Alpha e a Melancolia do Fim 

Ao se afastar das estruturas narrativas mais marcadas de seus filmes anteriores, Julia Ducournau desacelera e reflete sobre uma das maiores pragas que já atravessaram a humanidade - anterior à COVID-19, mas nunca superada. Em Alpha, essa reflexão se constrói como uma alegoria inserida em um microcosmo sufocante, que remete a um mundo pós-apocalíptico abandonado à própria sorte. Ainda assim, o filme consegue ser bonito e melancólico na mesma proporção e intensidade. A fotografia e o design de produção se impõem como trabalhos primorosos, evocando uma repulsa constante àquela “casca” que envolve o corpo humano - uma superfície que já não protege, apenas evidencia fragilidade.


O horror corporal permanece, mas agora se desloca. Em vez de concentrar-se na experiência íntima da transformação, como em Raw ou Titane, Ducournau amplia o escopo e trabalha em escala coletiva. A doença que atravessa Alpha não tem nome, tampouco uma época específica para chamar de sua: tudo já aconteceu, está acontecendo e continuará a acontecer. Trata-se menos de uma ameaça identificável e mais de um estado permanente, cíclico, que se alimenta da negligência e da lentidão institucional. Nesse gesto, o horror deixa de ser apenas uma linguagem estética e passa a funcionar como comentário político direto sobre a falência dos sistemas de cuidado.
Se em seus trabalhos anteriores o corpo era um campo de batalha íntimo - atravessado por desejo, violência e metamorfose -, em Alpha ele se dilui na paisagem e passa a funcionar como sintoma de algo maior. Ducournau parece menos interessada em acompanhar trajetórias individuais e mais em observar o esgotamento de um coletivo que já não reage. O filme não constrói heróis, tampouco busca redenções. Há apenas corpos que resistem por inércia, movendo-se em um espaço onde o cuidado foi substituído pela sobrevivência automática.


Essa escolha reverbera diretamente na mise-en-scène. Os enquadramentos frequentemente comprimem os personagens contra paredes, corredores e superfícies opacas, como se o próprio espaço conspirasse contra qualquer tentativa de respiro. O som - abafado, irregular, por vezes quase ausente - reforça essa sensação de clausura, transformando o ambiente em um prolongamento do estado físico dos corpos. Não há conforto visual, mas também não há espetáculo gratuito da dor. Ducournau filma a decomposição com uma estranha delicadeza, consciente de que o horror mais perturbador não está na deformação explícita, mas na normalização do colapso.
A ausência de um nome para a doença não funciona como artifício de mistério, mas como uma recusa ética. Ao não delimitar origem, tempo ou causa específica, Alpha impede que o espectador se distancie por meio da categorização. Não se trata de uma enfermidade do passado, tampouco de uma distopia futura: é um estado contínuo, sustentado pela incapacidade estrutural de resposta. A doença existe porque o mundo permite que ela exista. E, nesse sentido, o filme não fala apenas de contágio, mas de abandono.


O que Alpha expõe com frieza é a transformação do corpo em estatística. Quando a vida passa a ser gerida por protocolos falhos, decisões tardias e discursos vazios, o humano se torna descartável. A dor perde nome, a morte perde peso, e a responsabilidade se dissolve em camadas burocráticas que jamais se encontram. Ducournau não aponta culpados individuais porque compreende que o problema é estrutural - e, justamente por isso, mais difícil de enfrentar. Seu cinema não acusa; observa o estrago já feito.
Essa sensação de sufocamento não se restringe à ficção. Recentemente, em Manaus, no dia 23 de novembro de 2025, uma criança de seis anos - Benício Xavier - morreu por negligência médica após a administração incorreta de adrenalina por via intravenosa, quando o procedimento adequado deveria ter sido por inalação. Uma médica formada e uma técnica de enfermagem, em atividade há apenas seis meses, carregam agora uma culpa imensa que dificilmente encontrará uma justiça à altura da tragédia. O caso, mais do que um erro isolado, escancara o jornalismo predatório e a falência das instituições públicas, sociais e privadas. A indignação e a sensação de asfixia são pungentes, ecoando diretamente o mal-estar que Alpha imprime em cada plano.
Benício faria sete anos no dia 25 de dezembro.


Há, ainda, uma melancolia profunda atravessando o filme. Não a melancolia da perda recente, mas aquela que nasce da consciência de que algo essencial foi rompido há muito tempo. Alpha não chora seus mortos; convive com eles. A ideia de luto aqui é deslocada: não se trata de superar a ausência, mas de aprender a existir em um mundo que já não sabe cuidar dos seus. Essa melancolia silenciosa confere ao filme uma beleza incômoda, quase cruel, justamente porque não oferece consolo nem fechamento.
Ao fim, Alpha se impõe como o filme mais contido - e talvez o mais devastador - da filmografia de Julia Ducournau. Ao abdicar da explosão narrativa e da provocação frontal, a diretora encontra um horror mais difuso, mais próximo da realidade cotidiana. Um horror que não grita, mas sufoca. Um horror que não se encerra nos limites da tela, porque continua operando fora dela: nos corredores de hospitais, nas manchetes sensacionalistas, nas decisões adiadas.


Ducournau filma um mundo em que o corpo coletivo já não aguenta mais, mas ainda assim segue em frente, por pura inércia. Alpha não propõe cura, tampouco redenção. Seu gesto é outro: permanecer olhando. Porque, talvez, enquanto insistirmos em desviar o olhar, a doença - sem nome, sem tempo e sem rosto - continuará a se espalhar.

LIGHT

Ilumine e aumente a visibilidade — seja o primeiro!

Comentários
Bombando
Novo
comments

Compartilhe sua opinião!

Seja a primeira pessoa a iniciar uma conversa.