Estação Onze: Uma história que resiste 

Muitas jornadas são tão inesquecíveis que conseguem sobreviver as maiores catástrofes. Esse foi o caso de “Estação Onze” (2021), uma minissérie original da HBO Max, adaptada do livro de mesmo nome, de Emily St. John Mandel e que ganhou repercussão na época de seu lançamento por conta do seu contexto, envolto em uma pandemia.

No entanto, a doença em si, chamada de “Gripe da Geórgia”, possui contornos muito mais apocalípticos, levando 99% da população ao óbito e anos depois a uma nova conformidade social. Mesmo assim, o seu foco não fica relegado tão somente aos aspectos de sobrevivência nesse ambiente, ele reside em torno de um sentimento raro, mas essencial em um período cercado de incertezas: a esperança.

Através dela, tanto o livro quanto a minissérie conseguem trazer as suas particularidades acerca do que faz essa história tão única, seja no texto, na fala ou na imagem, tudo é muito palpável. Isso sem nunca deixar de olhar para as histórias que vivem dentro de cada um e conservá-las é, também, uma forma de voltarmos a nos conectar enquanto sociedade.

Desde que entrei em contato pela primeira vez com a minissérie, em 2021, fiquei fascinado com a história e sua conexão genuína com aquilo que estava se passando no mundo, e mais ainda a sua persistência, em meio a todos os problemas, em percorrer a trilha da arte e dos artistas que lutam para preservá-la em um ambiente nada propício. Quando pude ler o livro pela primeira vez recentemente a mesma sensação me abateu novamente, conseguindo se conectar tanto com a pandemia, o isolamento e a reflexão sobre o que vem a seguir, participando desse futuro, diferente e ao mesmo tempo que busca se reconectar com o que veio antes. Esse é o papel desempenhado pela “Sinfonia Itinerante" em suas viagens pelo que restou de um mundo fragmentado.

Dentre todas as camadas pela qual “Estação Onze” consegue discutir, tudo começa e termina no palco. O teatro é onde se inicia a jornada do ator Arthur Leander (Gael García Bernal) e os ecos de sua vida e partida que deixam marcas mais de 20 anos depois, principalmente através de Kirsten (Mackenzie Davis) e Jeevan (Himesh Patel).

Kirsten é uma das portadoras da história em quadrinhos, “Dr. Onze”, escrito pela primeira esposa de Arthur, Miranda Carroll (Danielle Deadwyler). Tendo recebido o exemplar das mãos do próprio Arthur, é possível notar a curiosidade de Kirsten, que deriva de uma aventura nunca antes vista e um refúgio lúdico para uma criança em tempos incertos. Os recortes dessa jornada, desde a concepção do mundo, as situações vividas pelo protagonista, até a influência que isso apresenta em seus desenhos, ajudam a contar parte da vida de sua autora e as situações que a rodearam, mas sobretudo como uma simples história pode servir de inspiração para a construção de um novo cenário, seja ele qual for.

Assim, eu volto mais uma vez para falar do teatro e o papel das histórias de Shakespeare que, mesmo vindas de uma época distinta, conseguem exercer uma função fundamental para nós nos reconectarmos com aquilo que há de mais puro no ser humano — a sua capacidade de empatia. Sentir e reagir a algo que seja distante o bastante para que a realidade fique em segundo plano, ao mesmo tempo que intimamente relacionado as situações e sentimentos mais sinceros.

Com isso, se faz presente nos momentos mais difíceis, como um alento de que apesar de tudo, há um caminho. A partir disso é possível aprender mais sobre aqueles que sobreviveram, apesar das circunstâncias mais desfavoráveis e contra todas as chances, eles permanecem encontrando motivos para pensar no amanhã, mas sem esquecer aqueles que se foram.

Isto posto, o leitor mais atento pode ter notado que fiz o uso do termo “foi” no início deste texto, pois justamente a produção audiovisual que discuto aqui já não está mais disponível em streaming ou aluguel digital. Pelo menos por enquanto, sendo relegada ao mesmo destino dos quadrinhos que dão origem a essa narrativa e preservada somente em sua mídia original — o livro.

Hoje, portanto, a minissérie se encontra (quase) perdida, uma relíquia guardada dos olhos do público e marcada nas mentes dos que tiveram a chance de vê-la em primeira mão. Uma história sobre o passado, o presente e, quem sabe, sobre o futuro. Sobre aqueles que continuam, mesmo sem saber como. Merda para eles!

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