de travellings, provavelmente filmados de um carro em movimento, seguindo o protagonista andando pela multidão em ruas sujas registradas em planos alternados a partir de fusões um tanto quando descuidadas, pareciam confirmar que tratava-se de um daqueles filmes feitos sem muita sofisticação, apenas uma câmera, uma equipe pequena por trás, alguma nudez e violência gráfica.
Poucos minutos depois o filme me sinalizou que aquilo poderia ser diferente. Em uma cena de sexo, um sem número de planos entrecortados do mesmo gesto: a mão do homem subindo pelo corpo da mulher. Plano detalhe, plano próximo, plano aberto. Diversos ângulos. A princípio, parece quase que a repetição de uma mesma ação, fragmentada em pontos de vista diferentes pela decupagem. Soa redundante, quase um erro. Mas chama a atenção, grita que há algo ali que te pede para olhar mais uma vez. Aquela mão passeando por aquele corpo. A câmera registrando tudo. Talvez isso funcione como uma pista de que este não se trata de um exploitation comum.
A começar por ser o único longa-metragem de Christina Hornisher, diretora desbravando uma indústria que até então tinha poucas mulheres - e me refiro aqui à indústria do cinema de mau gosto, que teve célebres mulheres atrás das câmeras mas ainda assim poucas. Mas para além de ser uma questão de olhar - uma mulher dirigindo um filme sobre um homem que filma -, me parece que Hollywood 90028 é antes de tudo um filme sobre gesto. O gesto do corpo, da cidade, dos afetos. Na trama, Mark é um operador de câmera que sonha em trabalhar na indústria do cinema, mas só consegue empregos em filmes pornográficos vagabundos. No trabalho, conhece várias garotas com quem posteriormente sai e depois estrangula, até que se encanta por uma delas.
É uma história de amor com gostinho de tragédia aos moldes das que estouraram durante a Nova Hollywood, período em que um bando de cineastas jovens e cinéfilos, consumindo filmes feitos em várias partes do mundo, resolveram chacoalhar a forma de se fazer cinema na América. As maiores influências dessa geração talvez sejam o neorrealismo italiano e a nouvelle vague francesa - o que significa que o cinema hollywoodiano dos anos 1970 vai sair do estúdio e da linearidade narrativa para a realidade da câmera nas ruas, da vida acontecendo diante da lente, entrecortada por uma montagem furiosa que naquele momento soava revigorante, revolucionária. É comum ver ecos de Acossado e O Demônio das Onze Horas, por exemplo, em filmes desse período. Não seria diferente em Hollywood 90028, que no fim revela-se antes de tudo uma história de amor em meio à melancolia da cidade. Essa melancolia da cidade coloca Los Angeles como um lugar de desesperança, espaço maldito onde os sonhos vão para morrer - a certa altura torna-se fácil entender de onde vem a trilogia de Ti West com a personagem Maxxxine e toda a sua relação com a indústria e a cidade.
A cidade, aliás, é um elemento especialíssimo dentro do filme, porque ela vai atravessar a busca afetiva do personagem. É quase como se o filme tentasse de um jeito agridoce costurar essa relação entre tesão e espaço urbano, gastando tempo com planos que privilegiam desde a arquitetura de Los Angeles até as diversas placas e letreiros de suas casas noturnas. Nesses momentos, enquanto discute especulação imobiliária e as mudanças que traz à paisagem urbana, o filme acaba sendo também um interessante documento de seu tempo, em especial pelo trabalho quase arqueológico que exerce sobre a relação entre desejo e olhar em uma época pré-internet. Soa pré-histórico se comparado a hoje, em que a pornografia encontra-se na palma da mão, a um clique de distância. Em um mundo sem internet, a libido escoava para uma escopofilia que exigia esse deslocamento até a videolocadora, a banca de revistas, o bar de strip-tease, o puteiro.
Em determinado momento o personagem explica sua relação com a câmera e seu interesse pelo cinema a partir da afirmação de que é impossível se esconder a verdade da câmera. A lente como um olho que tudo vê. O cinema como máquina de verdade. Tudo isso visto menos como A Tortura do Medo do que poderia parecer, porque o filme sequer parece interessado nas mortes - sempre encenadas de um jeito protocolar e distanciado, apático, sem tesão ou gozo. O barato do filme parece ser outro, Christina olha para esses personagens navegando pela cidade com o interesse de uma criança que põe uma lupa sobre a formiga.
Assistindo, pensei muito no cinema brasileiro da Boca do Lixo. Especialmente o cinema de Jean Garrett, que em determinado momento também foi se interessar por personagens que vivem através da imagem, que desejam a partir da câmera. O Fotógrafo, filme que Garrett lançou em 1980, talvez fizesse uma sessão dupla curiosa com este filme aqui, na medida em que ambos os protagonistas veem o próprio desejo ganhar asas diante do não-lugar que é possibilitado por conta de um estúdio (de foto ou filmagem).
Estabelecem-se aí relações que envolvem olhar e ser olhado, tudo isso observando também o que é ser mulher no falso mundo do cinema de sexo. A verdade do cinema, a mentira do sexo, tudo isso entrelaçado em um filme estranho, especialmente porque nunca se apresenta como o exploitation que julguei que seria. É tudo muito mais amargo, agridoce, singelo do que, a princípio, deveria. E aí vem o final, que conta com um dos planos mais impactantes que vi no cinema nos últimos anos. A sensação do começo, de que aquele era um filme de uma equipe que não sabia direito o que estava fazendo, se esvaiu.



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