A Noiva! e a Emancipação pelo Caos Spoilers

Em A Noiva!, Maggie Gyllenhaal ressignifica a figura clássica da Noiva de Frankenstein para construir uma reflexão sobre objetificação feminina, violência e independência. Por meio de Ida, personagem interpretada por Jessie Buckley, o filme traça um paralelo entre a noiva, criada para ser apenas uma companhia, mas que desenvolve-se como um ser com vontade própria, com mulheres submetidas a diferentes formas de controle e abuso são frequentemente levadas a sufocar seus desejos, sua raiva e sua individualidade. Quando essa repressão finalmente encontra uma válvula de escape, o resultado é interpretado como insano, monstruoso.

Ambientado na Chicago dos anos 1930, o filme acompanha o solitário Frank. Em busca por alguém que possa compartilhar sua existência, a criatura do Dr. Frankestein procura a renomada cientista Dra. Euphronious (Annette Bening) e a convence a tentar recriar o experimento que lhe deu vida. Na empreitada, eles revivemuma jovem assassinada.

Além de abordar os limites éticos da ciência, o romance de Mary Shelley também tem o monstro como a materialização daquilo que a sociedade rejeita em si mesma. A criatura não é má, porém possui uma furia interna, que se transforma em violência, quando ele não consegue encontar seu lugar no mundo. Em A Noiva!, a fúria e inadequação são abordadas do ponto de vista feminino, já que a protagonista não se torna uma ameça apenas por recorrer a violência, mas por representar o rompimento com estruturas que exigem obediência e passividade, por reivindicar o direito de decidir sobre o próprio corpo, os próprios afetos e o próprio destino.

Um dos aspectos mais interessantes do filme é como a busca da personagem pela liberdade de viver sua própria vida reverbera na linguagem do filme. O clima caótico que permeia a narrativa é a expressão externa do processo vivido internamente pela personagem. Mudanças profundas são desorganizadas por natureza. Reconstruir-se exige atravessar períodos de conflito, dor e incerteza.

Esse caos e transformação vai além da trajetória individual da protagonista. Suas ações acabam por inspirar combatividade em outras mulheres, que se sentiam encurraladas e sem poder de escolha, gerando mais revolta e violência. Assim como as pessoais, grandes transformações sociais raramente acontecem de forma pacífica. Processos que desafiam relações desiguais de poder são, obviamente, recebidos como ameaças à ordem vigente. O caos, nesse sentido, torna-se parte inevitável da mudança, um abalo necessário para que novas possibilidades possam emergir.

Ao aproximar a jornada de emancipação da protagonista dessas tensões pessoais e coletivas, A Noiva! constrói uma obra em que horror e emancipação caminham lado a lado. O filme sugere que o horror vau além da ídeia de trazer os mortos de volta à vida, mas na própria desordem inevitável que acompanha qualquer transformação capaz de alterar estruturas profundamente enraizadas. Sob a ótica daqueles que se beneficiam do status quo, toda mudança assume um caráter monstruoso; e mesmo para quem se beneficia da mudança, vover o processo pode ser dolorosos. Afinal, quando alguém deixa de aceitar o papel que lhe foi imposto, seja uma mulher retomando o controle da própria vida ou uma sociedade questionando velhas estruturas de poder, o resultado é turbulento. E é justamente dentro desse caos que a personagem, antes deslocada finalmente encontra a possibilidade de existir por conta própria.

LIGHT

Ilumine e aumente a visibilidade — seja o primeiro!

Comentários
Bombando
Novo
comments

Compartilhe sua opinião!

Seja a primeira pessoa a iniciar uma conversa.