Completamente chapada, Jane (Anna Faris) desenha uma enorme carinha sorridente no céu. Ela ri e conversa com a figura, mas, de repente, o smiley face se transforma em uma caveira em chamas que grita em agonia. Essa imagem resume o que o próprio filme faz: rompe, de forma brusca, a comédia pastelão para revelar, aos poucos, o retrato de uma jovem adulta completamente perdida no mundo.

Smiley Face (2007) é uma viagem. Seja pelos delírios provocados pela maconha, pela grande jornada de Jane para completar uma pequena lista de tarefas ou pela própria mente da protagonista. Seja como for, Jane está perdida em tudo. O filme logo de cara nos coloca dentro de seu fluxo de consciência, onde pensamentos, memórias, arrependimentos e fantasias se atropelam constantemente. Com a voz de Roscoe Lee Browne, seu inconsciente invade a trama e trava um diálogo interno focado em responder à pergunta: “Como foi que eu cheguei até aqui?”.
Há muito acontecendo dentro de Jane, mais do que ela é capaz de expressar em palavras ou executar em seus planos. Suas ideias parecem brilhantes na cabeça, mas desmoronam ao entrar em contato com a realidade. Cada nova solução surge como uma tentativa desesperada de recuperar o controle, mas acaba apenas gerando mais caos.

Por trás das decisões absurdas e do comportamento aparentemente idiota de Jane, existe uma personagem surpreendentemente complexa. Aos poucos, o filme nos entrega as peças de um quebra-cabeça melancólico sobre sua vida: sua graduação em Economia ficou para trás; ela sobrevive fazendo bicos como atriz em comerciais de cerveja; nunca consegue administrar o próprio dinheiro e vive devendo para a melhor amiga; perdeu o namorado; está distante da família e divide o apartamento com um colega que claramente não suporta sua presença (e que possivelmente fode crânios nas horas vagas). Nada parece ter dado certo.

A maconha a ajuda a se dissociar dessa realidade que insiste em alcançá-la e puxá-la de volta, e é aí que Smiley Face apresenta seu subtexto político e queer. Jane é uma outsider que foge da normatividade, enquanto quase todas as pessoas que cruzam seu caminho funcionam como engrenagens caricatas do sonho americano e da lógica capitalista. Não por acaso, um dos objetos centrais da trama é um exemplar do Manifesto Comunista, cujas páginas explodem no final e alcançam cada um desses personagens.
Visualmente, essa oposição ganha força na direção de arte. Tudo o que envolve a maconha assume uma aparência mais vibrante, colorida e acolhedora, enquanto o restante do mundo se veste de tons neutros, burocráticos e hostis.

Mesmo quando o filme vacila em algumas piadas, Anna Faris contorna tudo com uma performance brilhante. A câmera sempre a observa de perto — as vezes criando um jogo interessante de olhar para Jane através dos olhares alheios ao mesmo tempo em que habitamos sua mente. Isso engrandece ainda mais sua atuação, com um timing cômico perfeito e ancorada em uma fisicalidade minuciosamente detalhada: o olhar perdido e semicerrado, as expressões faciais relaxadas, a falta de coordenação motora e até o ritmo exato da fala nos fazem acreditar totalmente na brisa da personagem.

Gregg Araki e Anna Faris provam que NADA é impossível para um gay e uma loira, ao criarem uma epopeia chapada que extrai humor de cada pequeno absurdo enquanto expõe o maior deles: a crença na prosperidade do modo de vida americano.


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