
O Agente Secreto do Kleber Mendonça Filho era um dos filmes desse ano que eu mais estava ansioso. Gosto muito do cinema do Kleber, acho ele dos autores mais interessantes do cinema brasileiro atual, O Som Ao Redor (2013) particularmente é um dos meus filmes brasileiros favoritos do século, adoro os curtas–metragens dele. Tenho ressalvas em diferentes níveis a Aquarius (2016), Bacurau (2019) e principalmente Retratos Fantasmas (2023), mas gosto também em diferentes níveis dos três filmes. Tenho uma opinião positiva não só sobre ele como cineasta, mas também do trabalho dele como crítico de cinema, programador, pensador e apaixonado por cinema.
Assisti O Agente Secreto na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, entrei muito empolgado na sala e fiquei um tanto quanto decepcionado com o filme. Não por motivos externos, escolhas estilísticas, anticlímax e nem pela minha expectativa, mas sim porque vejo problemas muito graves nele do ponto de vista de dramaturgia e de linguagem que abalam a minha experiencia com o filme no seu todo. E mesmo assim, eu não achei ele um filme ruim, não consigo dizer que ele é um filme ruim, pra mim O Agente Secreto é “totalmente ok” – exatamente o jeito que eu o descrevi após a sua sessão – e cheio de qualidades admiráveis e empolgantes que eu tratei em todos os textos que escrevi sobre ele, textos esses que também contém diversos elogios ao filme assim como contém diversas questões negativas que eu vejo nele. Textos que, na minha opinião claro, apresentam tudo isso de forma firme, mas ponderada e respeitosa.
Porque diferente do que muitas pessoas querem fazer parecer é possível ver coisas maravilhosas e coisas horríveis no mesmo filme. As vezes na mesma quantidade. Na mesma intensidade. Existem diferentes níveis e graus de filmes entre “obras–primas” e “atrocidades” mesmo que muita gente tente fazer parecer que só é possível “amar” ou “odiar” algo. Vi O Agente Secreto na Mostra na estreia dele lá, tive essa reação pouco empolgada ao filme e surgiram lá outras reações mais negativas ou pouco empolgadas sobre ele. De críticos, cinéfilos, o crítico de cinema Sérgio Alpendre mesmo fez, já depois disso tudo, um excelente texto sobre o filme na Folha de São Paulo em que ele é positivo e elogioso ao filme, mas não se empolga com ele e cita defeitos graves.
Isso foi o suficiente para aparecem – por pouco tempo é bom que se diga – uma parcela tanto de algumas das pessoas apaixonadas pelo filme e de pessoas que não viram, mas já queriam estar apaixonadas por ele completamente revoltadas com isso como se isso fosse algo errado/criminoso e achando jeitos ridículos para fazerem generalizações grosseiras, sem sentido e até de mal gosto, com o objetivo que essas reações e opiniões fossem diminuídas, como se todas as pessoas fossem OBRIGADAS a amar o filme. E deixando claro: eram opiniões de pessoas que só não estavam empolgadas com o filme e citavam mais defeitos dele, nem eram opiniões negativas ou totalmente negativas (o que também não teria problema) e já houve essa reação. O que mostra que as pessoas não estão interessadas com os argumentos que são dados e a linha desses argumentos, e sim em como isso tem que validar obrigatoriamente a própria opinião dessas figuras ou a opinião que elas desejam ter.

As pessoas têm todo o direito de amarem O Agente Secreto, defenderem o filme, se encantarem, se emocionarem, acharem ele um filmaço, uma obra–prima, um dos melhores filmes brasileiros já feitos, a segunda vinda de Cristo, o salvador da pátria, escreverem/falarem mil maravilhas sobre ele e só verem qualidades no filme, porém essas mesmas pessoas tem que entender que elas também têm que coexistir num mundo onde vão haver pessoas com visões opostas ou até totalmente opostas sobre o filme. E elas não são “inimigas” e nem tem necessariamente tem motivos “ruins” para acharem o que acham. E essas pessoas também têm todo o direito de expor e argumentar o ponto de vista delas sem que isso pareça um crime.
E dentro desse mar de opiniões e pontos de vistas é possível haver excelentes críticas tanto falando bem do filme, quanto falando mal, assim como vai haver péssimas críticas. Normal. Eu por exemplo já li excelentes críticas positivas de colegas meus sobre O Agente Secreto. Mas também já li excelentes críticas mais negativas sobre o longa–metragem, e li péssimas também dos dois jeitos. Eu não penso, nunca disse e jamais diria por exemplo que as pessoas que amam o filme estão amando ele só por causa do discurso que o longa–metragem tem, do que ele representa, de questões externas e porque são emocionadas, então porque uma parcela das pessoas que ama o filme se sente no direito de falar que quem não ama o filme se incomodou com ele porque é “sudestino”, porque é “contra e se doeu com a denúncia do filme” ou pra ser “diferentão”?
Obviamente a cinefilia e a crítica tem problemas seríssimos de xenofobia, isso se apresenta na relação e opiniões sobre vários filmes, claro que vai ter muita gente do Sudeste e do Sul que vão se doer com o que o filme diz, porém é muito necessário diferenciar isso de visões que só dizem respeito ao funcionamento dos filmes mesmo, como eles se executam, que apresentam fundamentos pra sustentar isso e não usar essas questões como uma desculpa para se blindar obras pelos lugares que elas vem e pelas pessoas por trás delas colocando todas as críticas negativas e não empolgadas no mesmo balaio sem separar o joio do trigo.
Sou um homem negro e eu amo Pecadores (Sinners) do Ryan Coogler, vi opiniões e críticas sobre o filme que pra mim passam claramente por uma lógica racista, mas jamais seria irresponsável e tonto de falar que as opiniões negativas e não empolgadas sobre o filme são todas baseadas em racismo ou achar que não é possível se fazer boas críticas a ele sem ser assim (independente se eu concorde com elas ou não) ou achar que todos que não amam o filme são racistas. Isso é uma questão comum no debate sobre filmes feitos por minorias sociais ou com essas especificidades locais.

Porque esse tipo de coisa só cai num maniqueísmo irreal e num argumento fácil de muleta que banaliza questões muito importantes e delicadas. Maniqueísmo esse que é cheio de injustiças cometidas: Bacurau por exemplo e outros filmes do Kleber são extremamente populares em São Paulo, existem diversas pessoas de São Paulo e outros lugares do Sul/Sudeste que estão amando o filme, que amam o cinema do Kleber, que amam filmes de outros lugares, existem pessoas no Nordeste que também não amam esse filme, que não amam o cinema do Kleber, as coisas não são homogêneas como querem fazer parecer e um tanto quanto ridículo vencer um homem merecidamente super bem–sucedido e cheio de privilégios como o Kleber Mendonça Filho como um “coitadinho” contra o “Sudeste malvado”.
Kleber é um artista alguém que pode ser tanto exaltado quanto problematizado como qualquer artista, independentemente de qualquer coisa. Claro que eu, sudestino, nunca vou me relacionar com os filmes do Kleber como alguém do Nordeste, mas isso não quer dizer que eu não possa me relacionar com o filme também de outras formas muito intensas por outros lugares e que os filmes não possam ter defeitos e qualidades para além disso. E de novo: as pessoas têm o direito de se relacionarem com o que quiserem. Assim como têm todo o direito de questionarem o que quiserem. Questionar a arte é vital. E o que mostra se esse questionamento se segura ou não é como ele é embasado, construído e colocado.

Concordo que existem pessoas que já vão ver O Agente Secreto fechadas de modo automatizado para não gostarem pelo “status” que o filme e o Kleber ocupam no cinema em geral e no cinema brasileiro. E expor isso em seus textos dessa mesma maneira. Mas do mesmo jeito eu tenho plena certeza que tem pessoas que só não acharam ele tudo isso, que estavam abertas pra ele e tem motivos justos para isso. Eu li absurdos arrogantes como se “todas as pessoas que não amassem O Agente Secreto falassem mal de todos os filmes premiados internacionalmente e que são populares”, o que é curioso já que nessa linha poderia se dizer em resposta a isso que “as pessoas amando O Agente Secreto só estão amando o filme porque ele foi ganhou prêmio em Cannes”, o que também é uma generalização injusta claro.
Só posso falar de mim, mas só esse ano mesmo eu amei por exemplo Foi Apenas um Acidente (یک تصادف ساده), Uma Batalha Após A Outra (One Battle After Another), o já citado Pecadores e outros exemplos. Ano passado eu gostei muitíssimo do Ainda Estou Aqui do Walter Salles. Esse ano eu adorei O Som da Queda (In die Sonne schauen), filme que ganhou prêmio em Cannes e que muitos amigos detestaram. E nem por isso eu fiquei irritado com esse fato e tentei blindar ele de críticas negativas. Assim como claro eu também desgosto e não me empolgo com muitos outros filmes que são premiados e são populares. Eu odiei por exemplo Sirāt, um filme divisivo, mas aclamado que ganhou prêmio em Cannes no mesmo festival que premiou O Agente Secreto, O Som da Queda e Foi Apenas um Acidente.
Um filme ser validado por bilheteria, a maioria da crítica, crítica internacional, festivais e prêmios não torna que ele seja imune às outras percepções mais desfavoráveis de outros críticos e outras pessoas que pensam diferente num dissenso. E isso não torna essas críticas e opiniões “inferiores”. Dependendo do autor pode se ter uma excelente crítica negativa sobre um filme majoritariamente aclamado e uma crítica péssima positiva sobre esse mesmo. Tudo é uma questão de construção.
Ano passado o Inácio Araújo, um dos melhores e maiores críticos do Brasil, fez uma crítica mais negativa sobre Ainda Estou Aqui na Folha e foi também atacado. E ele fez um dos melhores textos que li sobre o filme (mesmo eu tendo gostado muito dele e discordando de muitas coisas que ele fala). E isso rolou com muitas pessoas que não gostaram ou tiveram questões com Ainda Estou Aqui. Existe infelizmente um sentimento que se confunde com uma valorização do cinema brasileiro que é esse protecionismo imaturo de impor uma obrigação de amor por ser brasileiro, principalmente quando ele é o filme brasileiro hypado da vez. Ainda mais quando ele está cotado pra temporada da premiação, o que resulta num ufanismo bobo.

Uma das questões de se valorizar o cinema brasileiro de fato é entender que ele não é inferior a nenhum cinema por ser brasileiro, um preconceito idiota, que ele é capaz de fazer obras–primas como também é capaz de fazer filmes horríveis como filmografia de qualquer país, mas também é necessário entender que filmes brasileiros podem ser criticados, tratados e questionados como qualquer outro filme. Sem panos quentes, sem café com leite e sem receios.
E qualquer tipo de filme brasileiro pode ser questionado e apontado não só os “alvos fáceis”: a comédia preguiçosa da vez, a cinebiografia genérica, o filme tosco comercial que viraliza em rede social, mas também o cinema de prestígio autoral brasileiro que alguns críticos insistem em tratar como “intocável”. E óbvio nós fazemos desde sempre filmes excelentes, todo ano temos filmes fantásticos, mas também temos filmes que não são tudo isso e que são ruins em todos os estilos e espaços.
Não sou o dono da verdade, ninguém é, acho que as minhas críticas sobre O Agente Secreto e os meus apontamentos sobre o filme podem ser tão questionados quanto o próprio filme e as pessoas têm todo o direito de discordar de mim e defender o filme, o problema é blindar ele de outras opiniões, tentar interditar qualquer debate tachando coisas graves e mentirosas em quem pensa diferente e tratando discordâncias como ofensas pessoais ou falhas de caráter. Isso denota uma falta de maturidade e uma insegurança quanto o valor das suas próprias opiniões.
O bom é termos diversas opiniões sobre O Agente Secreto circulando no mundo, críticos criam “fortuna crítica” para a posteridade e ela não pode ser resumida numa linha só, a disputa entre elas é feita dentro de como esses argumentos são colocados e de como eles provocam as pessoas. Isso é crítica. Crítica não é indireta de rede social ou se doer porque alguém não amou um filme que você amou. O nome disso é blindagem e imaturidade.



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