O novo filme do diretor sul coreano Park Chan-wook (Decision to Leave) fez sua estreia internacional na competição do Festival de Veneza desse ano e, por ter sido recebido com críticas majoritariamente positivas se tornou o representante do país no Oscar.
Após ser demitido e humilhado, Yoo Man-su, um veterano da indústria de papel, entra em um estado de desespero e aos poucos sucumbe a loucura, enquanto busca uma alternativa para contornar o desemprego, recorrendo a medidas drásticas, por acreditar que não tenha escolha.
Em No Other Choice, Park Chan-wook retrata como a selvageria do mercado de trabalho desencadeia uma sensação de impotência perante ao sistema, fazendo com que dizimar a competição pareça ser a única forma de sobrevivência. Após perder seu emprego e o sustento de sua família, o protagonista passa a perceber que seus anos de contribuição para o mercado não valeram de nada e todo seu conhecimento adquirido pode ser facilmente substituído por novas tecnologias que carregam toda competência humana, sem suas fragilidades inerentes.

Yoo, que até então, vivia uma vida confortável de classe média alta, vê sua realidade ruir diante dos seus olhos. Um simples acontecimento – sua demissão – estremece, não só sua estabilidade financeira, como também suas relações interpessoais com as pessoas a sua volta e a própria imagem que possui de si mesmo. Tudo que lhe era familiar parece abandoná-lo e espiral de loucura a qual personagem rapidamente sucumbe parece ao mesmo tempo absurda, porém totalmente crível dentro da proposta do filme.
Afinal, faz todo sentido o sacrifício da vida alheia, no contexto daquele ambiente corporativo que não mais enxerga as pessoas como seres humanos e relega-as à condição de ferramentas para serem prontamente descartadas como lixo, assim que não tiverem mais utilidade. Yoo não é um homem mau, tampouco bom, ele é ao mesmo tempo um instrumento e um produto de um sistema do qual não consegue escapar. Ele inicia o filme vendo seus colegas de trabalho como partes de um todo, porém aos poucos passa a perceber que na lógica do sistema no qual estão inseridos, eles não são nada além de competição.
Suas ações horríveis possuem motivações nobres, que não as justificam, mas faz com que o espectador se coloque do lado dele, algo que só é possível dentro da fantasia e por isso a abordagem estética plastificada de Chan-wook funciona tão bem. Se adotasse um tom realista, mais dramático, poderia cair no mau gosto. A forma como explora o cinema de gênero – tanto a partir da comédia, quanto do thriller – cria a atmosfera perfeita para sedimentar essa aliança entre público e protagonista.

É sempre interessante perceber um cineasta de gênero que se orgulha do tipo de cinema que faz, sem usar suas pautas sociais para tentar agregar valor a uma obra vazia, como se um filme fosse seu tema. Chan-wook faz o raciocínio reverso, usa-se dos códigos de gênero para reforçar suas temáticas, torna-las visualmente cativantes e cinematograficamente relevantes.
Ainda que seja um projeto imperfeito, com um ritmo nem sempre constante, sobressaem-se os aspectos positivos: a pompa de Chan-wook para filmar suas cenas com todo cuidado artístico, construindo imagens chocantemente belas que ficam grudadas na memória, graças a elegância com a qual ele constrói a violência, sem tirar seu impacto, mas sim reforça-lo. As imagens pensadas pelo diretor são tão graciosas quanto brutais. Nada é higienizado, apesar de possuir um senso de beleza estética. É essa combinação que torna o filme tão interessante, refletindo tão bem seu realizador.
nota: 4/5
texto escrito durante a 49ª Mostra de São Paulo e originalmente publicado no site AOdisseia



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