
A pesquisa é feita em pedaços, um elemento vai levando a outro e assim por diante, até se ter uma noção sobre o objeto — ou ao menos uma hipótese. Uma história contada em partes, desconexas e, mesmo assim, essenciais. Essa é a tarefa proposta por “O Agente Secreto” (2025), mais novo filme de Kleber Mendonça Filho, que age como um grande sucessor espiritual de seu documentário “Retratos Fantasmas” (2024), que falava sobre Recife e o processo de tranformação urbana que impactou a cidade após a Segunda Guerra Mundial.
Nesse filme, Kleber nos mostra a Recife da década de 70, em meio a ditadura militar, onde acompanhamos a figura de Marcelo (Wagner Moura), professor e pesquisador que deve recomeçar a sua vida na capital pernambucana, depois de ser perseguido por figuras de poder e influência em São Paulo. Uma história de fuga, refúgio e resistência.
Uma de tantas que se sabem apenas fragmentos, neste caso deixados a partir de notícias e aúdios gravados. Marcelo, enquanto se “refugia” no complexo gerido por Dona Sebastiana (Tânia Maria), que também recebe outras pessoas perseguidas, espera angustiante por um caminho para fora do país. No entanto, o tempo vai se esvaindo na medida que chegam notícias de que assassinos foram enviados para matá-lo.

Tendo em vista esse contexto, o filme habilmente se afasta e propõe um vislumbre do presente, onde acompanhamos o trabalho desempenhado por Flavia (Laura Lufési), uma jovem pesquisadora que tenta encaixar as peças da história de Marcelo. Ao acompanharmos as recordações da voz de Marcelo, através das gravações realizadas por Elza (Maria Fernanda Cândido) — uma pessoa de contatos que possibilitariam ele começar uma nova vida — , vemos as tensões e as preocupações sobre o ambiente aumentarem, colocando em dúvida toda a operação.
No entanto, para além desse contato com a tensão que envolve esse momento, a produção abraça visualmente a cidade de Recife e, como já apontado anteriormente, expande muito do que é proposto em seu filme anterior, mostrando muito da cidade e comemorações tradicionais em um período carnavalesco, além de adentrar espaços históricos e o folclore local. Como um resgate documental, pelo olhar do protagonista podemos ter um vislumbre dessa época para além dos conflitos pessoais que não são visíveis para o público geral. Um segredo que só se faz presente quando se tem uma ideia do que ele está fugindo.
Então, mais uma vez, voltamos, agora para acompanhar o que de fato aconteceu em São Paulo. Lá ele conhece a figura do empresário Henrique Ghirotti, o seu algoz, uma figura que reflete bem o retrato de um homem que olha para a produção de conhecimento nas universidades como um grande comércio a ser explorado pelo seu mercado. Uma visão que Marcelo rejeita e entra em confronto direto com as ambições de alguém que tem o poder e os contatos necessários para acabar com a vida de quem o contrapõe.

Acho que a partir desse ponto é possível também estabelecer onde um filme como “Ainda Estou Aqui” (2024) se separa de “O Agente Secreto” (2025). O primeiro trabalha de uma perspectiva autoetnográfica uma história que mesmo na época já foi muito bem documentada, que mesmo com as pontas soltas deixadas pelo Estado no período, ainda oferece um retrato claro do que aconteceu, como aconteceu e quando. No último, temos um trabalho de resgate, realizado a partir da figura de um terceiro, Flavia, que não é uma participante daquela história ou família, mas sim alguém que está interessada em encontrar respostas a perguntas estranhas e pouco relevantes mesmo para aqueles que conviveram com Marcelo ou com o seu eu que foi deixado no passado, Armando Solimões.
Por isso, penso que na imagem de Armando com o seu filho, Fernando, há muito do que é o filme, memórias de uma história que nunca se concretizou. E, sobretudo, essas lembranças que já tão distantes e tão dispersas, acabam sendo perdidas no tempo.
Assim, a sua importância em um país que sofre em olhar para o seu passado, consolida-se nesse processo, um retrato fragmentado de uma época e local que foram deixadas de lado. Esta história, a de Marcelo ou Armando, encontra aqui o seu fim, mas quantas outras ainda não tem um destino certo? Quantas dúvidas ainda pairam.



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