Hamnet: um melodrama incompetente 

Hamnet: The tragic true story behind the new Shakespearean film |  DiscoverBritain.com

O melodrama é a exacerbação do drama, ele tem como foco intensificar as emoções de um drama, explicitar até o limite as suas intenções emocionais na construção de um sentimentalismo rasgado para envolver aqueles que estão assistindo a obra, priorizar a emoção em primeiro lugar, a emoção mais clara, mais primitiva e se utilizar de clichês e conceitos clássicos de uma linhagem narrativa para embalar tudo isso. Existem diferentes modos de se fazer melodrama. Cineastas extremamente diferentes entre si como Douglas Sirk, Steven Spielberg, Clint Eastwood, Ida Lupino, Yasujiro Ozu, Vincent Minnelli, Ang Lee, Pedro Almodóvar, D.W. Griffith, F.W. Murnau, James Cameron, Michael Mann, Todd Haynes, David Lean e muitos outros fazem melodramas, mas cada um tem o seu jeito de fazer isso e a sua forma de conduzir esse tipo de filme.

O melodrama sempre vai lidar com essas matrizes que eu falei, sempre vai carregar no sentimentalismo e na emoção, mas ele pode ser tanto mais intimista ou mais açucarado, tanto pode ser ou mais leve ou mais suave, ou mais cotidiano ou mais sombrio, mais introspectivo ou mais grandiloquente ou mais tons acima. O melodrama não é bagunça. Cinema é manipulação até quando não estamos falando de melodrama. Todo filme busca te manipular para que você se envolva dentro da sua imersão ou dos seus objetivos.

Mas até uma obra que busca carregar no sentimentalismo e ter esse exagero emocional precisa fazer isso de modo orgânico, de modo exato, saber até onde pode ir nas suas cenas, quando parar para depois voltar no momento certo da emoção, quando continuar, saber não forçar a barra, precisa saber equilibrar essa construção emocional, saber ter uma coerência interna do tom escolhido, saber colocar algum nível de profundidade nessas intenções, de inteligência e precisa saber dominar esse tipo de narrativa pra não cair num mero dramalhão apenas apelativo e primário. Ser um melodrama não desculpa um filme automaticamente desses fatores e desse lugar negativo que ele pode cair. Isso é o que difere um melodrama poderoso e um dramalhão vagabundo. Todos querem conseguir o choro, mas a questão é COMO você o consegue. Se é pelo choro fácil ou pela sua própria força.

Review: 'Hamnet' is a heartbreaking testament to the power of art — Cinema  Sugar

E Hamnet da Chloé Zhao, com toda a sua técnica pomposa e embalagem (prestem atenção nessa importante palavra: “embalagem”) de “sensibilidade”, está muito mais pra um dramalhão da pior espécie. Enquanto estava assistindo ao filme, ele me lembrou um certo tipo de filme de Oscar muito celebre nos anos 90 e 2000. E não estou falando curiosamente de Shakespeare Apaixonado (Shakespeare in Love) não, uma comédia romântica de época bem leve que também falava sobre a vida amorosa de William Shakespeare de um jeito muito diferente desse aqui. Estou falando de filmes como Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind) e O Paciente Inglês (The English Patient): esse valor de produção alto e de técnica robusta e austera com alguns quadros de composições volumosas inseridos rapidamente em prol de uma execução quadrada e careta desses fatores e para além disso tanto dos seus aspectos cinematográficos quanto dos narrativos chegando no pior do que um academicismo tem a oferecer (aquela ideia de tudo estar “no lugar certo” e de tudo ter “bom gosto” sem um pingo de imaginação do que envolve isso), em prol de um veículo de interpretações que são só hiper dramatizadas, sempre hiper sofridas e com gravidades dramáticas nas suas dores tão sem nuances que acabam parecendo artificiais.

Zhao busca uma ideia de poesia cênica e lirismo visual para expor isso, mas tudo fica só no superficial. O contanto com a natureza, com uma selvageria interna, libertadora e a relação isso com o feminino acabam ficando nesse lugar de Google Fotos de momentos pseudo Terence Malick com planos rápidos demais de jogadas de câmeras rápidas demais entrando em florestas em planos abertos aleatórios que não duram o suficiente nem pra te envolver e nem pra mostrar esse contato que é proposto pelo filme, mas nunca desenvolvido.

Hamnet | Movie session times & tickets in Australian cinemas | Flicks

Ângulos aleatórios e uma repetição de planos abertos curtos, centralizados e closes preguiçosos na face dos atores enquanto eles são cercados por essa embalagem bonita de luz natural e uma textura de cor leve que nunca expõe nada que não seja uma “beleza pela beleza” e ideias que contradizem o resto do filme. O mesmo acontece no roteiro com o romance dos protagonistas, suas relações com o filho e seus dramas pessoais: as coisas são apresentadas e nunca esmiuçadas. Talvez o que mais me choque no cinema da Chloé Zhao é essa sua total falta de humanidade e a mecanização completa de como executa as coisas ao tentar fazer esse cinema humanista e auto importante, parecendo querer tocar num território muito sensível, grandioso e genuíno, que fica falso graças a mão pesada cheia de afetação levada a sério dela. Tudo é muito falso e incoerente. O que me fez apático com as tentativas de emoção do filme.

The Surprising Way That 'Hamnet' Reinvents Shakespeare - The Atlantic

Não existe nenhum respiro em nada. Tudo se constitui em prol dessa gravidade dramática pela gravidade dramática do primeiro ao último instante, o que fica artificial. Temas que o filme busca como “a arte cura”, “luto”, “maternidade” e a “terapia por meio da arte” estão ali, mas são simplesmente jogados superficialmente ou estão em cenas que se prologam de um modo tão excessivo e ao mesmo são marcadas de um modo tão professoral e frio na sua crueza buscando uma pseudo "elegância" tão pouco depurada e ao mesmo tão esquemática dentro da trama que acabam ficando constrangedoras e caricatas, como a grande morte que ocorre no filme. A grande cena da apresentação no teatro por exemplo chega ao ridículo de repetir o tempo inteiro o que estamos vendo por meio da plateia, constitui dos estratagemas mais toscos possíveis como closes chorosos sem parar, planos abertos em câmera lenta de mãos tocando indo pra cima do ator e uma trilha sonora gritante já manjada do Max Ritcher, o que que deixa tudo mais patético. O exagero emocional do filme é pedante e a sua “sensibilidade” é apelativa. Ou seja ele fica num fatal e irritante meio do caminho.

Ao invés do choro eu acabei achando pela execução aquilo tudo risível. Tudo se constitui desses estratégias de direção e montagem tão caricatas – sem nunca admitirem ou aderirem a caricatura plena – que até a direção de atores acaba sofrendo por isso. Jessie Buckley, Paul Mescal e Jacobi Jupe estão muito ruins, tanto porque o roteiro não permite que os seus personagens existam para além de funções dramáticas esquematizadas (não existe uma cena sequer com o garoto que não se resuma na sua morte ser anunciada), o que sacrifica qualquer possibilidade deles parecem com pessoas reais, palpáveis e com relações robustas, mas também porque a direção de atores de Zhao só pede e enxerga o óbvio: a contemplação silenciosa marcada, o grito, o choro, o sofrimento, o anúncio artificial das coisas, o deslocamento deles daquela época e por aí vai. O didatismo do filme não é só de roteiro com o Paul Mescal repetindo sozinho e em voz alta o monologo de Hamlet numa ponte mas também no visual e na interpretação. Nesse acúmulo de intenções que nunca saem do território da intenção. De uma pretensão de bom gosto que nunca se apresenta na materialidade e que se choca com uma emoção primitiva, que isolada e sem tratamento, fica só ridícula. Não é um filme nem sisudo o bastante no seu bom gosto e nem de fato rasgado no seu melodrama. Fica só o primário das duas etapas.

Paul Mescal, Jessie Buckley-led Hamnet is a tragically beautiful tale of  historical trickery | CBC News

Outro filme de Oscar que eu pensei enquanto via Hamnet foi o Menina de Ouro (Million Dollar Baby) do já citado Eastwood. Outro melodrama super carregado com interpretações carregadas ao mesmo tempo que é muito intimista e humanista, um filme também sobre luto, perda, morte, a casualidade de uma tragédia que destrói e modifica vidas, o pré e o pós isso, a condição humana daqueles personagens, do contexto que eles vivem, do que essa tragedia se significa pra esses personagens, a dor deles, os seus sofrimentos e cheio de cenas e momentos que querem te emocionar e te fazer sentir ao extremo.

A diferença é que o filme de 2004 tem tantas nuances na sua narrativa, no seu acabamento, nos seus personagens, tantos respiros, um comprometimento com uma crueza, com uma atmosfera muito sombria, sofrida e espectral mas que também é delicada, um trabalho tão mais sofisticado com o desenvolvimento dos personagens, quem eles são, uma personalidade tão mais singular, pessoal, uma sobriedade elegante que equilibra e contorna seus aspectos mais exagerados e um tempo pra também ser suave enquanto faz tudo isso sem se envergonhar ou esconder ser um filme tão sentimental e emocional ao extremo. Por isso os cálculos e estratégias melodramáticas, manipulativas, marcadas e os tipos caricatos do filme chegam num lugar muito mais profundo e orgânico, algo que o Hamnet sonha e não consegue.

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