As respostas antes das perguntas 

Entrei em Toy Story 5 com a impressão de que o filme estava excessivamente preocupado com uma questão que parece assombrar os adultos contemporâneos: o que as crianças fazem diante das telas. Mas não foi exatamente o tema que me chamou atenção. Foi o modo como ele aparece.

Há algo curioso no primeiro ato. Antes mesmo que a narrativa encontre seu movimento, ela parece ocupada em justificar a si própria. Os pais de Bonnie recebem a Lilypad como quem administra uma questão técnica. Os diálogos explicam, antecipam, regulam. Em vários momentos tive a sensação de não estar diante de personagens reagindo a uma situação, mas diante de um roteiro tentando se precaver contra possíveis objeções. Como se uma ansiedade exterior ao filme atravessasse as imagens.

Talvez uma criança realmente deva ter momentos de calma. Talvez exista um problema concreto na relação contemporânea com as telas. Mas nenhuma dessas questões me pareceu estar verdadeiramente em jogo. O que se impunha era outra coisa: a impressão de que a resposta já existia antes da pergunta.

Por isso a Lilypad me interessou mais do que o conflito em si. Ela surge inicialmente como uma presença associada ao excesso de estímulos, mas aos poucos o filme desloca essa posição. Quando Bonnie é humilhada pelas amigas do grupo digital e abandona a ideia de recuperar Jessie, a própria Lilypad percebe que sua tentativa de ajudar produziu isolamento. Há algo inesperadamente melancólico nessa tomada de consciência. O tablet deixa de ser um objeto e passa a carregar uma espécie de culpa.

Não vejo aí um simples embate entre brinquedos e tecnologia. O percurso narrativo trabalha justamente para abandonar essa oposição. Jessie encontra os aparelhos antigos da Blaze. Diverte-se com eles. Descobre ritmos, limitações e formas de interação que não cabem na ideia de uma tecnologia puramente alienante. A própria brincadeira final integra bonecos, animais, softwares e dispositivos diversos dentro de uma mesma imaginação infantil.

E, no entanto, mesmo quando o filme parece abandonar o conflito inicial, permanece uma sensação de controle.

A personagem de Blaze talvez seja o melhor exemplo disso. Ela não aparece exatamente como uma criança, mas como uma solução. Sua sensibilidade, sua disponibilidade afetiva e sua maneira de brincar parecem existir para estabilizar um mundo que o filme considera desorganizado. Quando Bonnie encontra Blaze, não sinto o acaso de uma amizade; sinto o encaixe de uma peça previamente reservada para aquele lugar.

Algo semelhante acontece com as meninas do grupo digital. Elas não chegam a existir como presenças autônomas. Funcionam mais como vetores dramáticos necessários para produzir a rejeição de Bonnie e desencadear a transformação da Lilypad. O conflito se concentra nelas porque talvez seja mais fácil localizar um problema em indivíduos do que permanecer diante de questões mais amplas e difusas.

Essa tendência aparece de forma ainda mais clara no momento em que Jessie retorna ao fantasma de Emily.

A descoberta de que seu nome foi transmitido à filha de Emily deveria carregar algo do tempo perdido, algo daquilo que nunca retorna. Mas o filme não permanece nesse espaço por muito tempo. A imagem toca a ausência apenas para rapidamente convertê-la em reconciliação. O sentimento não se prolonga; ele é imediatamente colocado a serviço do próximo movimento narrativo.

Foi nesse ponto que comecei a perceber uma tensão curiosa. O filme fala repetidamente sobre aceitar o crescimento, deixar as coisas seguirem seu curso, reconhecer aquilo que não pode ser controlado. Mas sua estrutura parece desconfortável diante da própria ideia de descontrole. Cada problema encontra uma função. Cada conflito encontra uma acomodação. Cada emoção encontra um destino.

Talvez seja por isso que os momentos de humor envolvendo os aparelhos antigos tenham me parecido tão vivos. O tablet infantil para desfralde, os atrasos de processamento, a repetição absurda dos comandos: nesses instantes o filme parece confiar menos na mensagem e mais na observação. O riso nasce de ritmos, pausas e inadequações. Não há uma lição a ser extraída imediatamente. Há apenas a duração de uma piada encontrando sua forma.

Saí da sessão pensando que Toy Story 5 reconhece uma fratura real — a transformação da infância em um mundo atravessado pelo digital — mas tem dificuldade de permanecer diante dela. Em vez de habitar a contradição, procura conciliá-la. Não elimina a tecnologia; incorpora-a. Não rejeita o tablet; o integra à brincadeira. Mas essa integração acontece sob condições muito específicas, cuidadosamente organizadas para que nada escape do horizonte afetivo que o filme deseja preservar.

Talvez seja essa a sensação que ficou para mim. Não a de um filme tecnicamente pobre. Pelo contrário. As texturas, a iluminação, o desenho de som e a animação impressionam pela precisão. Mas a precisão técnica convive com uma forma excessivamente cautelosa. Como se cada imagem precisasse garantir ao espectador que tudo acabará encontrando seu lugar.

E talvez seja justamente aí que eu me afaste dele. Não porque discorde de suas respostas, mas porque raramente senti que ele estivesse disposto a permanecer tempo suficiente diante das perguntas.

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