Memórias Afetivas no Cinema de Horror 

Não há nada mais incrível e assustador do que assistir a um filme de horror na infância. Não sei se meus pais foram muito liberais ou simplesmente não se importavam que eu os assistia, mas minha infância foi marcada por obras como Brinquedo Assassino, Pânico, A Bruxa de Blair, O Chamado e, consequentemente, pelos pesadelos que vieram junto com eles.

Foi através do horror, ao lado dos filmes infantis, que descobri o cinema. Mais do que sentir medo, o que me fascinava era o aspecto sobrenatural, estranho e sinistro dessas histórias. Afinal, o horror já estava presente nos próprios filmes da Disney a que eu assistia. Em A Branca de Neve e os Sete Anões, por exemplo, a princesa foge de um caçador que pretende arrancar seu coração e se perde numa floresta em que os galhos parecem ganhar vida e criaturas surgem da escuridão. Em João e Maria, duas crianças são aprisionadas por uma bruxa cega que pretende engordá-las para devorá-las. Já em O Rei Leão, somos apresentados à morte através da cena traumática em que Mufasa é assassinado diante do próprio filho pelo tio. Por mais que essas histórias fossem dirigidas às crianças, o estranho, o fantástico e o macabro já faziam parte do nosso imaginário cinematográfico antes mesmo do nosso primeiro contato com o cinema de horror.

Dito isso, como não se interessar, então, por um filme em que um brinquedo mata pessoas? Em Brinquedo Assassino, o espírito de um assassino encarna num boneco que passa a aterrorizar uma família. Para mim, bastava existirem uma criança e um brinquedo no centro de história de terror para que eu quisesse assisti-lo imediatamente. Não me lembro bem de como meus pais me deixaram ver este filme, mas lembro que a versão que eu mais assisti foi A Noiva de Chucky. Embora hoje eu perceba o quanto este filme é carregado de humor adulto e piadas sexuais, o que realmente me impressionava eram as cenas em que os bonecos matavam pessoas. Apesar de parecer um fascínio um tanto macabro para uma criança, o universo de Chucky talvez não estivesse tão distante do imaginário infantil de Toy Story, onde brinquedos abandonados, mutilados e maltratados também atacavam crianças, como acontece no final do primeiro filme.

Mas a primeira vez em que fiquei verdadeiramente assustado foi com a sequência inicial de Pânico. Fascinado pela premissa de um assassino mascarado que perseguia adolescentes fãs de horror, tentei assistir ao filme sozinho através de uma fita VHS alugada pela minha irmã na Blockbuster. Quando a personagem de Drew Barrymore é assassinada e seu corpo aparece pendurado numa árvore do quintal, desliguei imediatamente a televisão.

Mais do que um choque imagético, o que me aterrorizou foi a proximidade daquele mundo com a minha própria vida. O filme mostrava uma adolescente de classe média sozinha em casa, fazendo pipoca para assistir a um filme enquanto atendia ao telefonema de um desconhecido. Quantas noites eu também não havia passado sozinho com minha irmã, vendo televisão e esperando meus pais voltarem para casa? Pela primeira vez, o horror que eu via na tela parecia possível. A ideia de que alguém poderia surgir durante a noite e nos matar deixou de parecer apenas ficção. O resultado foi traumático, e durante toda minha infância, nunca consegui dormir na casa de amigos sem meus pais, ou enquanto eles não voltassem para casa.

Talvez seja por isso que meus pais tenham passado a me proibir de assistir a esses filmes, o que apenas aumentou ainda mais meu fascínio por eles. Mesmo assim, eu continuava encontrando “versões infantis” do horror em obras televisivas como Goosebumps, Coragem o Cão Covarde e Gasparzinho. Ainda assim, não demorava muito para minha irmã ou até minha mãe levarem para casa algum lançamento da locadora, como O Exorcista ou A Bruxa de Blair. Mesmo proibido de assistir, eu acabava vendo cenas soltas enquanto eles assistiam na sala, o que foi o suficiente para ir dormir na cama de meus pais.

O tempo passou e eu fui envelhecendo, assim como minha irmã, que conseguia ver filmes de terror no cinema com uma identidade falsa. Lembro perfeitamente quando ela chegou em casa após assistir a Jogos Mortais, dizendo que tinha acabado de ver o filme mais assustador de todos os tempos. Curioso, pedi que ela me contasse toda a história, e fiquei perturbado pela premissa sádica da obra. Meses depois, finalmente consegui assistir ao filme numa cópia pirateada em DVD. Para minha sorte, meus pais entraram no quarto exatamente na cena em que um personagem corta a própria perna para fugir do assassino. Furioso e preocupado com o que eu estava vendo, meu pai arrancou o disco do aparelho e o quebrou no meio, jurando que eu nunca mais assistiria a outro filme de terror enquanto eu fosse menor. O que não durou muito tempo.

Porém, nenhum filme marcou tanto minha adolescência quanto O Chamado. Mais uma vez influenciado pela minha irmã, ouvi fascinado a história da fita amaldiçoada que matava quem a assistia sete dias depois, por uma menina que saía da televisão. Para alguém que havia crescido alugando VHS de terror na Blockbuster, a ideia de uma fita assassina parecia a coisa mais incrível do mundo. Enquanto esperava o lançamento do filme em DVD, passava horas lendo fóruns, blogs e sites obscuros sobre o longa. Havia inclusive um site brasileiro cheio de fotos de fantasmas e imagens de filmes de horror, onde encontrei as imagens do rosto desfigurado de Samara pela primeira vez. Para quem sabe do site de que estou falando, era possível até mesmo encontrar as supostas fotos dos corpos da banda Mamonas Assassinas após a queda do avião que tirou suas vidas em 1996.

Quando finalmente assisti a O Chamado, não senti exatamente medo, mas sim deslumbre pelas imagens estranhas e obscuras do filme, como a mosca saindo da televisão, os cavalos se jogando ao mar, o fio sendo puxado da garganta da personagem de Naomi Watts, e o conteúdo perturbador da própria fita amaldiçoada. Assisti ao filme inúmeras vezes, assim como outras obras que fizeram parte da minha adolescência, como O Jogo dos Espíritos, A Casa de Cera, A Vila e o remake de O Massacre da Serra Elétrica.

Curiosamente, meu interesse por filmes de terror foi diminuindo com o passar dos anos. Toda aquela fascinação que eu tinha pelo estranho, pelo absurdo e pelo fantástico no cinema de horror acabou se transformando numa fascinação pelo cinema em geral, e logo passei a assistir filmes de todos os gêneros, movimentos, décadas e países. Passei a perceber que o horror também possuía suas próprias diferenças de linguagem e estilo, e logo me vi desinteressado por muitas das obras que me acompanharam durante a vida. Alguns filmes, porém, permaneceram comigo e ficaram ainda melhores com o tempo, como A Bruxa de Blair e sua forma extraordinária de construir medo através da ausência e da sugestão. Outros se transformaram completamente, como O Exorcista, que é muito mais perturbador pelo sofrimento psicológico e espiritual de seus personagens do que pelas imagens chocantes da menina possuída.

Ainda que o horror não seja mais o gênero pelo qual sou mais apaixonado, ele continua sendo um lugar de memória afetiva para mim. Junto dos filmes infantis, o cinema de horror foi minha introdução ao cinema e ao poder que as imagens possuem de criar mundos extraordinários. Foi através dele que descobri não apenas o medo, mas também o fascínio pela atmosfera, pelo mistério e pelo estranho. Esses sentimentos ainda existem, mas de maneiras muito mais complexas e ampliadas. Quem sabe ainda eu encontre um filme de terror que me faça sentir as mesmas coisas que eu senti quando eu era criança, quando passava a noite sozinho em casa com minha irmã, esperando meus pais voltarem para casa.

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