Backrooms é tudo o que o terror atual quer ser 

Parece cada vez mais difícil inovar dentro do cinema de terror. Qualquer filme que apresente uma proposta minimamente diferente acaba atraindo uma atenção enorme, e as expectativas crescem a um ponto em que, se o resultado não corresponder, a queda será inevitavelmente grande. Finalmente voltando ao que sabe fazer de melhor, e deixando seus enlatados recentes de lado um pouco, a A24 entrega a um diretor estreante de apenas 20 anos um projeto ambicioso e estranho, mas que tinha tudo para dar certo. O projeto em questão é a adaptação cinematográfica da própria obra de Kane Parsons que, alguns anos atrás, viralizou na internet com uma série de curtas baseados na lenda das Backrooms — espaços amarelados e completamente vazios, com uma atmosfera ao mesmo tempo reconhecível, misteriosa e aterrorizante, que dominaram o imaginário da internet durante anos.

Embora cercada de mistério, adaptar essa ideia para uma narrativa de longa-metragem parecia uma tarefa complicada. O filme escolhe nos apresentar Clark (Chiwetel Ejiofor), um vendedor de móveis com sonhos profissionais frustrados e um casamento recém-desfeito que descobre, no porão de sua loja, um portal escondido na parede que o leva ao ambiente desconhecido das Backrooms. Ao longo da trama, sua curiosidade aumenta cada vez mais, fazendo com que outras pessoas, como sua psicóloga Mary (Renate Reinsve), também acabem se envolvendo e adentrando aquele lugar misterioso.

Quando se trata de um filme nascido de uma lenda da internet e de uma série de curtas do YouTube, parece natural que a melhor escolha seja colocar alguém que compreenda essa linguagem no comando. Desde Slender Man: Pesadelo Sem Rosto (Sylvain White, 2018), Hollywood tenta levar creepypastas para as telonas, mas frequentemente entrega essas histórias a pessoas que as tratam como apenas mais um filme de terror convencional. É comum que os protagonistas sejam pessoas comuns que se deparam com uma lenda online, descobrem que ela é real e passam a sofrer as consequências disso.

Além da compreensão dessa linguagem, existem vários fatores que fazem de Backrooms uma exceção positiva à regra. Os personagens podem até habitar um universo semelhante ao nosso, mas a decisão de ambientar a história nos anos 1990 se mostra particularmente inteligente. Afinal, a primeira coisa que alguém faria ao entrar naquele espaço em 2026 seria sacar o celular, gravar vídeos, mandar mensagens, fazer stories ou pesquisar explicações na internet. Sim, a tecnologia já existia nos anos 90, e o filme até utiliza isso para construir alguns de seus momentos de found footage, mas a experiência seria completamente diferente se redes sociais como o Instagram existissem naquele contexto.

Ninguém vai pegar na sua mão para explicar exatamente o que são as Backrooms, e talvez isso seja uma das melhores decisões do filme. Há quem considere a adaptação comercial demais em comparação ao que a creepypasta representava originalmente, mas é difícil transformar anos de histórias, teorias e expansões de universo em um longa destinado ao grande público. A verdade é que desejar explicações e não recebê-las faz parte da experiência. Esperar que este seja o filme que finalmente explique o que são as Backrooms acaba sendo contraditório, já que a própria comunidade passou anos expandindo essa mitologia sem jamais chegar a uma resposta definitiva. A graça sempre esteve justamente nisso: ninguém sabe exatamente o que aquele lugar é.

O maior acerto da obra está justamente em brincar com esse mistério. A dependência de jumpscares tomou conta de boa parte do cinema de terror contemporâneo e, embora eles também estejam presentes aqui, funcionam de maneira diferente. A atmosfera por si só já desperta sensações imediatas de ansiedade, claustrofobia, calor, enjoo e desconforto. Sabendo disso, Kane Parsons explora esses sentimentos ao máximo, criando uma tensão constante que mantém o público na ponta da cadeira durante boa parte da projeção. Os sustos surgem de forma orgânica, sem depender dos recursos mais desgastados do gênero como o som estrondoso, o corte repentino ou o silêncio que praticamente anuncia o choque. Eles funcionam porque o medo já foi instaurado muito antes. Vale lembrar que estamos falando de um filme cuja maior parte se passa em um ambiente que, no papel, não é muito mais do que uma sequência de salas vazias em tons de bege.

Backrooms: Um Não-Lugar é mais do que apenas um filme de terror diferente. Ele consegue transformar um conceito aparentemente banal em algo gigantesco e genuinamente assustador justamente por estar nas mãos de alguém que entende essa linguagem melhor do que muitos diretores de blockbuster. O resultado é uma obra que não apenas adapta uma lenda da internet com respeito às suas origens, mas também demonstra que o cinema de terror ainda tem espaço para inovar e surpreender quando encontra as pessoas certas para conduzi-lo.

LIGHT

Ilumine e aumente a visibilidade — seja o primeiro!

Comentários
Bombando
Novo
comments

Compartilhe sua opinião!

Seja a primeira pessoa a iniciar uma conversa.