
O processo de análise e repouso sobre uma obra é um dos atos mais bonitos de se presenciar. Esse simples e, ao mesmo tempo, profundo exercício, pode se manifestar de diferentes formas, seja através da escrita ou da imagem, ou simplesmente ao vocalizarmos sobre o que estamos sentindo. Como uma sessão de terapia.
Nesse sentido, “Os Imperdoáveis” (1992) consegue meditar não somente sobre uma história, um personagem, mas sobre um caminho trilhado por muitos desde o surgimento do gênero faroeste e que culmina justamente aqui, afinal de contas, o que vem depois para cada um daqueles homens, seja ele bom ou mau? Qual o custo de cada um de seus atos? Há de alguma forma um caminho para redenção? Existe perdão no Velho-Oeste?
Assim, Clint Eastwood, que durante sua extensa carreira, ao longo de anos interpretando personagens como o Pregador, em “Cavaleiro Solitário” (1985), o Estranho, em “O Estranho sem Nome” (1973), Josey Wales, em “Josey Wales, o Fora da Lei” (1976), ou o pistoleiro sem nome na trilogia dos dólares, interpreta aqui um homem reformado, William Munny, um ex-fora da lei, que tenta esquecer seu passado vivendo em uma pequena fazenda junto de seus filhos. No entanto, ao ser convencido a voltar a sua antiga vida, entra em contato novamente com memórias que contam uma história muito diferente da qual ele havia se acostumado na última década, cercada de violência e mortes.

O passado e o presente estão sempre em conflito, desde o princípio até a sua conclusão, quase como se fosse possível ver toda a bagagem carregada por cada uma daquelas pessoas e o que as levaram até ali. Cada um parece ter um objetivo claro, simples, talvez egoísta ou altruísta, dependendo do ponto de vista, mas ainda assim dispostos a executar a sentença pela qual serão bem recompensados.
Contudo, é preciso antes estabelecer qual o catalisador para essa jornada, que se dá em uma pequena cidade chamada Big Whiskey, em Wyoming, onde uma prostituta é brutalmente mutilada por dois homens, que são soltos pelo xerife da cidade, Little Bill (Gene Hackman), a partir da cessão de alguns cavalos ao dono do estabelecimento em que estavam, pois as mulheres seriam a sua propriedade, que fora agora avariada por aqueles dois rapazes. Essa fria transação entre homens, leva essas mulheres a procurarem por uma solução e oferecer uma recompensa para quem os matasse.
Isto posto, o personagem de William é um viúvo que perdeu a sua esposa, que lhe dera um propósito e a chance de recomeçar. No entanto, agora só, ele é convocado por um aspirante a fora da lei, o jovem Schofield (Jaimz Woolvett), que possui ambição mas ainda parece não ter a experiência necessária para completar tal missão sem ajuda. Mesmo ainda não convencido totalmente, William procura por Ned (Morgan Freeman), seu antigo parceiro, que parece também viver uma vida confortável, mas ao mesmo tempo monótona.
Dessa forma, se constitui o trio que vai em direção a essa pacata cidade. De um lado há a busca de justiça pela mulher desfigurada, uma chance de remediar uma vida de atos abomináveis, por outro a recompensa monetária, que faz deste trabalho um modo de vida, que pode garantir um futuro próspero, mas desconsidera completamente os riscos.

Nesta trilha que percorremos até o objetivo, gradativamente se explora mais sobre o passado, nas conversas e nos silêncios, que revelam detalhes de eventos e traumas ainda escondidos no olhar perdido de William. A ideia de perseguir uma vida como essa, é uma dádiva num mundo que oferece pouco espaço para se pensar no futuro, porém não deixa de ser uma maldição, que deixa traumas a serem carregados eternamente.
No final do dia, os sons de cada tiro revelam o peso de suas ações, o ato de puxar o gatilho tem um significado e encontrar os motivos para apertá-lo não são tão simples quando se considera o custo. Um alvo nas costas por toda vida, sem paz ou propósito. Ao passar anos refletindo sobre o seu passado e todo o mau que já cometeu, o que resta no final de tudo? A busca pela redenção, em teoria, daria um fim para a violência que o persegue, mas e se não for o bastante?
Na tentativa de encontrar o perdão pelos males que já cometeu, William acaba se vendo novamente em um caminho sem volta, em que encarna mais uma vez a figura que já foi um dia e que ainda é — um "anjo da morte", como ele próprio cita. Um ser intimamente atrelado ao fim. William, então, não vê outra saída a não ser retornar para casa, resta a ele começar de novo, tentar mais uma vez, mesmo que o desfecho o leve, inevitavelmente, ao mesmo lugar. No crepúsculo, ele encontra algum conforto.
Ainda assim, as cicatrizes permanecem.



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